O marciano e o economista: uma parábola das panaceias

Sobre a racionalidade dos economistas e sobre pegar notas de 20 jogadas na rua

Um economista e um alienígena de Marte estavam andando pela rua quando o alienígena disse: “Olha! Uma nota de 20!”

— Impossível — disse o economista – Se fosse, alguém já teria pego.

O alienígena pegou a nota e a desdobrou, revelando que era um folheto habilmente disfarçado de uma igreja evangélica.

— Vê o que quero dizer? – disse o economista, com uma pitada de presunçosa satisfação.

— Uau, isso poderia ser ainda melhor! — disse o alienígena. — Diz aqui que posso ter VIDA ETERNA e tudo o que tenho que fazer é crer sinceramente em Jesus Cristo!

— Você realmente não acredita nisso, acredita? — disse o economista, zombando.

— Bem, não tenho certeza— disse o Alien — mas você tem que admitir que é uma recompensa e tanto se for verdade, e o custo é muito baixo se for falso.

— Chamamos isso de “aposta de Pascal”. — disse o economista — e o problema desse raciocínio é que ele pressupõe que o único deus é o deus cristão. E se o verdadeiro deus na verdade odeia ser adorado, apenas admite ateus no céu e condena os cristãos ao inferno?

— Isso é possível, suponho, mas sua objeção parece supor que, no caso de pelo menos um deus existir, não poderíamos saber nada a priori* sobre as características, desejos e intenções desse deus. Devo supor que você considere as crenças de seus semelhantes humanos e a existência de religiões mundialmente populares como fornecendo zero evidências sobre quais podem ser as características do ser divino?

*Do latim “de antes”: é aquilo que pode ser conhecido apenas pelo raciocínio lógico, independente da experiência (Nota do Tradutor).

— Veja bem, há mais pontos do que esse, às vezes as religiões se contradizem e… —  o alienígena de repente o cortou.

— Olha, mais uma nota de 20!

O economista suspirou quando o alienígena pegou o papel e abriu. — O que é desta vez?

— Uau, isso poderia ser ainda melhor! —  Disse o alienígena. — Diz aqui que posso ter VIDA ETERNA e tudo que tenho que fazer é concordar em ter meu corpo congelado quando eu morrer!

— Você realmente não acredita nisso, acredita? — disse o economista, zombando.

— Bem, não tenho certeza, mas você tem que admitir que é uma grande recompensa se for verdade, e o custo é muito baixo se for falso.

— Olha, essa tecnologia está em sua infância, quase não há chance de qualquer uma dessas empresas sobreviver tempo suficiente para manter sua parte do acordo em um futuro distante e, mesmo que o fizessem, os incentivos tornam improvável que sigam adiante. Você está apenas jogando fora o dinheiro de seus herdeiros.

O alienígena estava prestes a responder, mas em vez disso gritou:  — Olhe! Mais uma nota de 20 dólares!

O economista esperou enquanto o alienígena desdobrava o papel.

— Uau, isso poderia ser ainda melhor! — Disse o ET — Diz aqui que posso ter VIDA ETERNA e tudo que tenho que fazer é acelerar a singularidade e concordar em fazer o upload da minha mente!

— Ok, você definitivamente não quer isso — disse o economista — Você já leu LENA ? O upload real da mente provavelmente será uma receita para condenar suas cópias mentais virtuais ao inferno feito pelo homem.

— Eu não li, mas sem dúvida lerei…

Quando o alienígena e o economista dobraram a esquina, um assaltante vestindo um casaco os aborda

— Isso é um assalto! Me passa 20 ou então…

— Ou então o quê? — perguntou o alienígena, curioso.

— Ou então eu vou torturar um número incompreensivelmente grande de seres inocentes altamente inteligentes por um tempo incalculavelmente longo.

— Isso parece bastante improvável. Você está blefando. — disse o economista.

— Bem, eu provavelmente estou blefando, mas você não pode ter certeza, então é melhor você me passar os vinte dólares. —  disse o assaltante. — Você tem que admitir que é uma grande perda se for verdade, e o custo é muito baixo se for falso.

