Parte 2: Será que uma pessoa pode fazer a diferença?

Uma pessoa só pode fazer a diferença? O que a evidência diz.

NOTA: essa é uma tradução não oficial do Guia de Carreiras original e pode não corresponder a versão mais atualizada, a qual pode ser acessada em: https://80000hours.org/career-guide/how-much-difference-can-one-person-make/

É fácil sentir que uma pessoa só não faz diferença. O mundo tem tantos grandes problemas e eles frequentemente parecem impossíveis de se resolver.
Então, quando começamos o  “80.000 horas” – com o objetivo de ajudar as pessoas a fazerem o bem com suas carreiras -, uma das primeiras perguntas que fizemos foi: “Quanta diferença uma pessoa pode realmente fazer?”
Aprendemos que enquanto muitos jeitos comuns de fazer o bem, como se tornar um médico, possuem um impacto menor do que você pode imaginar a princípio; outros meios permitiram que certas pessoas conseguissem um impacto extraordinário.
Em outras palavras, uma pessoa pode fazer a diferença, mas você pode ter que fazer algo não muito convencional.
Neste artigo, começamos estimando o maior bem que você poderia fazer ao se tornar um médico. Depois, compartilhamos algumas histórias de pessoas com maior impacto na história e consideramos o que elas significam para sua carreira.
Tempo de leitura: 6 minutos

 

Que impacto os médicos têm?

Muitas pessoas que querem ajudar os outros se tornam médicos. Um dos nossos primeiros leitores, Dr. Greg Lewis, fez exatamente isso. “Eu quero estudar medicina por causa de um desejo que tenho de ajudar os outros”, escreveu ele em sua inscrição na universidade, “e assim eu não posso resistir à chance de ter uma carreira fazendo algo que vale à pena.”

Então, nos perguntamos: qual impacto que se tornar um médico realmente tem? Em 2012, nos unimos a Greg para descobrir, e este trabalho está sendo revisado para publicação.

 

Como o objetivo principal de um médico é melhorar a saúde, tentamos descobrir quanta “saúde extra” um médico realmente acrescenta à humanidade. Descobrimos que, em média, no decorrer de sua carreira, um médico no Reino Unido permitirá que seus pacientes tenham uma vida extra combinada de 140 anos de vida saudável, seja ampliando sua expectativa de vida ou melhorando sua saúde em geral. Há, é claro, uma grande incerteza neste quadro, mas é improvável que o número real seja dez vezes maior do que 140.¹

Usando uma taxa de conversão padrão (usada pelo Banco Mundial entre outras instituições) de 30 anos extras de vida saudável para uma “vida salva”, 140 anos de vida saudável equivalem a 5 vidas salvas. Este é claramente um impacto significativo, no entanto, é menor do que muitas pessoas esperam que os médicos tenham.

Há três razões principais para isso.

1. Pesquisadores concordam em grande parte que a medicina só aumentou a expectativa de vida média em poucos anos. A maior parte dos ganhos na expectativa de vida nos últimos 100 anos ocorreu, em vez disso, devido a uma melhor nutrição, melhor saneamento, maior riqueza e outros fatores.

2. Os médicos são apenas uma parte do sistema médico, que também depende de enfermeiros e funcionários do hospital, bem como de despesas gerais e equipamentos. O impacto das intervenções médicas é compartilhado entre todos esses elementos.

3. Mais importante, já existem muitos médicos no mundo desenvolvido, por isso, se você não se tornar um médico, alguém estará disponível para realizar os procedimentos mais críticos. Médicos adicionais, portanto, só nos permitem realizar procedimentos que forneçam resultados menos significativos e menos certos.

Este último ponto é ilustrado pelo gráfico abaixo, que compara o impacto dos médicos em diferentes países. O eixo y mostra a quantidade de problemas de saúde na população, medida em Anos de Vida Ajustados por Incapacidade (“DALYs”) por 100.000 pessoas, onde um DALY é igual a um ano de vida perdido devido a problemas de saúde. O eixo x mostra o número de médicos por 100.000 pessoas.

DALYs por 100.000 pessoas versus médicos por 100.000 pessoas. Usamos os dados da OMS de 2004. A linha é a hipérbole melhor ajustada, determinada por regressão de mínimos quadrados. Explicação completa neste documento.

Você pode notar que a curva fica quase horizontal quando se tem mais de 150 médicos por 100.000 pessoas. Após este ponto (onde quase todos os países desenvolvidos se encontram), os médicos adicionais conseguem atingir, em média, um pequeno impacto.

