Parte 1: O que é um trabalho ideal

NOTA: essa é uma tradução não oficial do Guia de Carreiras original e pode não corresponder a versão mais atualizada, a qual pode ser acessada em: https://80000hours.org/career-guide/job-satisfaction/

Revisamos mais de 60 estudos sobre o que caracteriza um trabalho ideal. Isto é o que encontramos.

 

 Legenda: Lá pelo quinto ano, Jim se arrependeu de seguir sua paixão por sorvetes…

Todos queremos encontrar um trabalho dos sonhos que seja agradável e significativo, mas o que isso realmente significa?

Algumas pessoas imaginam que a resposta envolve a descoberta da sua paixão através de uma revelação, enquanto outros acham que os elementos-chave do trabalho ideal são que ele seja fácil e bem pago.

Examinamos duas décadas de pesquisa sobre o que leva a uma vida e carreira satisfatórias, nos baseando em mais de 60 estudos, e não encontramos muitas evidências para esses pontos de vista.

Porém, encontramos seis ingredientes que constituem um trabalho dos sonhos. Eles não incluem a renda e não são tão simples como “siga sua paixão”.

Na verdade, seguir sua paixão pode fazer com que você se desvie de opções com melhor potencial. Steve Jobs era apaixonado pelo budismo Zen antes de entrar no ramo tecnologia. Condoleezza Rice era uma talentosa música clássica antes de começar a estudar política.

Você pode desenvolver uma “paixão” ao fazer um trabalho que você considera agradável e significativo. A chave é tornar-se bom em algo que ajude outras pessoas.

Assista este vídeo ou leia o artigo completo (15 minutos). Mas se preferir conferir a pesquisa na íntegra, leia nossa resenha sobre estudos de satisfação no trabalho.

 

Em resumo

Para encontrar um trabalho dos sonhos, procure:

  1. Um trabalho no qual você seja bom,

  2. Um trabalho que ajude os outros,

  3. Condições favoráveis: um trabalho que lhe mantenha engajado, focado, mentalmente absorto; colegas que ofereçam apoio em seu trabalho; ausência de fatores negativos como pagamento injusto; e um trabalho que se adapte à sua vida pessoal.

 

Onde costumamos errar

A maneira comum pela qual as pessoas tentam encontrar o trabalho dos seus sonhos é imaginar empregos diferentes e pensar sobre o quanto eles parecem satisfatórios. Ou pensam em momentos em que se sentiram realizados no passado e refletem sobre as coisas que lhes parecem mais importantes.

xkcd

Se este fosse um guia de carreira normal, começaríamos por sugerir que você escrevesse uma lista do que você mais deseja de um emprego, como por exemplo “trabalhar ao ar livre” , ou “trabalhar com pessoas ambiciosas”. O livro de aconselhamento de carreira mais vendido de todos os tempos, “Que cor é seu paraquedas” (What Color is Your Parachute) , recomenda exatamente isso. A esperança é que, no fundo, as pessoas saibam o que realmente querem.

No entanto, a pesquisa mostra que, embora a auto-reflexão seja útil, ela só chega até certo ponto.

Você provavelmente consegue lembrar de algumas vezes em que você estava muito animado com uma viagem ou uma festa, mas quando o momento de fato chegou, ele foi só razoável. Nas últimas décadas, pesquisas mostraram que isso é comum: somos ruins em prever o que nos deixará mais felizes, e nós sequer percebemos o quão ruim somos nisso. Você pode encontrar uma excelente visão geral desta linha de pesquisa em Stumbling on Happiness, do Professor de Harvard Dan Gilbert.1

Acontece que somos ruins até em lembrar o quão gratificante foram as nossas diversas experiências. Uma falha bem comum é que tendemos a julgar uma experiência sobretudo pelo seu final. Se você perdeu seu vôo no último dia de uma viagem que até esse momento foi agradável, você provavelmente lembrará da viagem como ruim. Isso significa que não podemos simplesmente confiar em nossas intuições; precisamos de uma maneira mais sistemática de descobrir qual trabalho é o melhor para nós.

