Conceitos do Altruísmo Eficaz: Pobreza Global

Conceituando a extrema pobreza, a efetividade do auxílio e a questão do paternalismo na ajuda humanitária. Também apresentamos o conceito de carga global de doenças

1. Pobreza global

Segundo a mais recente estimativa do Banco Mundial, em 2013 cerca de 767 milhões de pessoas viviam com menos do equivalente a 1,90 US$ por dia, já ajustado para levar em conta o poder de compra (World Bank 2016). A falta de recursos econômicos tem consequência direta sobre muitos aspectos das vidas das pessoas, incluindo o acesso a educação e cuidado médico. Pobreza e saúde precária também comprometem seriamente o bem-estar de milhões de pessoas. É por isso que a pobreza econômica e a carga global de doença são áreas de foco primordiais para o altruísmo eficaz.

Como resultado da crescente desigualdade global, o custo de prevenir a morte é muito menor em países de baixa renda. Por exemplo, a GiveWell estima o custo por vida de uma criança salva, por meio de uma distribuição de redes mosquiteiras financiada pela Against Malaria Foundation, em cerca de 3.500 US$ (Give Well 2016). Em contraste, o Serviço Nacional de Saúde Britânico considera custo-efetivo gastar 25.000 US$-37.000 EUR para cada ano de vida saudável salva (Rigby 2014). Isso quer dizer que doações que trabalham na pobreza global e na saúde global podem ser muito custo-efetivas. A desigualdade global também afeta o impacto das transferências monetárias: dada a extensão da desigualdade global, um dólar para uma pessoa vivendo em pobreza extrema vale 66 vezes o que vale para o americano médio. (Weyl 2014)

Alguns se preocupam que empregar o auxílio para lidar com estas questões seja problemático. O altruísmo eficaz tem buscado tratar de várias destas preocupações, incluindo preocupações sobre efetividade do auxílio e auxílio e paternalismo.

2. Auxílio e paternalismo

Uma objeção popular a programas de auxílio é que eles envolvem uma forma injustificável de paternalismo. Segundo esta objeção, programas de auxílio pressupõem que agências internacionais de desenvolvimento e doadores de países de alta renda conseguem entender e resolver os problemas encarados por indivíduos em países em desenvolvimento melhor do que estes indivíduos ou os seus governos.

Uma abordagem para tratar desta preocupação é focar em áreas que forasteiros possuem um bom registro de contribuir efetivamente com especialidade focalizada, como saúde e nutrição. Isto então capacitaria cidadãos de países em desenvolvimento a melhorar áreas em que forasteiros carecem de tal especialidade. Outra abordagem é favorecer transferências monetárias incondicionais. Isso daria aos recipientes a capacidade de decidir como melhor fazer uso destes recursos.

3.Efetividade do auxílio

Há certa controvérsia sobre se, e em que medida, programas de auxílio internacional ajudam os pobres. Alguns críticos, como Dambisa Moyo e William Easterly, defendem que tais programas têm sido extremamente custosos e em grande parte ineficazes. (Moyo 2009; Easterly 2006).

Uma réplica a estas críticas é que os críticos focam em grande parte em programas de auxílio de governo para governo, em vez de simples intervenções que ajudam indivíduos diretamente, como programas de controle de malária, desparasitação, programas de micronutrientes e transferências monetárias (Karnofsky 2016). Outra réplica é que, ao considerar o custo do auxílio (1 trilhão US$), os críticos não levam em conta o número de pessoas afetadas (400 milhões) e o tempo decorrido (sessenta anos). Quando estes ajustes são feitos, acaba que o gasto total em auxílio na África equivale a 40 US$ por pessoa por ano. Uma terceira réplica é que os críticos tendem a focar em programas com efetividade média ou abaixo da média, em vez de nos maiores sucessos de auxílio, como o programa de erradicação da varíola. Mesmo que programas de auxílio internacional não tivessem realizado nada além de erradicar a varíola, eles teriam uma custo-efetividade de uma vida salva por 40.000 US$ (MacAskill 2015).