Antes que o economista pudesse responder, o alienígena sorriu e entregou ao assaltante uma das notas de 20 dólares e continuou descendo a rua. Ao virarem a esquina, ouviram o assaltante suspirar de excitação: “Uau! Eu posso ter VIDA ETERNA!”

Nesse momento, o alienígena gritou — O que é isso? — e pegou animadamente uma nota de um trilhão de dólares.

— Ok, não tem como isso ser real. — disse o economista. — Os Estados Unidos não fazem notas tão altas.

— E toda aquela proposta de cunhar uma moeda de um trilhão de dólares para superar o limite do teto da dívida do Congresso que você mencionou quando estávamos almoçando? —  perguntou o ET.

— Isso parece uma moeda para você? Essa brecha constitucional só permite que o presidente ordene à Casa da Moeda que cunhe uma moeda, mas não permite que o Gabinete de Impressão imprima uma nota*. Definitivamente, é apenas mais um folheto, mas tenho que admitir que estou curioso para saber para saber o que esse daí está vendendo. O que diz aí?

* Nos Estados Unidos, o United States Mint (Casa da moeda) produz apenas as moedas, ficando a impressão de papel-moeda para o Bureau of Engraving and Printing (Nota do Tradutor).

— Bem , não é a vida eterna, mas ainda é algo muito bom. Diz que poderia aumentar o PIB em até 26%, acabar com a crise habitacional, reduzir impostos impopulares e ineficientes e, ao mesmo tempo, desencorajar o comportamento econômico improdutivo e promover o comportamento econômico produtivo.

— Ah, sim, eu já ouvi isso antes. Isso é Georgismo. É um argumento para vender a ideia de impostos sobre o valor da terra e outras políticas relacionadas. Sinto muito, mas é outra perda de tempo.

— Você acha que o Georgismo está errado?

— Ah, não, sou economista. Praticamente todos os economistas concordam que os georgistas estão certos sobre suas afirmações fundamentais. É realmente chocante o quão disseminada é essa concordância – de Adam Smith , Milton Friedman até Paul Krugman e Thomas Piketty concordarão com o Georgismo, ainda que de má vontade, se você os colocar contra a parede.

— Sendo assim, o governo de vocês terráqueos deveria decretar um imposto sobre o valor da terra?

— Não, a terra não é um negócio grande o suficiente na economia moderna. Essa é a reclamação de Krugman.

— Tem certeza? Há um site listado aqui nessa nota de vinte que contém vários links para várias pesquisas sobre o assunto e, de acordo com ele, a terra parece um grande negócio para a economia moderna.

— Mesmo que isso seja verdade, os valores da terra são difíceis de avaliar na prática. Essa foi a objeção de Friedrich Hayek — Na verdade foi Henry George que o inspirou a entrar para a economia e ele acreditava que, se avaliações precisas pudessem realmente ser feitas, a ideia funcionaria, mas, dado que é muito difícil botar essa ideia em prática, não faz sentido tentar.

— Então, por que não buscar se tornarem melhor em avaliar esse tipo de coisa? Parece um fruto fácil de se colher* – ou uma nota de trilhões fácil de se pegar do chão. Por que não fazer alguns estudos piloto? Parece haver uma grande recompensa se for verdade e um custo baixo se for falso.

* No original, low hanging fruit. (Nota do Tradutor).

— Mesmo que você pudesse, você se depara com problemas políticos. Os proprietários de imóveis possuem um poder político extremamente poderoso e, se o imposto sobre o valor da terra fosse algo politicamente alcançável, essa política já teria seria implementada em diversos lugares.

— O seu povo não viveu sob uma monarquia feudal? Não havia escravidão generalizada? Vocês não curaram a varíola, o escorbuto e outras doenças horríveis? Sua história não está repleta de avanços que superaram problemas aparentemente intratáveis, uma vez que seu povo decidiu que estava disposto a tentar?

O economista suspirou cansado. — É realmente tentador acreditar que existe uma bala mágica. Uma grande alavanca que você pode acionar e tudo ficará bem melhor. Quando você envelhece e fica mais sábio, aprende que a mudança nunca é fácil e que você só pode dar pequenos passos graduais à frente ou avançar pelas beiradas com diversos tradeoffs.