O fato de que muitas vezes julgamos o prazer de uma experiência pelo seu final pode nos levar a fazer algumas escolhas curiosas.
– Prof. Dan Gilbert, Stumbling on Happiness

As mesmas pesquisas que provam o quão ruim somos em auto-reflexão podem nos ajudar a fazer escolhas mais bem embasadas. Temos agora duas décadas de pesquisa em psicologia positiva – a ciência da felicidade – além de décadas de pesquisa em motivação e satisfação no trabalho. Vamos resumir as principais lições destas pesquisas e explicar o que significam na busca de um trabalho satisfatório.

 

Duas metas superestimadas para uma carreira gratificante

As pessoas geralmente imaginam um trabalho ideal como sendo bem pago e fácil.

Um dos principais rankings de empregos nos EUA, fornecido pela Careercast , classifica os empregos nos seguintes critérios:2

  1. É bem pago?

  2. Vai ser bem pago no futuro?

  3. É estressante?

  4. O ambiente de trabalho é desagradável?

Com base nisso, o melhor trabalho em 2015 foi: atuário.3 Isto é, alguém que usa estatísticas para medir e gerenciar riscos, geralmente no setor de seguros.

É verdade que os atuários estão mais satisfeitos com seus empregos do que a média, mas não estão entre os mais satisfeitos.4 Apenas 36% dizem que seu trabalho é significativo,5 de maneira que ser um atuário não é uma carreira particularmente gratificante.

Portanto, a lista Careercast não está capturando tudo. Na verdade, a evidência sugere que dinheiro e evitar o estresse não são tão importantes assim.

 

O dinheiro faz você mais feliz, mas apenas um pouco

É um clichê dizer que “não se pode comprar felicidade”, mas ao mesmo tempo a segurança financeira está entre as maiores prioridades de carreira da maioria das pessoas.6 Além disso, ao serem questionadas sobre o que mais melhoraria a qualidade de suas vidas, a resposta mais comum é mais dinheiro.7 O que está acontecendo aqui? Qual lado está certo?

Muitas pesquisas sobre esta questão são notavelmente de baixa qualidade. Mas vários estudos importantes recentes em economia oferecem mais clareza. Nós analisamos os melhores estudos disponíveis, e a verdade acaba se encontrando num meio termo: o dinheiro faz sim você feliz, mas apenas um pouco.

Aqui estão os resultados de uma extensa pesquisa feita nos Estados Unidos em 2010:

 

 

Alta renda melhora uma autoavaliação das condições de vida, mas não influencia tanto o bem-estar emocional , D. Kahneman e A. Deaton, 2010, link

 

As pessoas foram convidadas a avaliar quão satisfeitas estavam com suas vidas em uma escala de um a dez. O resultado é mostrado à direita, enquanto a parte inferior mostra a renda familiar.

Você pode ver que passar de uma renda (bruta) de US$ 40.000 para US$ 80.000 está associado a um aumento na satisfação de apenas cerca de 0,5 pontos, indo de 6,5 para 7 em uma escala até 10. Isso é muita renda extra para um pequeno aumento.

Mas isso é otimista. Se olharmos para a felicidade no dia-a-dia, a renda é ainda menos importante. O chamado “afeto positivo” designa se as pessoas relataram sentir-se felizes no dia anterior. A esquerda mostra a fração de pessoas que disseram “sim”. Esta linha se torna plana em torno de US$ 50.000, mostrando que, além desse ponto, a renda não teve relação com a felicidade do dia-a-dia.

 

 

Alta renda melhora uma autoavaliação das condições de vida, mas não influencia tanto o bem-estar emocional , D. Kahneman e A. Deaton, 2010, link

A imagem é similar se olharmos a fração que “não estava triste” ou “livre de estresse” no dia anterior.

 

 

Alta renda melhora uma autoavaliação das condições de vida, mas não influencia tanto o bem-estar emocional , D. Kahneman e A. Deaton, 2010, link

Essas linhas se tornam completamente planas em US$ 75.000, então além desse ponto, a renda não tem relação com o que as pessoas felizes, tristes ou estressadas sentiram. Isso não é surpreendente – todos conhecemos pessoas que entraram em empregos de alta renda e acabaram infelizes.

Além disso, a relação entre renda e felicidade antes desse limite pode ser causada por um terceiro fator. Por exemplo, ser saudável pode fazer você mais feliz e permitir que você ganhe mais. Se isso for verdade, o efeito de ganhar mais dinheiro é ainda mais fraco do que as correlações acima sugerem.

