Parte 8: Qual carreira é ideal para você?

Parte 8: Qual carreira é ideal para você?

NOTA: essa é uma tradução não oficial do Guia de Carreiras original e pode não corresponder a versão mais atualizada, a qual pode ser acessada em: https://80000hours.org/career-guide/personal-fit/

Por Benjamin Todd, última atualização em Abril de 2017

Todo mundo diz que é importante achar um trabalho em que você seja bom, mas ninguém diz como achar.
O conselho mais comum é pensar por umas semanas até que você “descubra seu talento”. Pra ajudar, conselheiros de carreira vão te recomendar testes. Outros recomendam tirar um ano sabático, fazer reflexões profundas, ponderar diferentes opções, e tentar descobrir o que realmente te motiva… e então ir pra tudo quanto é lado.


Mas como vimos num artigo anterior, se tornar excelente em algo leva décadas de prática. Então, em grande medida, suas habilidades são muito mais construídas do que “descobertas”. Darwin, Lincoln, JK Rowling e Oprah todos falharam no começo de suas carreiras, mas mais pra frente completamente dominaram suas respectivas áreas.
Nos relatórios de professores da escola de Albert Einstein em 1895 é possível ler a sentença “Ele nunca vai dar em nada”.


Ao se perguntar “no que eu sou bom?” você desnecessariamente diminui em muito suas opções. É melhor perguntar: “no que eu posso me tornar bom?”


Colocando isso de lado, o maior problema é que esses métodos não funcionam. Tem várias pesquisas mostrando que é muito difícil prever no que você será bom no futuro, especialmente somente “seguindo seus instintos” e, ao que se sabe, testes de carreira também não funcionam.

Ao invés disso, a melhor maneira de achar a carreira certa para você é ir investigar – aprender sobre testar suas opções, olhando ao redor em detrimento de olhar para dentro.


Aqui, nós explicaremos porquê e como.

Tempo estimado de leitura: 20 minutos.

Em resumo

  • Seu nível de aptidão pessoal em um trabalho depende das suas chances de se destacar nele, caso você se dedique. A aptidão pessoal é ainda mais importante do que a maioria das pessoas pensam, porque aumenta seu impacto, satisfação no trabalho e capital de carreira.
  • Pesquisas mostram que é muito difícil descobrir no que você será bom com antecedência, especialmente através da reflexão pessoal.
  • Ao invés disso, investigue. Depois de um corte inicial de suas opções, aprenda mais e vá tentar exercê-las.
  • Minimize os custos de explorar suas opções fazendo testes baratos primeiro (normalmente isso começa conversando com as pessoas), então vá tentando exercê-las na melhor ordem (ex.: trabalhar no setor privado antes de migrador para o terceiro setor).
  • Vá adaptando seu plano com o tempo. Pense como um cientista investigando uma hipótese.

Ser bom no seu trabalho é mais importante do que você pensa

Todo mundo concorda que é importante achar um trabalho em que você seja bom. Mas nós pensamos que é ainda mais importante do que a maioria das pessoas pensam, especialmente se você se importa com o impacto social.

Primeiro, as pessoas mais bem-sucedidas em uma área são responsáveis por uma parcela desproporcional de impacto. 

Um estudo de referência acerca de especialistas de alta performance descobriu que: 1

Uma pequena porcentagem de trabalhadores em qualquer nicho é responsável pelo grosso do trabalho. De forma geral, 10% da “elite de performance” responde por mais ou menos 50% de todas as contribuições, enquanto os outros 50% dos trabalhadores menos produtivos são responsáveis por 15% do trabalho total, e o contribuinte mais produtivo é geralmente 100 vezes mais prolífico que o menos produtivo.

