Fumo nos países em desenvolvimento

Autor: Robert Wiblin, Publicado em 06 de abril de 2016

Traduzido de: https://80000hours.org/problem-profiles/tobacco/

Resumo

Fumar representa um grande prejuízo à saúde humana – sendo responsável por cerca de 6% de todos os danos à saúde no mundo, de acordo com as melhores estimativas. Isso é mais que HIV e a malária juntos. Apesar disso, fumar está em ascensão em vários países em desenvolvimento, pois as pessoas ficam mais ricas e podem pagar pelos cigarros.

Há um espectro de políticas que se mostraram capazes de reduzir as taxas de tabagismo, que normalmente não são aplicadas nos países em desenvolvimento. As formas mais naturais de enfrentar o problema através da sua carreira incluem ser especialista em políticas de saúde, ou ativismo através de jornalismo, centros de pesquisa (think tanks) e pela via política. Essa é uma causa particularmente promissora para as pessoas vivendo em um país em desenvolvimento com altas taxas de tabagismo.

Nota do Tradutor: o Brasil, apesar de ser um país em desenvolvimento, possui taxas baixas de tabagismo, em grande medida graças a diversas políticas bem-sucedidas de conscientização da população quanto aos danos causados pelo cigarro. Talvez não seja uma área prioritária de se atuar em nosso país, portanto.

Nossa visão geral

Recomendação esporádica

Este é um problema prioritário para se trabalhar, mas você pode ter um impacto ainda maior trabalhando em outras coisas.

Escala?
O dano causado pelo tabagismo nos países em desenvolvimento é de cerca de 100 milhões de anos de vida anualmente, e isso pode facilmente ser cortado pela metade.
Negligência?
O valor coletivo de filantropia e burocracia trabalhando no controle do tabaco é entre 100 e 1.000 milhões de dólares.
Capacidade de Resolução?
Várias pessoas relevantes apoiam a causa, mas existe grande oposição vinda do status quo.

Qual é o problema?

A Organização Mundial da saúde (OMS) estima que o tabagismo é a maior causa de morte prevenível do mundo. Fumar é responsável por quase 6 milhões de mortes todos os anos ou a perda de 140 milhões de anos de vida saudável, com quase 80% disso recaindo em países de baixo ou médio poder aquisitivo,1 um fardo maior que a malária e o HIV juntos.2 Como mostram alguns estudos feitos nos Estados Unidos, o vício em um maço por dia leva a mortes que representam, em média, a perda de 10 anos de vida.3

Coletivamente, o tabagismo é responsável por 5 a 6% de todos os problemas de saúde do mundo, de acordo com o estudo do Global Burden of Disease, e essa parcela está crescendo com o tempo.

Porquê este é um problema prioritário?

No que nossa recomendação se baseia?

Muitas pessoas na área de desenvolvimento4 e saúde pública5 veem este como um excelente problema para intervenção visando melhorar a saúde global.

Avaliações feitas por avaliadores de ONGs de saúde globais e as fundações The Open Philanthropy Project, Giving What We Can, Copenhagen Consensus e o Centre for Global Development (CGD) mostraram que intervenções públicas contra o tabaco são custo efetivas, inclusive o CGD chamou as taxações sobre tabaco de “A Melhor Política de saúde pública do Mundo”. Esse artigo é amplamente baseado nas pesquisas deles.

Que a Gates Foundation tenha comprometido US$125 milhões em 5 anos, e a Bloomberg Foundation tenha empenhado US$220 milhões em 4 anos demonstra com clareza que filantropos respeitados veem a causa como urgente.

Porquê é prioritário?

O uso do tabaco está aumentando em países de baixo e médio poder aquisitivo e se nenhuma atitude for tomada, o número de mortes por tabagismo está projetado para crescer para mais de 8 milhões em 2030, chegando à perda de mais de 200 milhões de anos de vida saudável.6
Os pesquisadores do Copenhagen Consensus Centre estimam uma perda de 12,7 trilhões de dólares pelo tabaco nos próximos 20 anos – ou 1,3% do PIB mundial por ano – sendo este o causador de um terço das mortes por doenças cardíacas, metade dos cânceres e 60% das doenças respiratórias crônicas.7

Além disso, é claríssimo como o uso do tabaco pode ser reduzido, e muitos países obtiveram sucesso reduzindo significativamente os números do tabagismo. Taxar os produtos com tabaco parece reduzir em 4% o consumo para cada 10% de aumento no preço.8 Tal política não custa nada ao governo – na verdade, aumenta a arrecadação.
O maior fator limitante é a falta de entusiasmo político em torno de políticas públicas desse tipo, que podem sofrer resistência das empresas do tabaco, os próprios fumantes, e daqueles que se opõem à interferência na escolha das pessoas dentre fumar ou não.

