Como as pedras se mexem – A África pode nos alcançar

Culturas Nações religiões e pessoas não são pedras. Elas estão em constante transformação.

A África pode nos alcançar.

A ideia de que a África está destinada a permanecer pobre é muito comum mas quase sempre está baseada em nada mais que um sentimento. Se você deseja que suas opiniões se baseie em fatos, isso é o que você precisa saber.

Sim, a África está atrás de muitos outros continentes, na média. A expectativa de vida média de um recém-nascido na África, hoje, é de 65 anos. Isso são impressionantes 17 anos a menos um bebê nascido hoje na Europa ocidental.
Mas antes de mais nada você deve saber quão enganador médias podem ser e as diferenças dentro da África são imensas. Nem todos países africanos estão atrás do resto do mundo. Cinco grandes países africanos — Tunísia Argélia Marrocos Líbia e Egito — possui expectativas de vida Acima da média mundial de 72 anos. Eles são a Suécia na década de 70.

Aqueles desesperançosos pela África podem não estar convencidos por esse exemplo. Eles podem dizer que todos esses são países árabes na costa norte da África e por isso não são a África que têm em mente. Quando eu era mais novo esses países certamente eram vistos como compartilhando o destino da África. Foi apenas depois de eles terem feito o progresso que passaram a ser considerados excepcionais. Mas, em benefício do argumento, vamos deixar esses países norte-africanos de lado e focar na África ao sul do Saara.
Nos últimos 60 anos quase todos países africanos ao sul do Saara deixaram descer colônias e se tornaram estados independentes. Durante esse tempo Tais países expandiram seus sistemas de educação, eletricidade, água e saneamento básico no mesmo compasso constante que foi alcançado pelos países europeus quando conduziram os seus próprios milagres. E cada um dos 50 países ao sul do Saara reduziu a mortalidade infantil mais rápido que os suecos conseguiram. Como isso não pode ser considerado como um progresso incrível?

Talvez porque apesar das coisas estarem muito melhores elas ainda estão ruins. Se você procurar pelos pobres na África Sem dúvida você irá encontrá-los.

Mas também havia pobreza extrema na Suécia 90 anos atrás. E quando eu era jovem, 50 anos atrás, China, Índia e Coreia do Sul estavam todos bem atrás da onde a África subsaariana encontra-se hoje na maioria das coisas e o destino da Ásia supostamente seria o destino da África hoje: “eles nunca conseguirão alimentar 4 bilhões de pessoas”.

Cerca de meio bilhão de pessoas na África de hoje estão presas na pobreza extrema. Se é o destino deles permanecer deste modo então deve haver algo muito excepcional com relação a esse grupo particular de pessoas pobres comparada com os outros bilhões de pessoas ao redor do mundo, incluindo a África, que já escaparam da extrema pobreza. Eu não penso que existe tal excepcionalidade.

Acredito que os últimos a deixarem a extrema pobreza serão os fazendeiros pobres presos a solos que produzem poucos grãos, cercados ou próximos a conflitos. Isso provavelmente contabiliza 200 milhões de pessoas, pouco mais da metade vivendo na África. Sem dúvida ele tem uma tarefa extraordinariamente difícil pela frente — Não por conta de culturas que não mudaram e imutáveis, mas sim por conta do solo e dos conflitos.
Mas eu não tenho esperança até mesmo para os mais pobres e desafortunados do mundo pois é exatamente assim se a extrema pobreza sempre pareceu: totalmente sem esperança. Durante as terríveis fomes e conflitos, progresso na China, Bangladesh e Vietnam pareciam impossíveis. Hoje esses países produzem a maior parte das roupas de seu guarda-roupa. 35 anos atrás ainda estava onde Moçambique está hoje. É totalmente possível que em 30 anos Moçambique se transforme, tal como fez a Índia, em um país Nível 2* e confiável parceiro comercial. Eu sabia que tem uma linda e bela Costa no Oceano Índico, futuro centro do comércio global. Por que não deveria prosperar?

Ninguém pode prever o futuro com 100% de certeza. Não estou convencido de que isso irá acontecer. Mas eu sou um possibilista e esses fatos me convencem: isso é possível.

O instinto do destino torna difícil para nós aceitar que a África pode alcançar o ocidente. O progresso da África, quando sequer notado, é visto como um improvável golpe de boa sorte, um rompimento temporário de seu destino empobrecido e rasgado por guerras.

O mesmo instinto de destino também nos leva a acreditar que o progresso do ocidente é garantido, com a atual estagnação econômica do ocidente sendo retratada como acidente temporário do qual em breve nos recuperaremos. Por muitos anos depois da crise de 2008 o FMI Manteve uma previsão de crescimento anual de 3% para os países de Nível 4*. Cada ano, por cinco anos, os países de Nível 4 falharam e alcançar tal previsão. Cada ano, por cinco anos, o FMI disse “ano que vem as coisas voltarão aos trilhos”. Finalmente o FMI percebeu que não havia um “normal” para voltar, e rebaixou sua expectativa decrescimento para 2%. Ao mesmo tempo o FMI reconheceu que o crescimento acelerado acima de 5% durante estes anos aconteceu em países Nível 2* como Gana, Nigéria, Etiópia e Quênia na África e Bangladesh na Ásia.

Por qual motivo isso importa? Uma razão é essa: a visão de mundo das previsões do FMI é muito influenciada por onde os seus fundos de investimento foram alocados. Dos países na Europa e na América do Norte são esperados crescimento rápido e confiável, o que os tornou atraentes aos investidores. Quando tais previsões se mostraram erradas e esses países de fato não cresceram rapidamente os fundos de investimento também não cresceram. Países supostamente de baixo risco e altos retornos demonstraram ser países de alto risco e baixo retorno. Ao mesmo tempo países africanos com grande potencial de crescimento estavam famintos por investimentos.

Outra razão pela qual isso importa, se você trabalha numa empresa do “antigo ocidente” é que você provavelmente está perdendo oportunidades na maior expansão do mercado consumidor de renda média da história, acontecendo agora na África e na Ásia. Outras marcas locais já estão estabelecendo suas raízes, alcançando o reconhecimento para suas marcas e se espalhando por esses continentes enquanto você ainda está acordando para o que está acontecendo. O mercado consumidor ocidental era apenas um aperitivo para o que vem a seguir.

Páginas 170 a 173 do livro Factfulness por Hans Rosling, criador da Gapminder.

*Rosling argumenta que a divisão do mundo clássica entre países desenvolvidos e países subdesenvolvidos está totalmente antiquada e mais atrapalha do que ajuda a entender o estado de coisas no mundo atual.

Diante disso, Rosling propõe imaginar uma “Rua do Dólar”, onde “todas as casas estão enfileiradas pelo nível de renda familiar, os mais pobres vivendo à esquerda e os mais ricos à direita da calçada”.

Assim, no nível 1 (pobreza extrema) estão as famílias com renda per capita de até 2 dólares por dia. Hoje, esse contingente é formado por 1 bilhão de pessoas.

No nível 2, estão as com renda per capita entre 2 e 8 dólares por dia, totalizando 3 bilhões de pessoas.

As famílias com renda per capita entre 8 e 32 dólares por dia ocupam o nível 3, somando 2 bilhões de pessoas.

Os que ganham acima de 32 dólares por dia – 1 bilhão de pessoas, a elite mundial – estão no nível 4.

Tradução: Fernando Moreno

As rochas deslizantes de Racetrack Playa são um fenômeno geológico que ocorre no Vale da Morte, especialmente no lago seco chamado Racetrack Playa

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