Então, se você mapear o grau de sucesso num gráfico, iria ser assim:

É o mesmo formato pontiagudo dos gráficos que já vimos antes diversas vezes nesse guia.
No artigo sobre trabalhos de alto impacto, nós vimos isso em áreas como pesquisa e ativismo. Em pesquisa, por exemplo, os 0,1% de papers de mais destaque recebem 1000 vezes mais citações do que a média.
Existem algumas áreas em que essa desproporcionalidade é ainda mais aguda, mas um grande estudo concluiu que as melhores pessoas em quase qualquer área têm significativamente mais produção do que a pessoa típica. Quanto mais complicada a área, mais significativo é esse efeito: ele é bem perceptível profissões como administração, vendas e medicina.
Claro que algumas dessas diferenças são por mera sorte: mesmo que todos fossem igualmente bons, provavelmente ainda existiriam grandes diferenças em resultados apenas porque algumas pessoas dão sorte e outras não. Entretanto, alguma parte disso se deve quase com certeza pela destreza e isso significa que você terá muito mais impacto se escolher uma área da qual você gosta do trabalho e tem compatibilidade com ele.

Em segundo lugar, ter sucesso na sua área de atuação te dá mais capital de carreira, o que pode abrir mais opções de alto impacto mais tarde. Também te dá influência e dinheiro, que podem ser usados para promover boas causas. Pense, por exemplo, no impacto que Bono Vox teve ao passar a fazer ativismo pela pobreza global.

Em terceiro lugar, ser bom no trabalho e adquirir um senso de domínio em sua área é uma parte vital de estar satisfeito no trabalho. Falamos sobre isso no primeiro artigo.

Quarto, como vimos anteriormente, os trabalhos com menor chance de serem automatizados são os que envolvem alto nível de destreza e competência, e a tecnologia está aumentando as recompensas àqueles com excelentes performances.

Isso tudo é o motivo da aptidão pessoal ser um dos fatores chave a ser procurado em um trabalho. Nós aqui consideramos “aptidão pessoal” como sendo as chances que você tem em ser excelente num trabalho, caso trabalhe nele.

Se juntarmos tudo o que falamos até agora neste guia, essa seria a fórmula para um trabalho perfeito:

Se você for comparar duas opções de carreira, pode usar essas fatores para uma comparação lado a lado (leia mais).

Aptidão pessoal é um multiplicador de todo o resto, e isso significa que é provavelmente mais importante que os outros três fatores. Então, nós jamais recomendaríamos um trabalho de “alto impacto” no qual você performa mal. Mas como você pode descobrir onde terá a melhor aptidão pessoal?
Nós esperamos que você tenha tido algumas ideias para opções a longo prazo (lendo textos anteriores deste guia). Agora nós explicaremos como reduzi-las e encontrar a carreira certa para você.


(Nota “avançada”: se você já estiver trabalhando como parte de uma comunidade, então sua vantagem comparativa aos demais dentro dela é muito importante. Leia mais.)

Porquê reflexão pessoal, intuição e testes de carreira não funcionam

Nota: Depois que este artigo foi escrito, saiu uma versão atualizada da meta análise que citamos abaixo. Os resultados (na imagem 2) foram iguais, exceto que os testes quanto a realizar uma “amostra” do trabalho pareceram menos promissores (embora ‘procedimentos de testes de emprego’, ‘avaliações de colegas’ e ‘testes de conhecimento sobre o trabalho’ continuaram razoavelmente bons e são bem parecidos com “realizar amostras do trabalho”); e a realização de entrevistas parece ainda mais promissor. Isso pode implicar em um maior foco em tentar prever sua performance a partir de conversas com gerentes na área de interesse. Esperamos fazer uma melhor análise desta pesquisa no futuro.

É difícil de prever seu desempenho futuro

Quando pensando em qual carreira escolher, nosso primeiro instinto é olhar pra dentro e não pra fora: “seguir seu instinto” ou “seguir seu coração”.

Essas abordagens supõem que conseguimos imaginar aquilo em que seremos bons antes de fazê-lo. Mas na verdade, não conseguimos.