Apesar dos ganhos, muitos países em desenvolvimento não tem programas antitabagismo efetivos. Por exemplo, pesquisa da OMS sobre consumo adulto de tabaco na China mostrou que apenas 23% dos adultos chineses sabiam que fumar causa câncer de pulmão, ataques cardíacos e acidentes vasculares cerebrais.9 A taxação dos cigarros na China é de apenas 40%, significativamente menor que a maioria dos países desenvolvidos e do montante recomendado pela OMS.10

Medidas que pudemos identificar para desencorajar o tabagismo custam menos de 1 dólar anual por fumante nos países desenvolvidos.

Quais os maiores argumentos contrários a essa ser uma causa prioritária?

  • Companhias de tabaco resistirão às tentativas de regular cigarros, fazendo com que as tentativas de lobby sejam desafiadoras.
  • Já existem vários esforços sendo feitos por alguns doadores e especialistas em saúde pública para resolver o problema (leia em “Quem mais está trabalhando na causa?”).
  • Alguns acreditam que é muito paternalista tentar impedir pessoas de fumar se elas o escolhem fazer, ou que é racional fumar, já que as pessoas gostam disso.
  • Na prática, não parece muito fácil para nós, no Brasil, influenciarmos políticas contra o tabaco em países como a China, onde a maior parte do crescimento do tabagismo está acontecendo.
    A China é especialmente interessante porque todo o tabaco é vendido pelo governo, e o fumo é responsável por 7-10% do orçamento dele, então isso implica que existirão vários grupos de interesse por trás para competir na causa.11
  • Pode acontecer que melhorar a saúde não afete muito o progresso a longo prazo ou o destino da civilização humana, fazendo com que isso seja menos importante do que parece com base no efeito causado a curto prazo no bem-estar.

Pontos chave para priorizar a causa

  • Tentativas de mudar a política pública para desencorajar o tabagismo funcionarão a um preço razoável.
  • É bom desencorajar as pessoas a fumar, porque o dano à saúde excede qualquer ganho que elas recebem enquanto fumam.
  • Existem países em desenvolvimento que ouviriam especialistas estrangeiros para ajudá-los a efetivar políticas de controle do tabaco.

O que você pode fazer quanto a este problema?

Do que se precisa para contribuir com a causa?

A maioria dos métodos para diminuir mortes pelo tabaco são relativamente conhecidas e foram testadas em países desenvolvidos. Por exemplo, o pacote de políticas públicas “MPOWER”, desenvolvido pela OMS1 recomenda o seguinte:

  • Monitoramento do uso do tabaco e medidas de prevenção
  • Proteger as pessoas de serem fumantes passivos
  • Oferecer ajuda para cessar com o uso do tabaco
  • Advertir quanto aos riscos do tabaco
  • Fazer-se cumprir as proibições quanto a propagandas, promoções e patrocínios de cigarros
  • Aumentar os impostos sobre o tabaco

Essa abordagem e os possíveis impactos são descritos em detalhe num documento liberado pela OMS recentemente.10

A promoção de cigarros eletrônicos é uma nova e potencialmente valiosa maneira de ajudar as pessoas a pararem a fumar, apesar de controversa.12

Como resultado do fato dessas intervenções serem muito bem estudadas e dificilmente poderem ser drasticamente melhoradas, a implementação é o ponto principal. Isso significa planejamento e ativismo por melhores políticas governamentais através do serviço público, academia, centros de pesquisa (think tanks) e partidos políticos.
Dada a alocação de recursos que foi feita recentemente (veja “Quem mais está trabalhando nesta causa?” abaixo), é provável que a área esteja com uma lacuna de talento.

Quais principais aptidões e recursos são necessários?

Pessoas com experiência em:

  • saúde e políticas econômicas:
    • Conhecimento de resultados de políticas públicas.
    • Influência em implementar ou promover mudanças.
  • saúde pública:
    • Melhorar nosso conhecimento da efetividade e a custo eficácia de cada intervenção para reduzir o consumo de tabaco.