— Você acha suspeito que soluções simples de fato funcionem na realidade? – perguntou o alienígena.

— Acho que você poderia colocar dessa forma.

— Sua espécie não evitou um número enorme de mortes, no nível da gripe espanhola, desenvolvendo rapidamente vacinas de mRNA em um período de tempo incrivelmente curto? Parece uma bala mágica para mim.

— Do que você está falando? A pandemia foi um desastre total! A contagem de mortes foi astronômica! Nossas autoridades pisaram totalmente na bola! A humanidade falhou coletivamente!

— Não da nossa perspectiva enquanto marcianos! Nós comparamos com a forma como vocês lidaram com a gripe espanhola que, na nossa métrica temporal, não foi há muito tempo e, UAU, vocês se saíram muito melhor desta vez! Não foi perfeito, mas não há como comparar as duas situações. Poderia ter sido muito pior.

— Entendo onde você quer chegar— disse o economista— mas voltemos ao ponto em questão. Você acabou de descobrir sobre o Georgismo cinco minutos atrás, por que você está tão entusiasmado com isso de repente ?

— Você me entendeu mal —  disse o alienígena. — Não estou entusiasmado, estou confuso.

— Confuso sobre o quê?

— Você parece concordar que o Georgismo funciona na teoria, mas não na prática, e ainda assim seu comportamento não é consistente com o que eu esperaria de alguém que tenha essas duas crenças.

— O que você quer dizer?

— Se você pensasse que a teoria tinha falhas filosóficas ou morais fundamentais, isso seria o fim do assunto. Mas você concorda com o Georgismo em teoria. Sua objeção é que não funciona na prática, por várias razões. Mas o quanto que você tentou refutá-lo?

— Espere, agora você quer que eu o refute?

— É claro! Se houver uma nota de um trilhão de dólares no chão, a vantagem potencial é tão grande que você espera que alguém gaste um POUCO de esforço para refutá-la antes de simplesmente passar por ela. Talvez tudo o que os georgistas dizem seja estúpido e errado, ou talvez seja inteligente e certo, mas fundamentalmente impraticável por razões frustrantes, porém verdadeiras. Contudo, dado o quão grande é o potencial positivo e quão ampla é a concordância teórica, não entendo por que a principal prioridade de todo economista não seja a de testar se esses obstáculos práticos podem ou não ser superados. É como se todos os filósofos morais do mundo estivessem de acordo que Jesus Cristo é o Filho de Deus e ressuscitou dos mortos no terceiro dia, mas TAMBÉM acreditassem que orar e jejuar e buscar a salvação fosse, sabe, muito difícil cara, então vamos todos ser funcionalmente agnósticos.”

— Ok, eu vou morder a isca. E as consequências não intencionais? O georgismo pode funcionar na teoria, mas piorar as coisas na prática por razões difíceis de prever.

— Este é um bom ponto! – Disse o alienígena – Então você deveria pesquisar mais, não? O georgismo parece fornecer um monte de hipóteses testáveis e não requer uma revolução para começar – ele prevê que implementações parciais de suas políticas devem produzir resultados parciais. Isso parece algo que pode ser testado em várias escalas, portanto, se algo ruim acontecer, você poderá detectar isso bem antes de tentar aumentar a escala. E se a oposição política for tão forte quanto você diz, não há um grande risco dessa medida ser implementada da noite para o dia em qualquer lugar.

— É verdade – disse o economista – mas você realmente tem que considerar por qual razão, se essa teoria é tão boa, faz mais de cem anos desde que surgiu e aparentemente estava extinta até que um bando de esquisitões excessivamente on-line ficou obcecado com o assunto.

— Então você está dizendo – disse o alienígena – que o Georgismo não pode ser uma nota de um trilhão de dólares, porque se fosse, alguém já teria pego?

— Quero dizer, certo?