Aqui está o melhor estudo que pudemos encontrar até agora sobre como prever desempenho em diferentes trabalhos. É uma meta análise de testes de seleção usado por empregadores, feita a partir centenas de estudos ao longo de mais de 85 anos.2 Aqui estão alguns resultados:

Tipo de teste de seleção Correlação com desempenho no trabalho (r)
Realizar amostras de trabalho 0.54
Testes de QI 0.51
Entrevistas (estruturadas) 0.51
Avaliação por colegas (peer ratings) 0.49
Testes de conhecimento da função 0.48
Procedimento para “experimentar” o trabalho 0.44
Testes de integridade 0.41
Entrevistas (desestruturadas) 0.38
Experiência no trabalho 0.18
Anos de formação 0.1
Tipologia de Holland 0.1
Grafologia 0.02
Idade -0.01

Nenhum destes testes se saiu muito bem. Correlações de 0.5 são bem fracas, então mesmo que você tente prever usando as melhores técnicas possíveis, você estará “errado” na maior parte do tempo: candidatos que parecem ruins com frequência ficam bons, e vice versa.
Qualquer pessoa que contratou pessoas antes irá te falar que é exatamente isso que acontece, e há evidência sistemática disso3.
Dado que contratar é um processo muito caro, contratantes realmente desejam escolher os melhores candidatos e eles sabem exatamente o que o trabalho exige. Se até eles, usando os melhores testes disponíveis, não conseguem descobrir exatamente quem vai desempenhar melhor a função com antecedência, você provavelmente não tem muitas chances também.

A Oprah trabalhou como âncora de jornal no começo da carreira, e foi eventualmente acabou sendo demitida como “não tendo aptidão para a TV”. Hoje ela é uma das apresentadoras de TV mais bem-sucedidas de todos os tempos.

Não siga seu instinto

Se você fosse tentar prever seu desempenho, “seguir seu instinto” não seria a melhor forma de o fazer. Pesquisas científicas sobre tomada de decisão coletadas durante várias décadas mostram que a tomada de decisão intuitiva só funciona em certas circunstâncias.
Por exemplo, sua intuição pode te mostrar bem rapidinho se alguém está bravo contigo. Isto é porque o cérebro é biologicamente interligado para nos mostrar de forma ágil quando estamos em perigo.

Sua intuição pode ser maravilhosamente precisa quando treinada. Mestres do xadrez têm uma estupenda intuição para os melhores movimentos, e isso é porque eles treinaram a intuição jogando inúmeros jogos parecidos, e criaram um senso daquilo que funciona e do que não funciona.
No entanto, decisões por intuição são bem pobres quando os assuntos são o quão rápido um negócio vai crescer, quem vencerá uma partida de futebol, e quais notas um estudante vai receber. Anteriormente, nós também vimos que nossa intuição é ruim em perceber o que nos fará feliz. Isso porque nossa intuição não-treinada erra muito e, nessas situações, é difícil treinar a intuição para que desempenhe melhor.
Decisões de carreira são mais parecidas com estes últimos casos do que com o exemplo dos mestres do xadrez. É difícil treinar a intuição quando:

  1. Os resultados das nossas decisões demoram muito tempo para se concretizar.
  2. Temos pouquíssimas oportunidades para praticar.
  3. A situação muda o tempo todo.

Estes três pontos se aplicam na escolha de carreiras: nós só podemos tomar algumas poucas decisões importantes de carreira em nossas vidas, demora anos para ver os resultados, e o mercado de trabalho muda o tempo todo.
Isso tudo significa que sua intuição pode te dar dicas sobre a melhor carreira. Pode te mostrar coisas como “eu não confio nessa pessoa” ou “não estou animado com esse projeto”. Mas você não pode simplesmente “seguir seu instinto”.

Em diversas áreas, a intuição está sendo substituída por abordagens de previsão de sucesso que realmente funcionam. O livro (e posteriormente filme) Moneyball conta a história de como analistas viciados em informações e dados mudaram a tradicional forma de encontrar talentos do baseball, que antes usava intuição e métricas não testadas.