Quem mais está trabalhando na causa?

  • Governos nacionais, em particular os Ministérios da Saúde, muitos deles tendo programas para desencorajar o fumo.
  • A OMS dá suporte a países que querem diminuir o uso do tabaco.
  • Duas fundações também dão um suporte significativo:

Somando a filantropia os acadêmicos e funcionários públicos trabalhando com medidas de controle de tabaco, estimamos que os recursos indo diretamente para medidas antifumo estão entre 100 e 1.000 milhões de dólares por ano.13

Considerando quão negligenciada a causa é, nós não podemos esquecer os entusiastas no público geral, que desencorajam pessoas a fumar e votam em favor das políticas públicas antifumo, embora não saibamos exatamente como calcular o valor dos mesmos.

Como você pode ajudar concretamente?

  • Gradue-se nas áreas de políticas públicas, saúde pública, ciências  sociais baseadas em evidências ou economia.
  • Conduza pesquisa acadêmica para descobrir qual a política de controle mais efetiva e custo eficaz para o tabaco; ou estude como essas políticas podem ser promovidas em países que ainda não as têm.
  • Trabalhe em alguma dessas organizações:
    • Gates Foundation
    • Bloomberg Foundation
    • World Lung Foundation
    • Campaign for Tobacco-Free Kids
    • Organização Mundial da Saúde
    • Centers for Disease Control and Prevention Foundation
    • Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health

Diversas posições que tenham voz ativa no debate público podem ser usadas de alguma forma para atacar o problema do tabaco. Por exemplo, pode-se usar especialidades como:

  • A de um jornalista, expondo o tabaco como um problema de saúde pública e pressionando pela adoção de políticas públicas, ou ajudar outros jornalistas a fazê-lo;
  • A de um acadêmico ou pesquisador, podendo escrever propostas políticas para um centro de pesquisa (think tank);
  • A de um político, aprovando políticas que promovam a redução ou proibição do tabaco baseadas em evidências científicas; ou
  • A de um ativista, aumentando o nível de conscientização quanto ao uso do tabaco.

Se você está apto a fazer algumas dessas atividades, você pode solicitar financiamento de alguma das fundações acima listadas. Esses tipos de ativismo são particularmente promissores se você já tem experiência concreta em um país mais pobre e com altas taxas de tabagismo.

Por último, pode-se também ganhar para doar, doando diretamente para organizações e campanhas antitabaco. Nós não investigamos oportunidades para filantropia nessa área ainda, mas algumas ONGs aceitam doações, como a Campaign for Tobacco-Free Kids. Pode-se simplesmente doar para quaisquer projetos que as grandes fundações que atuam nessa área também estão financiando.

Leia também

Notas

  1. “O tabaco é a maior causa de morte evitável no mundo de hoje, matando até metade das pessoas que o usam. Mais de um bilhão de pessoas no mundo atualmente fumam tabaco – cerca de um quarto dos adultos – e o uso de tabaco atualmente mata mais de cinco milhões de pessoas em todo o mundo a cada ano. O uso do tabaco continua a crescer nos países em desenvolvimento devido ao crescimento populacional constante junto com os agressivos esforços de marketing da indústria do tabaco. ”MPOWER: Um pacote de políticas para reverter a epidemia do tabagismo”. “Quase 80% dos mais de um bilhão de fumantes vivem em países de renda média, onde o peso das doenças relacionadas ao tabaco e da morte é maior.” WHO Fact Sheet on Tobacco 2013 SourceArchive ↩️
  2. DALYs perdidos para: Malaria: 65,493,100 HIV: 69,363,400 Tabaco: 143,512,000 Fonte: Institute for Health Metrics and Evaluation, Global Health Data Exchange (GHDx), GBD 2013 Results by Risk Factor (Table 3), and GBD 2013 Disability-Adjusted Life Years (Table 1), 2013 SourceArchive ↩️
  3. “A expectativa de vida foi reduzida em mais de 10 anos entre os fumantes atuais, em comparação com aqueles que nunca fumaram. Adultos que pararam de fumar com idade entre 25 a 34, 35 a 44, ou 45 a 54 anos ganharam cerca de 10, 9 e 6 anos de vida, respectivamente, em comparação com aqueles que continuaram a fumar.” Jha, Prabhat, et al. “21st-century hazards of smoking and benefits of cessation in the United States.” New England Journal of Medicine 368.4 (2013): 341-350. SourceArchive ↩️