— Eu não tenho tanta certeza – disse o alienígena – Eu li que sua espécie uma vez curou o escorbuto e depois esqueceu a cura por várias décadas . A cura para o escorbuto foi uma nota de um trilhão de dólares no chão. Ele foi pego, depois caiu novamente. Havia boas razões para a confusão, mas o ponto é que, se ninguém acredita a) que a nota de um trilhão de dólares é real, e b) que eles não serão realmente capazes de se beneficiar dela, mesmo que seja real, então não deveríamos nos surpreender quando ninguém ainda a pegou. O que me faz pensar quantas OUTRAS notas de trilhões de dólares ainda podem estar no chão.

Nesse momento, o alienígena viu uma moeda brilhante no chão e estava prestes a se abaixar para pegá-la quando a economista colocou o pé sobre a moeda. — Não pegue. – Ele disse.

— Por que não? – Disse o alienígena.

— Há um notório criador do TikTok nesta área que cola moedas no chão. Eles esperam você se curvar e então te filmam, sobrepondo sons de peido. Eles recebem milhões de visualizações e todos riem de você. Além disso, não há moeda que valha a pena. Qual é o máximo que poderia valer, 25 centavos?

— Poderia ser estrangeira. Os noruegueses têm uma moeda de 20 coroas, que valeria dois dólares nas taxas de câmbio atuais.

— Bem, há sempre uma chance muito pequena de que seja realmente uma antiga moeda de prata romana valendo muito mais do que isso, mas quase certamente é apenas dez, cinco ou um centavo. Temos muito poucas razões para acreditar que valeria mais do que uma ninharia. Nossa evidência básica nos diz que devemos esperar que ou ela esteja colada ao chão, ou não tenha valor, ou ambas as coisas.”

— Na verdade, pode valer um trilhão de dólares. – Disse o Alien, apontando para um outdoor eletrônico piscando no alto.

NOTÍCIA URGENTE: PRESIDENTE ORDENA QUE A CASA MOEDA CRIE A MOEDA DE UM TRILHÃO DE DÓLARES, SECRETÁRIO DO TESOURO DEMITIDO DEPOIS DE DEIXÁ-LA CAIR NO CAMINHO PARA O TRABALHO.

o economista conferiu em seu telefone. — É verdade. O New York Times confirma a história, a moeda foi perdida há uma hora. E eu sei que o secretário do Tesouro atravessa esta rua todos os dias para trabalhar.

— A moeda já foi encontrada?

— Não, a história foi atualizada há 30 segundos com uma declaração da Casa Branca dizendo que não foi encontrada. Além disso, há uma recompensa de 10 bilhões por seu retorno seguro, o que é um negócio incrível, pois você nunca seria capaz de vender essa moeda.

O economista cruzou os olhos com o alienígena. – Olha, não crie esperanças. Mil pessoas já passaram por esta mesma rua na última hora. Se esta fosse realmente a moeda, quase certamente já teria sido apanhada.

Ele cuidadosamente levantou o pé. Mas quando fez isso, uma rajada repentina de um varredor de rua que passava varreu a moeda. Seu coração afundou quando viu a moeda rolar em um bueiro aberto, fazendo um leve respingo ao cair no fundo.

— Ah, tudo bem. – Ele suspirou. – Provavelmente valia apenas alguns centavos.

O economista ficou chocado ao ver o alienígena disparar em direção ao bueiro e habilmente se espremer dentro dele, sem um momento de hesitação. Ele chamou sua atenção: “o que você está fazendo?”

— O que você acha? Há uma chance muito real de haver uma moeda de um trilhão de dólares aqui embaixo, e tudo o que tenho a fazer é rastejar em um esgoto e encontrá-la! Você tem que admitir que é uma grande recompensa se for verdade, e um custo relativamente baixo se for falso.

— Mas e se for apenas uma moeda de cinquenta centavos idiota?

— Isso também será bom! Então não ficarei assombrado pelo resto da minha vida com a dúvida sobre se deixei uma moeda de um trilhão de dólares escorregar pelos meus dedos porque não estava disposto a me sujar rastejando em um esgoto por cinco minutos.

Autor: Lars Doucet

Tradução : Fernando Moreno

Publicado originalmente em 26 de setembro de 2022 aqui .

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