(Veja nossa revisão de evidências para mais detalhes. Nós também recomendamos o maravilhoso livro Rápido e Devagar: Duas formas de Pensar do Daniel Kahneman.)

Porquê testes vocacionais também não funcionam 

Muitos testes vocacionais são construídos sob a “Tipologia de Holland” ou alguma classificação parecida. Esses testes te classificam como um dos seis “tipos de Holland”, como “artista” ou “empreendedor”. Depois, recomendam carreiras que combinam com esse tipo.

Entretanto, podemos ver ali em cima que a “Tipologia de Holland” uma correlação muito fraca com o desempenho. Tal tipologia também está muito pouco correlacionada com a satisfação no trabalho. Por isso não recomendamos usar testes vocacionais tradicionais.

O que funciona na busca aquilo em que podemos ter excelência? Tentativa e erro.

Na tabela acima, os testes que melhor previram o desempenho futuro são aqueles mais próximos de efetivamente fazer o trabalho (com a interessante exceção do teste de QI). Isso é provavelmente o que deveríamos ter esperado.
Uma “dose amostral do trabalho” trata, simplesmente, de fazer um pouco do trabalho e então ter seus resultados avaliados por alguém experiente. As avaliações por colegas medem o que eles acham de seu desempenho (sendo assim, tal ferramenta só pode ser usada para promoções internas). Procedimentos de testes do trabalho e testes de conhecimento do trabalho são exatamente o que parecem ser.

Deste modo, se você estiver escolhendo dentre muitas opções, é importante antes pesquisar sobre as áreas. Contudo, uma hora ou outra você terá que efetivamente tentar fazer as atividades. Quanto mais próximo que você puder chegar da experiência de realmente executar o trabalho, melhor. Por exemplo, se você está considerando trabalhar com pesquisa econômica, de fato conduza alguma pesquisa e veja o quão bem você se sai, ao invés de apenas pensar no quanto você gosta de estudar o assunto – estudá-lo é muito diferente da experiência de estar realizando o trabalho de pesquisa naquela área.


Isso é verdade tanto quando você está no começo da carreira quanto no final, e tanto quando está planejando o que fazer a longo prazo, quanto comparando duas ofertas ou mesmo planejando pedir demissão.

Então, se há um trabalho no qual você está interessado, veja se há uma maneira de fazê-lo antes. Se você tem em mente três opções a longo prazo e não sabe qual escolher, veja se consegue testar cada uma delas nos próximos anos.

Se você está escolhendo em qual restaurante vai comer, a aposta não é alta o suficiente para precisar de tanta pesquisa. Mas uma escolha de carreira vai influenciar décadas da sua vida, então facilmente merece semanas ou meses de trabalho.

No início da carreira, a exploração é ainda mais importante
No começo, você sabe pouco sobre seus pontos fortes e opções.
Tendo passado alguns anos aprendendo mais, poderá tomar decisões melhores para as próximas décadas. Se possível, é melhor conduzir essa exploração o mais cedo possível, para que você possa usar as lições aprendidas mais tarde. (Nota do Tradutor: Exploração aqui está sendo usada no sentido similar ao de Pesquisa Exploratória).
Considere também tentar um ou dois “coringas” para aumentar sua experiência. Coringas seriam opções incomuns que estariam descolados de seu trajeto principal, tal como morar em um novo país, buscar um projeto paralelo para se dedicar, ou tentar uma área em que você normalmente não trabalharia (ex.: governo, ONGs, negócios sociais).