Então, se você se tornar um médico em um país rico como os EUA ou o Reino Unido, você pode sim fazer um bem maior do que faria em muitos outros empregos, e se você for um médico excepcional, terá um impacto maior do que essas médias. Mas provavelmente não será um grande impacto.

De fato, no próximo artigo, mostraremos como quase todo estudante universitário pode fazer mais para salvar vidas do que um médico comum. E no guia, abordaremos muitos outros exemplos de tentativas correntes, mas ineficazes, de fazer o bem.

Essas descobertas motivaram Greg a mudar da medicina clínica para a saúde pública, por motivos que explicamos no restante do guia.

 

Quem foram as pessoas de maior impacto na história?

Apesar dessa estatística pouco inspiradora sobre quantas vidas um médico salva, alguns médicos tiveram muito mais impacto do que isso. Vejamos alguns exemplos das carreiras de maior impacto na história e analisar o que podemos aprender com eles. Primeiro, vamos nos voltar para a pesquisa médica.

Em 1968, enquanto trabalhava em um campo de refugiados na fronteira de Bangladesh e Birmânia, o Dr. David Nalin descobriu um tratamento inovador para pacientes que sofriam de diarréia. Ele percebeu que dar aos pacientes água misturada com a concentração correta de sal e açúcar os reidrataria na mesma proporção em que eles perdiam água. Isso evitou a morte por desidratação de forma muito mais barata do que o tratamento convencional por via intravenosa.

O Dr. Nalin ajudou a salvar milhões de vidas com uma invenção simples: dar água misturada com sal e açúcar aos pacientes com diarréia.

Desde então, este tratamento surpreendentemente simples tem sido usado em todo o mundo, e a taxa anual de mortalidade infantil por diarréia despencou de 5 milhões para 1,3 milhões. Pesquisadores estimam que a terapia salvou cerca de 50 milhões de vidas, principalmente crianças.²

Se o Dr. Nalin não estivesse por perto, alguém, sem dúvida, teria descoberto esse tratamento eventualmente. No entanto, mesmo se imaginarmos que ele acelerou a descoberta em apenas cinco meses, seu trabalho sozinho teria salvado cerca de 500.000 vidas. Esta é uma estimativa muito aproximada, mas faz seu impacto mais de 100.000 vezes maior do que o de um médico comum:

 

Mas mesmo dentro da pesquisa médica, o Dr. Nalin está longe de ser o exemplo mais extremo de uma carreira de alto impacto. Por exemplo, uma estimativa coloca a descoberta de grupos sanguíneos de Karl Landsteiner com um impacto de dezenas de milhões de vidas salvas.³

Deixando o campo da medicina, mais adiante no guia, abordaremos a história de um matemático de grande impacto, Alan Turing, e do burocrata, Viktor Jdanov.

Ou, vamos pensar ainda mais amplamente. Roger Bacon e Galileu foram os pioneiros do método científico, sem o qual nenhuma das descobertas que citamos acima teria sido possível, juntamente com outros grandes avanços tecnológicos como a Revolução Industrial. Esses indivíduos foram capazes de fazer um bem muito maior do que os médicos de destaque.

 

O desconhecido tenente-coronel soviético que salvou sua vida

Ou considere a história de Stanislav Petrov , um tenente-coronel do exército soviético durante a Guerra Fria. Em 1983, Petrov estava a serviço em uma base de mísseis soviéticos quando os sistemas de alerta aparentemente detectaram um ataque de mísseis vindo dos Estados Unidos. O protocolo ditava que os soviéticos ordenassem um contra-ataque.

Mas Petrov não apertou o botão. Ele observou que o número de mísseis era pequeno demais para justificar um revide, desobedecendo, assim, o protocolo.

Se ele tivesse determinado um ataque como resposta, há pelo menos uma chance razoável de que centenas de milhões de pessoas teriam morrido. Os dois países poderiam ter acabado envolvidos em uma guerra nuclear total, levando a bilhões de mortes e, potencialmente, o fim da civilização. Se estivermos sendo conservadores, poderemos quantificar seu impacto dizendo que ele salvou um bilhão de vidas. Mas isso pode ser algo subestimado, pois uma guerra nuclear também teria devastado as formas científicas, artísticas, econômicas e todas as outras formas de progresso, levando a uma enorme perda de vidas e bem-estar a longo prazo. No entanto, mesmo com a estimativa mais baixa, o impacto de Petrov provavelmente supera o impacto de Nalin e Landsteiner.

 

O que isso significa, em termos de impacto, para sua carreira?

Vimos que algumas carreiras tiveram enormes efeitos positivos e algumas muito mais do que outras.