E finalmente, US$ 75.000 de renda familiar é equivalente a uma renda individual de apenas US$ 40.000 se você não tiver filhos.8

Para adequar esse limite para sua situação, faça os seguintes ajustes (todos pré-dedução de impostos):

  • O valor de US$ 40.000 corresponde ao ano de 2009. Devido à inflação, é próximo de US$ 45,000 em 2016.

  • Adicione $ 20,000 por dependente que não trabalha, e que você sustente totalmente.

  • Adicione 50% se você mora em uma cidade cara (por exemplo, Nova Iorque, San Francisco), ou subtraia 30% se você mora em algum lugar barato (por exemplo, Tennessee rural). Você pode encontrar cálculos de custo de vida on-line, como este.

  • Adicione mais se você é especialmente motivado por dinheiro (ou subtraia um pouco se você tiver gostos mais frugais).

  • Adicione 15% para poder economizar para aposentadoria (ou o quanto você precise economizar para poder manter o padrão de vida descrito acima).

A média dos trabalhadores de nível superior nos Estados Unidos ganham cerca de US$ 77.000 por ano ao longo de sua vida profissional, enquanto o graduado médio da Ivy League ganha mais de US$ 110.000.9 O resultado é que, se você possui ensino superior nos EUA (ou em um país similar), você provavelmente vai estar exatamente na faixa em que mais renda não tem quase nenhum efeito sobre sua felicidade.

(Leia mais sobre nossas evidências.)

 

Não se preocupe tanto com o estresse

Muitas pessoas dizem que querem “encontrar um emprego que não seja muito estressante”. E é verdade que no passado, médicos e psicólogos acreditavam que o estresse sempre era ruim. No entanto, fizemos uma pesquisa da literatura moderna sobre o estresse, e hoje, o cenário é um pouco mais complicado.

Um enigma intrigante é que estudos sobre líderes de governo e militares de alto nível encontraram que estes tinham níveis mais baixos de hormônios do estresse e menos ansiedade, apesar de dormirem menos horas, gerirem mais pessoas e terem maiores demandas ocupacionais.

Uma explicação amplamente apoiada é que ter um maior senso de controle (estabelecendo seus próprios horários e determinando como enfrentar os desafios que se deparam) os protege contra as demandas da posição.

Há outras maneiras pelas quais um trabalho exigente pode ser bom ou ruim dependendo do contexto:

Variável

Bom (ou neutro)

Ruim

Tipo de estresse

Intensidade de demandas

Desafiante, mas realizável.

Incongruente com o nível de habilidade (muito alto ou muito baixo).

Duração

Curto prazo.

Prolongado.

Contexto

Controle

Alto controle e autonomia.

Baixo controle e autonomia.

Poder.

Alto poder.

Baixo poder.

Apoio social

Bom apoio social.

Isolamento social.

Como lidar

Mentalidade

Reinterpreta as demandas como oportunidades, o estresse como útil.

Vê demandas como ameaças, o estresse como prejudicial à saúde.

Altruísmo

Realização de atos altruístas.

Concentrado em você mesmo.

Isso significa que a relação entre trabalho e estresse se parece mais com o gráfico a seguir. Ter um trabalho muito pouco exigente é ruim – é tedioso. Ter exigências que excedem suas habilidades também é ruim: elas causam estresse nocivo. O ponto ideal é onde as demandas colocadas sobre você correspondem ás suas habilidades – esse é um desafio gratificante.

Em vez de procurar evitar estresse, procure um contexto social amistoso e um trabalho significativo, e então desafie-se.

(Veja nossa pesquisa de evidências científicas sobre estresse para mais informações.)

 

 

Se você estiver trabalhando em um lago e também usando seu laptop para ver imagens de lagos, talvez você precise de um trabalho mais difícil.

O que você deve procurar em um trabalho dos sonhos?

Nós aplicamos a pesquisa sobre psicologia positiva sobre o que faz uma vida gratificante e a combinamos com pesquisas sobre satisfação no trabalho, para chegar a seis ingredientes-chave de um trabalho ideal. (Se você quiser se aprofundar no tema, confira nossa revisão dos estudos acerca da satisfação no trabalho.)

Estes são os seis ingredientes.

1. Um trabalho cativante

O que realmente importa não é o seu salário, status, tipo de empresa e assim por diante, mas sim o que você faz no dia a dia, hora a hora.