Muitas pessoas de sucesso fizeram exatamente isso. Tony Blair trabalhou como produtor de bandas de rock antes de entrar pra política. Como vimos, Condoleezza Rice era pianista de música clássica antes de entrar para a política, enquanto Steve Jobs passou um ano na Índia sob efeito de LSD e considerou até ir pro Japão virar um monge zen. Isso é “exploração” pra valer!
Hoje, é amplamente aceito o fato de que muitas pessoas vão trabalhar em várias áreas e desempenhar diversos papéis diferentes na vida. E média, a pessoa de 25 a 34 anos muda de trabalho a cada três anos,4 e mudanças depois dessa idade também não são incomuns.
Testar várias opções também pode lhe ajudar a evitar um dos maiores erros na carreira: considerar poucas opções. Nós conhecemos muita gente que caiu de paraquedas em doutorados, medicina ou direito porque eles acharam, na época, que aquele era “o padrão” a ser feito, mas que, se tivessem considerado mais opções, poderiam facilmente ter encontrado algo que combinasse muito mais com eles. Se forçar a testar várias áreas irá lhe ajudar a não cometer esse erro. Tente se comprometer com um objetivo muito cedo e você poderá perder uma excelente opção.
Dito isso, explorar pode sair caro. Testar um trabalho pode levar vários anos e mudar de trabalho com frequência pode fazer com que para algumas pessoas você pareça descomprometido. Como explorar mantendo os custos baixos?

Condoleezza Rice era uma talentosa pianista antes de se mudar para a política. Ela não supera Steve Jobs no quesito “exploração”: ele considerou seriamente se tornar um monge zen antes de entrar na tecnologia.

Como diminuir suas opções

Você não pode testar tudo, então, antes de explorar, precisamos diminuir suas opções a longo prazo em uma pequena lista. Como resumi-la? Como instintos não são confiáveis, é melhor ser um pouco mais sistemático.
Muitos tentam fazer listas de prós e contras, mas existem algumas fraquezas nesse método. Primeiro, não há garantia que os prós e contras que vêm à mente serão aspectos importantes na decisão. Em segundo lugar, listas de prós e contras não te forçam a olhar para evidências pouco favoráveis ou gerar mais opções, e essas são duas poderosas maneiras de tomar melhores decisões. É fácil usar tais listas para “justificar racionalmente” aquilo em que você já acredita.
Aqui está um processo que recomendamos para restringir suas opções. Ele se baseia em uma revisão de literatura científica sobre tomada de decisão e o que funcionou bem nos aconselhamentos um-a-um. Você também pode usar quando quiser comparar opções para diminuí-las ou comparar seu trabalho atual com outras alternativas.

1. Faça uma lista enorme de opções

Escreva sua lista inicial, incluindo nela tanto em quais problemas você quer se focar e quais papeis você quer desempenhar, por exemplo, economista pesquisador focado em saúde global; chefe de marketing para uma companhia de substitutos de carne; engenheiro de software que ganha para doar.
E então se force a incluir mais opções. Você pode achar ideias em nossos artigos anteriores (principalmente capítulos 4 e 6). Mas aqui estão algumas perguntas para te ajudar a pensar mais um pouco:

  1. Se não pudesse seguir em nenhuma das opções na sua primeira lista, o que você faria?
  2. Se dinheiro não importasse, o que você faria?
  3. O que seus amigos o aconselham a fazer?
  4. (Se já tem alguma experiência) como você poderia usar o seu capital de carreira mais valioso?
  5. Você poderia combinar algumas das opções e fazer o melhor de ambas as áreas?
  6. Você consegue achar mais oportunidades através de seus contatos?

2. Faça um ranking das opções.

Comece fazendo uma estimativa inicial de como as opções pontuam.
Se você tiver mais tempo, pontue suas opções de um a cinco, baseado em:

  1. Impacto
  2. Aptidão
  3. Boas condições para satisfação no trabalho
  4. Algum fator que seja importante para você
  5. Capital de carreira, se está considerando opções para os próximos anos (em detrimento de objetivos a longo prazo)

Aqui estão algumas perguntas que você pode usar para fazer a comparação, e uma planilha. Fazer isso certifica que você está focando nos fatores mais importantes.
Então, tente diminuir para uma lista pequena. Na planilha, elimine todas as opções que pontuaram mal em todos os fatores (“opções dominadas”), e também aqueles que pontuaram muito mal em um fator.