4. Pobreza econômica

A pobreza é um conceito multidimensional, incorporando uma série de fatores diferentes que impactam a vida dos pobres. O Banco Mundial usa uma linha de pobreza internacional de US$ 1,90 por dia (ajustado pelo poder de compra local) e estima que, em 2013, 10,7% da população mundial vivia abaixo dessa linha (Banco Mundial 2016). A falta de recursos econômicos tem consequências diretas em muitos outros aspectos da vida, incluindo segurança alimentar e acesso a serviços de saúde e água. Demonstrou-se que as transferências em dinheiro são uma maneira eficaz de combater a pobreza econômica em várias circunstâncias.

5.A carga global de doenças

A carga global de doenças é a carga coletiva de doenças produzida por todas as doenças pelo mundo. A Carga Global de Doenças (CGD) também é um programa de pesquisa colaborativo que coleta informação acerca da mortalidade e incapacitação causadas por diferentes doenças, danos e fatores de risco.

Para quantificar a perda de saúde, a CGD confia primeiramente no ano de vida ajustado para levar em conta as incapacitações (DALY ou Esperança de vida corrigida pela incapacidade EVCI). Esta medida permite comparações ao longo do tempo, entre diversos grupos etários e entre populações.

As descobertas da CGD são regularmente utilizadas para estabelecer a agenda de saúde global, e para tomar decisões concernentes à alocação de recursos escassos. Organizações que empregam a abordagem da importância, tratabilidade e negligencia frequentemente confiam na CGD para avaliar a promessa de lidar com várias doenças.

Intervenções custo-efetivas direcionadas à redução da carga global de doenças incluem programas de controle de malária, desparasitação, programas de micronutrientes e outros.

Leitura adicional

80,000 Horas. Saúde nos Países Pobres.

80,000 Horas. Fumo nos países em desenvolvimento.

Centre for Effective Altruism. Cause profile: Global Health and Development

Easterly, William. 2006. The white man’s burden: why the West’s efforts to aid the rest have done so much ill and so little good. New York: Penguin Press. (Critica o auxílio governamental como perdulário e fútil, e desenvolve algumas sugestões construtivas).

Give Well. 2016. Against Malaria Foundation (AMF). Versão Resumida em Português aqui.

Givewell. Your Dollar Goes Further Overseas.

Hillebrandt, Hauke. 2015. The cost of fighting Malaria, Malnutrition, Neglected Tropical Diseases, HIV/AIDS, and providing Global Surgery, compared to spending on Global Health.

Hillebrandt, Hauke. 2016. Median GDP per capita.

Institute of Health Metrics and Evaluation. 2016. About GBD. (Dá mais informações sobre o projeto Carga Global de Doenças).

Institute of Health Metrics and Evaluation. 2016. GBD Compare | Viz HubYou. (Uma ferramenta interativa muito interessante para explorar os resultados do estudo da Carga Global de Doenças).

Karnofsky, Holden. 2012. How not to be a “white in shining armor”.

Karnofsky, Holden. 2016. The lack of controversy over well-targeted aid. (Um blog post do GiveWell que explica a efetividade de auxílios bem-direcionados não é controversa).

Kaufman, Jeff. 2013. The Unintuitive Power Laws of Giving.

MacAskill, William. 2015. Doing good better: How effective altruism can help you make a difference. New York: Gotham Books, ch. 3. (Critica os céticos sobre auxílio por não considerarem o impacto dos programas de auxílio mais custo-efetivos, como a eliminação da varíola).

Moyo, Dambisa. 2009. New York: Farrar, Straus and Giroux. Dead aid: why aid is not working and how there is a better way for Africa. (Defende que recipientes de auxílios governamentais não ficam melhor como resultado deles, mas muito pior).

Ord, Toby. 2013. The Moral Imperative toward Cost-Effectiveness in Global Health.

Rigby, Jennifer. 2014. Why the NHS thinks a healthy year of life is worth £20,000.

Weyl, E Glen. 2015. The openness-equality trade-off in global redistribution.

The Economic Journal, forthcoming.

Wiblin, Robert. 2016. Is global health the most pressing problem to work on?

World Bank. 2016. Poverty and Shared Prosperity 2016: Taking on Inequality.

Tradução: Luan Rafael Marques

Revisão: Fernando Moreno

Os textos acima foram traduzidos dos seguintes links:

https://concepts.effectivealtruism.org/concepts/global-poverty/

https://concepts.effectivealtruism.org/concepts/aid-and-paternalism/

https://concepts.effectivealtruism.org/concepts/aid-effectiveness/

https://concepts.effectivealtruism.org/concepts/the-global-burden-of-disease/

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