O trabalho envolvente é um trabalho que atrai você, mantém sua atenção e que lhe leva um estado de imersão em suas tarefas. É a razão pela qual uma hora passada editando uma planilha pode ser fatigante, enquanto uma hora jogando um jogo de computador pode passar despercebido: jogos de computador são projetados para serem tão envolventes quanto possível.

 

 

Um jogo de computador favorito de infância, Age of Empires

O que faz esta diferença? Por que os jogos de computador são envolventes enquanto o administrar um escritório não é? Os pesquisadores identificaram quatro fatores:

  1. A liberdade de decidir como realizar seu trabalho.

  2. Tarefas claras, com início e fim claramente definidos.

  3. Variedade nos tipos de tarefa.

  4. Feedback, de maneira que você sabe o quão bem está fazendo.

Cada um desses fatores mostrou-se correlacionado com a satisfação no trabalho em uma meta-análise importante (r = 0,4), e eles são amplamente considerados pelos especialistas como preditores empiricamente comprovados de satisfação no trabalho.

Dito isto, jogar jogos de computador não é a chave para uma vida satisfatória (e não apenas porque você não será pago). Isso porque você também precisa…

 

2. Um trabalho que ajude os outros

Os seguintes trabalhos têm os quatro ingredientes de trabalho envolvente que discutimos. Mas quando perguntadas, mais de 90% das pessoas que os fazem dizem que não os consideram significativos:10

Esses trabalhos, no entanto, são vistos como significativos por quase todos os que os fazem:

  • Oficial de serviço de bombeiros

  • Enfermeira / parteira

  • Neurocirurgião

A principal diferença é que o segundo conjunto de empregos parece ajudar outras pessoas. É por isso que eles são significativos, e é por isso que ajudar os outros é o nosso segundo fator.

Existe uma crescente base de evidências de que ajudar os outros é um ingrediente-chave para a satisfação com a vida. As pessoas que se voluntariam são menos deprimidas e mais saudáveis. Um estudo randomizado mostrou que realizar um ato aleatório de bondade torna o doador mais feliz. E uma pesquisa global descobriu que as pessoas que doam para a caridade estão tão satisfeitas com suas vidas quanto aqueles que ganham duas vezes mais.

Ajudar os outros não é o único caminho para uma carreira significativa, mas é amplamente aceito pelos pesquisadores como um dos mais poderosos.

(Nós exploramos trabalhos que realmente ajudam as pessoas na próxima parte do guia, incluindo empregos tanto os que ajudam indiretamente como diretamente.)

 

3. Um trabalho em que você seja bom

Ser bom no seu trabalho dá uma sensação de conquista, um ingrediente-chave da satisfação de vida descoberta pela psicologia positiva.

Ele também lhe dá o poder de negociar os outros componentes de um trabalho satisfatório, como a capacidade de trabalhar em projetos significativos, realizar tarefas cativantes e ganhar um salário justo. Se as pessoas valorizam sua contribuição, você pode solicitar estas condições em troca.

Por ambas as razões, a habilidade ultimamente supera interesses. Mesmo que você ame arte, se você persegui-la como uma carreira, mas não for bom nisso, você acabará fazendo um design gráfico chato para empresas que não interessam a você.

Isso não quer dizer que você só deve trabalhar no que você já é bom. No entanto, você quer o potencial de ser bom naquilo.

(Nós temos um artigo inteiro mais adiante no guia sobre trabalhar no que você é bom)

 

4. Um trabalho com colegas que ofereçam apoio

Obviamente, se você odeia seus colegas e trabalha para um chefe do inferno, você não ficará satisfeito.

Uma vez que bons relacionamentos são uma parte tão importante de ter uma vida realizada, é importante poder se tornar amigo de pelo menos umas duas pessoas no trabalho. E isso provavelmente significa trabalhar com pelo menos algumas pessoas semelhantes a você.

No entanto, você não precisa se tornar amigo de todos, nem mesmo gostar de todos os seus colegas. A pesquisa mostra que talvez o fator mais importante seja se você pode obter ajuda de seus colegas quando tiver problemas. Uma meta-análise importante descobriu que o “apoio social” é um dos principais preditores de satisfação no trabalho (r = 0,56).