Você pode somar todos os pontos e ter uma estimativa grosseira do ranking de suas opções.
Se um de seus resultados parece estranho, tente entender o motivo. Para cada opção, pergunte-se “por que eu poderia estar errado?” e ajuste o ranking. Esta é uma maneira muito efetiva de reduzir seu enviesamento.

3. Escreva suas principais incertezas

Que nova informação poderia mais facilmente mudar seu ranking? Se pudesse ter uma pergunta respondida, qual seria a mais útil?
Escreva-as. Por exemplo, “Posso conseguir um emprego na Fundação Arymax?”, “Será que eu iria gostar de programar?” ou “Quão urgente é a pobreza mundial comparada à fazer ciência aberta?”.
Se estiver travado, imagine ter que decidir sua carreira em um final de semana – o que você faria nesse tempo para tomar a decisão acertada?

4. Faça uma pesquisa inicial.

Você consegue rapidamente resolver alguma dessas incertezas principais? Por exemplo, se estiver incerto se gostaria de ser um cientista de dados, pode ir conversar com alguém para saber como é? Ou existe algo que você poderia ler, como alguma das nossas revisões de carreira?

Nesse momento, você poderá já ter uma opção claramente vencedora: se for esse o caso, pode pular a próxima parte. A maioria das pessoas, no entanto, têm algumas opções igualmente boas. Agora, é hora de explorar. Mas qual a melhor forma de fazê-lo?
Se você quer uma versão mais detalhada do processo acima, use a nossa ferramenta de decisão:

FERRAMENTA DE DECISÃO

Existe muito mais a ser dito sobre tomar boas decisões. Alguns destes pontos iremos abordar no próximo artigo.

Como explorar: testes baratos vêm primeiro

Com frequência vimos pessoas que queriam experimentar economia, então eles vão e se candidatam a um mestrado. Mas esse investimento é enorme. Ao invés disso, pense em como aprender mais com menos esforço e despesa: “testes baratos”’.
O objetivo é chegar o mais perto do trabalho real, mas com o menor investimento de tempo possível.
Pense em fazer uma “escada” de testes. Se você está interessado, por exemplo, em se tornar um assessor político, aqui estão alguns degraus que você pode subir:

  • Leia nossa revisão sobre carreiras relevantes e faça pesquisas no Google para aprender o básico a respeito (1 a 2 horas).
  • Depois disso, a próxima ação mais útil geralmente a ser feita é conversar com alguém da área. A pessoa certa pode te dar mais informação atualizada e personalizada do que você encontraria escrito por aí (2h).
  • Fale com mais três pessoas da área e leia um ou dois livros (20h). Você também pode considerar conversar com um conselheiro de carreira que tem especialização nessa área. Durante esse meio tempo, encontre a maneira mais efetiva de entrar na área de acordo com seu histórico (background). Tenha em mente que, enquanto estiver falando com essas pessoas, elas podem estar te entrevistando informalmente – veja nosso conselho sobre se preparar para entrevistas neste artigo.
  • Agora procure um projeto que tome 1 a 4 semanas de comprometimento, na área que pretende focar, tal como se voluntariar numa campanha política ou criar um blog sobre políticas públicas voltadas ao tema em que deseja focar. Se você tiver executado o passo anterior, saberá o que é melhor.
  • Apenas nesse ponto considere um compromisso de 2 a 24 meses, tal como um posto de trabalho temporário, estágio ou pós-graduação. Nesta etapa, caso seja oferecida uma posição de teste numa organização por alguns meses, pode ser vantajoso aceita-la, porque isso significa que ambas as partes se engajarão em rapidamente testar sua aptidão a área.

A cada passo, avalie se sua escolha, no exemplo, ser um assessor político, era ou não uma das suas opções mais promissoras, e somente siga o próximo passo caso positivo.