Parte disso é devido à sorte – as pessoas mencionadas acima estavam no lugar certo na hora certa, dando-lhes a oportunidade de ter um impacto que, de outra forma, não seria possível. Você não pode garantir que fará uma descoberta médica importante.

Mas nem tudo foi sorte: Landsteiner e Nalin optaram por usar seu conhecimento médico para resolver alguns dos problemas de saúde mais prejudiciais de sua época, e era previsível que alguém no alto escalão do exército soviético pudesse ter um grande impacto ao evitar conflitos durante a Guerra Fria. Então, o que isso significa para você?

As pessoas muitas vezes se perguntam como podem “fazer a diferença”, mas se algumas carreiras podem resultar em milhares de vezes mais impacto do que outras, essa não é a pergunta certa. Duas opções de carreira podem “fazer a diferença”, mas uma pode ser dramaticamente melhor que a outra.

Em vez disso, a questão-chave é “como posso fazer a maior diferença?”. Em outras palavras: o que você pode fazer para dar a si mesmo a chance de ter uma das carreiras de maior impacto? Como as carreiras de maior impacto fazem uma enorme diferença, um pequeno aumento em suas chances significa muito.

Os exemplos acima também mostram que os caminhos de maior impacto podem não ser os mais óbvios. Ser um oficial no exército soviético não parece a melhor carreira para quem tem pretensão altruísta, mas Petrov provavelmente fez um bem maior do que nossos líderes mais célebres, sem mencionar nossos médicos mais talentosos. Ter um grande impacto pode exigir fazer algo pouco convencional.

Então, qual impacto você pode ter se tentar, enquanto ainda faz algo pessoalmente recompensador? Não é fácil ter um grande impacto, mas você pode fazer muitas coisas para aumentar suas chances. Isso é o que vamos falar nos próximos artigos.

Mas primeiro, vamos esclarecer o que queremos dizer com “fazer a diferença”. Nós temos falado sobre vidas salvas até agora, mas essa não é a única maneira de fazer o bem no mundo.

 

O que significa “fazer a diferença”?

Todo mundo fala sobre “fazer a diferença” ou “mudar o mundo” ou “fazer o bem” ou “impacto”, mas poucos definem o que querem dizer com isso.

Então aqui está a nossa definição. Seu impacto social é dado por:

O número de pessoas cujas vidas você melhora e o quanto você as melhora.

Isso significa que você pode aumentar seu impacto social de duas maneiras: ajudando mais pessoas ou ajudando o mesmo número de pessoas em maior grau (imagem abaixo).

Também incluímos as vidas que você melhora no futuro, então você pode também aumentar seu impacto através de meios que resultam em benefícios a longo prazo. Por exemplo, se você melhorar a qualidade da tomada de decisões do governo, talvez não veja muitos resultados quantificáveis a curto prazo, mas terá resolvido muitos outros problemas a longo prazo.

 

Opcional: Por que escolhemos essa definição?

Muitas pessoas discordam sobre o que significa tornar o mundo um lugar melhor. Mas a maioria concorda que é desejável que as pessoas tenham vidas mais felizes e satisfeitas, nas quais elas atinjam seu potencial. Portanto, nossa definição é estreita o suficiente para captar essa ideia.

Além disso, como mostraremos, algumas carreiras fazem muito mais para melhorar a vida do que outras, então temos uma diferença realmente importante entre as opções. Se alguns caminhos podem ser bons para salvar centenas de vidas, enquanto outros têm pouco impacto, essa é uma diferença importante.

Mas a definição também é ampla o suficiente para abranger muitas maneiras diferentes de tornar o mundo um lugar melhor. É amplo o suficiente para cobrir a proteção ambiental, pois se deixarmos o meio ambiente destruído, o futuro da civilização pode estar ameaçado. Dessa forma, proteger o meio ambiente melhora vidas.

Muitos de nossos leitores também expandem o escopo de sua preocupação ao incluir animais não humanos, o que é uma das razões pelas quais fizemos um perfil sobre a criação intensiva de animais.

Dito isso, a definição não inclui tudo o que é importante. Você pode pensar que o ambiente merece proteção, mesmo que isso não melhore a vida das pessoas. Da mesma forma, você pode valorizar coisas como a justiça e a beleza estética por si mesmas.

Na prática, nossos leitores valorizam muitas coisas diferentes. Nossa abordagem é focar em como melhorar vidas e, em seguida, permitir que as pessoas considerem independentemente o que mais valorizam. Para tornar isso mais fácil, tentamos destacar os principais julgamentos de valor por trás de nosso trabalho. Acontece que há muito que podemos dizer sobre como fazer o bem em geral, apesar de todas essas diferenças.

 

Como medir o impacto social?