Curiosamente as pessoas que são mais discordantes e diferentes de você podem ser as pessoas que lhe darão os feedbacks mais úteis, desde que se preocupem com seus interesses. Isso é porque eles vão contar a você as coisas como são, e terão uma perspectiva diferente da sua. O Professor Adam Grant chama essas pessoas de “doadores discordantes”.

Quando pensamos em trabalhos de sonhos, geralmente nos concentramos na função que teremos. Mas com quem você trabalha é quase tão importante. Um chefe ruim pode arruinar uma posição de sonho, e mesmo trabalhos chatos podem ser divertidos se feitos com um amigo. Então pense ao selecionar um trabalho, você poderá fazer amizades com algumas pessoas neste local de trabalho? E, mais importante, a cultura do local de trabalho facilita a obtenção de ajuda, receber feedback e trabalhar em conjunto?

 

5. Ausência de fatores negativos mais impactantes

Para ficar satisfeito, tudo acima é importante. Mas você também precisa da ausência de coisas que tornem o trabalho desagradável. Todos os fatores seguintes tendem a estar ligados à descontentamento no trabalho.

  • Um longo trajeto entre casa e trabalho, especialmente se é mais de uma hora de ônibus.

  • Jornada muito longa.

  • Pagamento que você acha injusto.

  • Insegurança no trabalho.

Embora todos estes sejam óbvios, as pessoas muitas vezes os ignoram. As conseqüências negativas de um longo trajeto ao trabalho podem ser suficientes para superar muitos outros fatores positivos.

 

6. Um trabalho que se adapte a sua vida pessoal

Você não precisa obter todos os ingredientes de realização na vida a partir de seu trabalho. É possível encontrar um emprego que pague as contas e se destacar em um projeto paralelo; ou para encontrar um significado existencial através de filantropia ou voluntariado; ou construir relacionamentos ótimos fora do trabalho.

Nós aconselhamos muitas pessoas que fizeram isso. Há exemplos famosos também – Einstein teve seu ano mais produtivo em 1905, enquanto trabalhava como funcionário em um escritório de patentes.

Então, esse último fator é um lembrete para considerar como sua carreira se encaixa no resto de sua vida.

Antes de seguir em frente, aqui está uma rápida recapitulação dos seis ingredientes. Estas são as coisas a procurar em um trabalho ideal:

  1. Um trabalho no qual você seja bom,

  2. Um trabalho que ajuda os outros,

  3. Um trabalho cativante que lhe facilite focar-se em suas tarefas, e se encontrar absorto nas mesmas (onde haja liberdade, variedade, tarefas claras, feedback),

  4. Colegas solidários que lhe apoiem,

  5. Sem grandes fatores negativos, como longas jornadas ou pagamento injusto, e

  6. Um trabalho que se encaixa à sua vida pessoal.

(Leia mais sobre nossas evidências para esses seis ingredientes.)

Como podemos resumir tudo isso?

 

Você deveria seguir sua paixão?

“Siga sua paixão” tornou-se um conceito definidor do aconselhamento de carreiras.

 

 

Fonte: Google Ngram

A ideia é que a chave para encontrar uma ótima carreira é identificar seu maior interesse – “sua paixão” – e seguir uma carreira envolvendo esse interesse. É uma mensagem atraente: simplesmente comprometa-se com sua paixão e você terá uma ótima carreira. E quando olhamos para as pessoas bem-sucedidas, elas muitas vezes são apaixonadas pelo que fazem.

Agora nós somos aficionados pela busca da paixão em nossos trabalhos. A pesquisa acima mostra que trabalhos intrinsecamente motivantes tornam as pessoas muito mais felizes do que um grande salário.

No entanto, há três maneiras pelas quais “seguir sua paixão” pode ser enganador.

Um problema é que ele sugere que a paixão é tudo o que você precisa. Mas mesmo se você estiver profundamente interessado no trabalho, se você não tiver os outros seis fatores, você ainda estará insatisfeito. Se um fã de basquete recebe um trabalho envolvendo basquete, mas trabalha com pessoas que odeia, recebe salários injustos ou considera o trabalho sem sentido, ele ainda não gostará de seu trabalho.

Na verdade, “seguir a sua paixão” pode tornar mais difícil satisfazer os seis ingredientes, porque as áreas com as quais você acabe se “apaixonando” provavelmente serão as mais competitivas, o que torna mais difícil encontrar um bom trabalho.