Como explorar: ordene bem suas opções

Você pode ganhar mais oportunidades de exploração se colocar suas opções na ordem certa.

1. Explore antes da graduação ao invés de depois de se formar

Nos anos após a graduação, as pessoas te dão “o direito” de explorar coisas mais diferentes – por exemplo, começar um negócio, morar fora do país ou trabalhar em uma ONG. Não esperam que você tenha sua carreira resolvida imediatamente.
Se isso não der certo, você pode usar o “reset de graduação”: fazer uma pós-graduação (pós lato sensu tal como uma MBA ou um mestrado, por exemplo) , e assim retomar o “caminho tradicional”.
Nós vemos muitas pessoas se apressando para começar logo uma pós ou para outras opções convencionais assim que terminam a faculdade, perdendo assim uma das melhores oportunidades de explorar.
Em particular, vale a pena explorar antes de começar uma pós do que depois. Depois do doutorado é muito difícil deixar a vida acadêmica. Isto porque todas as etapas seguintes (doutorado, pós-doutorado, e depois para uma posição acadêmica permanente) são bastante competitiva, então é improvável que você tenha sucesso se não estiver 100% focado em sua pesquisa.

Então, se não tiver certeza sobre seguir o caminho acadêmico, tente outras alternativas antes de uma pós-graduação, se possível.

2. Coloque escolhas “reversíveis” primeiro

Por exemplo, sabemos que é mais fácil ir de uma posição numa empresa para uma ONG do que vice-versa, então, se estiver em dúvida, começo com o emprego na empresa.

3. Escolha opções que te deixem experimentar

Uma abordagem alternativa é aceitar um trabalho que te permita testar várias áreas:

  • Deixando você trabalhar em várias industrias. Freelance e consultoria são especialmente bons para isso.
  • Deixando você praticar diferentes aptidões. Trabalho em pequenas empresas são ideais para isso.
  • Te dando tempo livre e energia para explorar outras coisas fora do trabalho.

4. Explore paralelamente

Se você já está em um trabalho, pense em maneiras de tentar novas opções paralelamente.
Consegue fazer um projeto pequeno, porém relevante no seu tempo livre, ou mesmo no trabalho em que está? No mínimo, converse com várias pessoas em tal trabalho.
Se você for um estudante, tente fazer o máximo de estágios e projetos de verão quanto conseguir. Férias da faculdade são umas das melhores oportunidades para explorar.

5. Continue construindo capital de carreira flexível


Se ainda estiver incerto, continue construindo capital de carreira flexível. Desta forma, não importa o que aconteça, você estará numa posição melhor no futuro.

Jess – estudo de caso sobre explorar

“80,000 horas fez nada menos que revolucionar a maneira com a qual vejo minha carreira.”
LEIA A HISTÓRIA DE JESS

Quando Jess se formou em Matemática e Filosofia há alguns anos, ela estava bem interessada na academia e inclinada a estudar filosofia da mente, mas estava preocupada que teria pouco impacto.
Então, no ano após ter se formado, ela passou vários meses trabalhando com finanças. Ela não pensava que iria gostar deste trabalho, e por fim estava certa, estando confiante em eliminar tal opção. Ela também passou vários meses trabalhando em ONGs e lendo sobre diferentes áreas de pesquisa.

O que ela fez que foi ainda mais importante: falou com muita gente, especialmente nas áreas acadêmicas em que ela tinha mais interesse. Isso eventualmente a levou a receber uma oferta para um doutorado em Psicologia, focado em como melhorar a tomada de decisão na formulação de políticas públicas.

Durante o doutorado, ela fez estágio em um centro de estudos (think tank) especializado em políticas baseadas em evidências científicas, e começou a escrever sobre psicologia para um jornal online. Deste modo, ela pode explorar tanto a prática em políticas públicas quanto a possibilidade de ser uma acadêmica formadora de opinião.