Estamos sempre incertos sobre o impacto que diferentes ações terão, mas tudo bem, porque podemos usar probabilidades para fazer a comparação. Por exemplo, uma chance de 90% de ajudar 100 pessoas é aproximadamente equivalente a 100% de chance de ajudar 90 pessoas. Embora não tenhamos certeza, podemos quantificar nossa incerteza e progredir.

Além disso, ainda podemos usar regras gerais para comparar diferentes cursos de ação. Por exemplo, em um artigo futuro, argumentamos que, todo o resto sendo igual, é um trabalho de alto impacto dedicar-se às áreas negligenciadas. Então, mesmo que não possamos medir com precisão o impacto social, ainda podemos ser estratégicos escolhendo áreas ignoradas. Abordaremos muitas outras regras gerais para aumentar seu impacto nos próximos artigos.

(Leia mais sobre a definição de impacto social)

 

Então, como você pode melhorar vidas com a sua carreira?

No próximo artigo, explicaremos como qualquer graduando pode ter um grande impacto em qualquer trabalho. Então, depois disso, abordaremos como escolher um emprego no qual você pode fazer o maior bem possível.

 

Leia também, em português:

A melhor pessoa que já viveu é um ucraniano desconhecido – Texto original escrito em inglês por William MacAskill em 30 de julho de 2015

 

Notas e Referências

 

1. Em nossa revisão de carreira sobre profissionais de medicina , que é baseada na pesquisa que mencionamos, fornecemos uma estimativa otimista de todos os 4 DALYs evitados por ano (média). Mais de 35 anos de carreira, são 140 DALYs evitados. Médicos individuais farão mais ou menos dependendo de sua habilidade e especialidade.

 Uma taxa de conversão padrão é de 30 DALYs = 1 vida salva.

Fonte: Banco Mundial, p. 402, recuperado em 31 de março de 2016. ↩

2. Desde a adoção dessa intervenção barata e de fácil aplicação, a taxa de mortalidade mundial em crianças com diarréia infecciosa aguda despencou de 5 milhões para cerca de 1,3 milhões de mortes por ano. Mais de cinquenta milhões de vidas foram salvas nos últimos 40 anos com a implementação da TRO (terapia de reidratação oral).

Fonte: Heróis da Ciência. Link arquivado, recuperado em 4 de março de 2016.

A grosso modo, isso significa que 50/40 = 1,25 milhões de vidas foram salvas por ano. Então, se o Dr. Nalin adiantou a descoberta por 5 meses (apenas um palpite), isso significa que (5/12) * 1,25 = 0,52 milhão de vidas extras foram salvas por suas ações. Esta é uma estimativa altamente aproximada e poderia facilmente estar errada em uma ordem de grandeza. Veja mais comentários na próxima nota. ↩

3. Superman of Science Makes Landmark Discovery- mais de 1 bilhão de vidas salvas até agora. Todas as fontes citaram um incrível número de transfusões e vidas potenciais salvas em países e regiões do mundo. Os anos de alto impacto começaram por volta de 1955 e os cálculos são vagamente baseados em 1 vida salva por 2,7 unidades de sangue transfundido. Só nos EUA, estima-se que 4,5 milhões de vidas sejam salvas a cada ano. A partir desses dados, determinei que 1,5% da população era salva anualmente por transfusões de sangue e apliquei essa porcentagem em dados populacionais de 1950 a 2008 na América do Norte, Europa, Austrália, Nova Zelândia e partes da Ásia e da África. Essa taxa pode inflar a eficácia das transfusões nas primeiras décadas, mas exclui inteiramente o mundo em desenvolvimento.

Fonte: Science Heroes [Heróis da Ciência]. Link arquivado, recuperado em 4 de março de 2016.

 Se assumirmos um número constante de vidas salvas por ano, então são cerca de 10 milhões de vidas por ano. Se ele antecipou a descoberta por dois anos, então são 20 milhões de vidas salvas.

Esta é uma estimativa altamente aproximada e poderia facilmente estar errada em uma ordem de magnitude em qualquer direção, e parece mais provável que esteja muito mais acima do que abaixo. Somos um pouco céticos em relação aos números do Science Heroes. Além disso, nossa tentativa de modelar a antecipação é muito simples. Como a maioria das vidas foi salva na era moderna, uma vez que um grande número de pessoas recebia assistência médica, é possível que a aceleração da descoberta não tivesse tido muito impacto. Por outro lado, a descoberta de grupos sanguíneos provavelmente tornou possíveis outros avanços científicos, e estamos ignorando o impacto deles. No entanto, o ponto básico permanece: o impacto de Landsteiner provavelmente foi muito maior do que um médico comum. ↩