 

 

Universidade de Montreal e Dados do Censo Canadense

Um segundo problema é que muitas pessoas não sentem que suas paixões podem ser convertidas em carreiras. Dizer a elas para “seguir sua paixão” faz com que eles se sintam inadequadas. Se você não tem uma “paixão”, não se preocupe. Você ainda pode encontrar um trabalho sobre o qual você se tornará apaixonado.

O terceiro problema é que ele pode fazer as pessoas limitarem desnecessariamente suas opções. Se você é interessado em literatura, é fácil pensar que você deve se tornar um escritor para ter uma carreira satisfatória e ignorar outras opções. Também é fácil achar que sua “verdadeira paixão” será imediatamente óbvia e eliminar as opções que não são imediatamente satisfatórias.

Mas na verdade, você pode se tornar apaixonado por novas áreas. Se o seu trabalho ajuda os outros, você o pratica a ponto de ficar bom nele, trabalha em tarefas envolventes e com pessoas que você gosta, então você provavelmente se tornará apaixonado por ele. Os seis ingredientes são sobre o contexto do trabalho, não o seu conteúdo. Dez anos atrás, nós nunca teríamos imaginado que seríamos apaixonados por aconselhamento de carreira, mas aqui estamos, escrevendo este artigo.

Muitas pessoas bem-sucedidas são apaixonadas pelo o que fazem, mas muitas vezes sua paixão se desenvolveu com o decorrer de seu sucesso e demorou um tempo longo para se descobrir, em vez de vir primeiro. Steve Jobs era apaixonado pelo Budismo Zen. Ele entrou no ramo da tecnologia como uma forma de ganhar dinheiro rápido. Mas à medida que se tornou bem sucedido, sua paixão cresceu, até se tornar o mais famoso defensor de “fazer o que você ama”.

Steve Jobs – defensor do “seguir a sua paixão” – foi apaixonado pelo Budismo Zen, história ocidental e dança quando era jovem.

Na realidade, ao invés de ter uma única paixão, nossos interesses mudam frequentemente e mais do que esperamos. Pense no que você estava mais interessado há cinco anos, e você provavelmente se dará conta de que é muito diferente do que você está interessado hoje.E, como vimos acima, somos ruins em saber o que realmente nos faz felizes.

Isso significa que você tem mais opções para uma carreira plena do que você pensa.

Só um pedido antes de continuar:  Se você está achando este guia útil, apreciaríamos muito se você pudesse compartilhar o artigo no Facebook e nos ajudar a alcançar mais pessoas.

 

Faça o que contribui para o mundo

Ao invés de “seguir a sua paixão”, o nosso slogan para uma carreira gratificante é: torne-se bom em algo que ajude os outros. Ou simplesmente: faça aquilo que contribui .

Nós destacamos “torne-se bom”, porque se você encontrar algo em que você é bom e que tenha valor para outros, você terá muitas oportunidades de carreira, o que lhe dá a melhor chance de encontrar um trabalho ideal com todos os outros ingredientes – trabalho envolvente, bons colegas, ausência de pontos negativos e que se encaixe com o resto da sua vida.

Você pode ter todos os outros cinco ingredientes, no entanto, e ainda achar o seu trabalho sem sentido. Então você precisa encontrar uma maneira de ajudar os outros também.

Se você colocar em primeiro lugar as possíveis contribuições para o mundo que você possa dar, você desenvolverá paixão pelo que você faz – se tornará mais contente, ambicioso e motivado.

Isto é o que encontramos em nosso aconselhamento de carreira. Por exemplo, Jess estava interessada em filosofia durante a graduação e considerou prosseguir num doutorado. O problema era que, embora achasse a filosofia interessante, teria sido difícil ter um impacto positivo dentro dela. Em última análise, ela acha que isso teria sido insatisfatório. Em vez disso, ela se voltou para psicologia e políticas públicas, e agora é uma das pessoas mais motivadas que conhecemos.”80,000 horas nada menos do que revolucionou a maneira como penso na minha carreira”.

Leia a história de Jess

Até o momento, mais de 1.000 pessoas fizeram grandes mudanças nas suas trajetórias profissionais, seguindo nossos conselhos de carreira. Muitos mudaram para um campo que não os interessava inicialmente, mas que acreditavam que era importante para o mundo. Depois de desenvolver suas habilidades, encontrar boas pessoas com quem trabalhar e a função certa, elas ficaram profundamente satisfeitas.