Quando terminar seu doutorado, ela poderá continuar na academia, mudar para a elaboração de políticas públicas ou escrever. Ela também poderia voltar a trabalhar com finanças ou para ONGs. Mais importante, ela terá uma ideia muito mais clara de quais opções são as melhores.

Aplique isso à sua carreira: como explorar

  1. Use o procedimento aqui apresentado para restringir as opções do exercício anterior, ficando com uma lista de três a cinco delas.
  2. Para cada opção na sua lista, escreva um ou dois testes baratos que você poderia fazer nos próximos três meses.
  3. Agora, se você quisesse testar suas opções restantes, qual seria a melhor ordem? Considere passar alguns anos testando áreas diferentes.
  4. Quando precisar tomar a decisão final, você pode usar este procedimento para novamente reduzir as opções.
  5. Se você gostaria de saber mais sobre como tomar boas decisões e prognósticos, nós recomendamos Decisive, de Chip and Dan Heath, e Superforecasting by Philip Tetlock.

Conclusão

Gostamos de pensar que podemos descobrir no que somos bons por meio da reflexão, num lampejo de inspiração (insight). Mas não é assim que funcionam as coisas.

Pense como um cientista quando o assunto é escolher uma carreira: crie e descarte hipóteses ao invés de tentar descobrir seu “chamado” de antemão.

Ao invés disso, a coisa funciona mais como um cientista testando uma hipótese. Você tem algumas ideias daquilo que você pode vir a desempenhar bem (hipóteses), as quais você pode testar (experimentos). Pensa que pode ser bom em escrever? Então comece a blogar. Pensa que iria odiar ser um consultor? Ao menos fale com um deles.
Se você não sabe qual é seu “chamado” ou sua “paixão”, isso é normal. É muito difícil prever qual carreira é a certa para você quando está começando.

Ao invés disso, vá e teste as coisas. Você vai aprender enquanto faz, indo passo a passo ao encontro de uma carreira significativa.

Agora, depois de escolher uma área, como você pode se certificar de que terá sucesso?


É o que falaremos no nosso próximo artigo. Depois disso, mostraremos como juntar tudo em um plano de carreira.

Vá para a parte 9 para ter conselhos, baseados em evidências cientificas, sobre como ter sucesso em qualquer emprego ou trabalho.

Notas e Referências

  1. Simonton, Dean K. “Age and outstanding achievement: What do we know after a century of research?” Psychological bulletin 104.2(1988): 251. Pdf
  2. Schmidt, Frank L., e John E. Hunter. “The validity and utility of selection methods in personnel psychology: Practical and theoretical implications of 85 years of research findings.” Psychological bulletin 124.2 (1998): 262. PDF
  3.  Carreiras, por exemplo, são frequentemente abandonadas ou lamentadas. Uma pesquisa da American Bar Association (o equivalente a OAB dos EUA) descobriu que 44% dos advogados recomendariam que um jovem não siga carreira no Direito. Um estudo a partir 20.000 contratações de executivos descobriu que 40% dos contratados de nível sênior “são removidos, falham ou desistem em 18 meses”. Mais da metade dos professores deixam o emprego em até quatro anos.. Extraído de Decisive, por Chip e Dan Heath.
  4.  A permanencia mediana dos funcionários no cargo foi geralmente maior entre os trabalhadores mais velhos do que os mais jovens. Por exemplo, o tempo médio de ocupação dos trabalhadores com idades entre 55 e 64 anos (10,4 anos) foi mais de três vezes maior do que o dos trabalhadores com idades entre 25 e 34 anos (3,0 anos). Uma proporção maior de trabalhadores mais velhos do que os trabalhadores mais jovens tinha 10 anos ou mais de permanencia no cargo. Entre os trabalhadores com idades entre 60 e 64 anos, 58% estavam empregados há pelo menos 10 anos em seu atual empregador em janeiro de 2014, em comparação com apenas 12% daqueles entre 30 e 34 anos.Link arquivado, acessado em 24 de abril de 2017.