Aqui estão mais dois motivos para se focar em tornar-se bom em algo que ajude os outros.

 

Você será mais bem sucedido

Se você tonar sua missão ajudar os outros, as pessoas vão querer ajudá-lo a ter sucesso.

Isso parece óbvio, mas agora há evidências empíricas para apoiar. No excelente livro Give and Take, o professor Adam Grant argumenta que as pessoas com “mentalidade de doar” terminam entre as mais bem-sucedidas. Isso é tanto porque elas recebem mais ajuda, como porque elas são mais motivadas por um senso de propósito.

Uma advertência é que os doadores também acabam mal sucedidos se se concentrarem demais nos outros e se esgotarem. Então você também precisa dos outros ingredientes da satisfação no trabalho que mencionamos anteriormente, e estabelecer limites de quanto você se doa.

 

É a coisa certa a se fazer.

A ideia de que ajudar os outros é a chave a para sentir-se realizado não é nova. É um tema das principais tradições morais e espirituais:

Ponha seu coração para fazer o bem. Faça isso vez após vez e você se tornará cheio de alegria.
– Buda

A verdadeira riqueza de um homem é o bem que ele faz neste mundo.
– Maomé

Ame seu próximo como você ama a si mesmo.
– Jesus Cristo

Todo homem deve decidir se ele vai andar à luz do altruísmo criativo ou na escuridão do egoísmo destrutivo.
– Martin Luther King Júnior.

Além do mais, como explicaremos na próxima seção, como um graduado numa faculdade numa localidade desenvolvida hoje, você tem uma enorme oportunidade para ajudar os outros através de sua carreira. Em última análise, este é o verdadeiro motivo para se concentrar em ajudar os outros – o fato de que ele o fará ser mais realizado pessoalmente é apenas um bônus.

 

Conclusão

Para ter um trabalho ideal, não se preocupe muito com dinheiro e estresse, e não gaste muito tempo em reflexões sem fim para tentar encontrar sua única e verdadeira paixão.

Em vez disso, torne-se bom em algo que ajude os outros. É melhor para você, e é melhor para o mundo. Esta é a razão pela qual criamos a 80 mil horas – nossa missão é ajudá-lo a encontrar uma carreira que contribua.

Mas quais empregos ajudam as pessoas? Uma pessoa pode realmente fazer muita diferença? É o que responderemos na próxima seção.

 

Aplique isso na sua carreira

Esses seis ingredientes, especialmente ajudar os outros e tornar-se bom no seu trabalho, podem atuar como um norte – são coisas a se mirar para encontrar um trabalho ideal a longo prazo.

Aqui estão alguns exercícios para ajudá-lo a começar a aplicá-los.

  1. Pratique usando os seis ingredientes para fazer algumas comparações. Escolha duas opções em que está interessado e, em seguida, avalie-os de um a cinco em cada fator. Você pode usar esta tabela para ajudá-lo.

  2. Os seis ingredientes que listamos são apenas um ponto de partida. Pode haver outros fatores que são especialmente importantes para você, então recomendamos fazer os seguintes exercícios. Eles não são perfeitos – como vimos anteriormente, nossas memórias sobre o que achamos satisfatório podem ser pouco confiáveis – mas ignorar completamente sua experiência passada também não é sábio.11

    • Quando você esteve mais satisfeito no passado? O que esses momentos tiveram em comum?

    • Imagine que você descobriu que você vai morrer em dez anos. Com o que você gastaria seu tempo?

    • Você consegue delimitar melhor os nossos seis fatores? Por exemplo, quais os *tipos* de pessoas com quem você mais gosta de trabalhar?

    Essas perguntas devem dar-lhe dicas sobre o que você achou mais gratificante.

  3. Agora, combine nossa lista com seus próprios pensamentos para determinar de quatro a oito fatores que são mais importantes para você em um trabalho ideal.

  4. Quando você estiver comparando suas opções no futuro, você pode usar essa lista de fatores para determinar qual é o melhor. Não espere encontrar uma opção que seja melhor em todas as dimensões, em vez disso, concentre-se em encontrar a opção melhor pesando prós e contras.

#Faça uma pausa.

Leia em seguida:

Parte 2: quais trabalhos realmente ajudam as pessoas e quanto você pode realizar?