Um conto sobre a Felicidade (Ursula K Le Guin)

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“AQUELES QUE VÃO EMBORA DE OMELAS” é um dos melhores contos que já li na vida. Foi premiado internacionalmente em 1972. São apenas 4 páginas. Leia ontem.

Vou trazer uma interpretação, mas, antes dos spoilers, leia rapidamente neste link: https://bufoes.wordpress.com/2018/01/29/ursula-k-le-guin-aqueles-que-abandonam-omelas/

Ursula K Le Guin foi a maior escritora de ficção científica do séc 20, em um “mercado” dominado por homens (você já deve ter ouvido falar de Asimov, Aldous Huxley e George Orwell, para citar apenas três deles, pois a lista é gigante). Talvez por isso, ou não necessariamente, um dos livros mais famosos da Ursula traz um mundo onde “homens” também engravidam, mas isso fica para outro post.

Voltemos a Omelas. E aos Spoilers. Como você já leu o conto no link acima, vou colar algumas citações do original em inglês com os trechos mais destacados, para guardar as palavras da autora em toda a sua força.

Resumindo e relembrando: Omelas é uma utopia de felicidade e liberdade e sem opressão. Na cidade de Omelas, o festival de verão é o auge de toda essa plenitude, estão todos reunidos cantando e dançando, com farta comida, o tempo é bom, não há discriminação, não há violência de soldados, não há escravos, não há exploração econômica (nem bolsa de valores), nem bombas, nem manipulação de marqueteiros. 

Pode haver templos religiosos, mas sem sacerdotes oprimindo os fiéis, não há culpa em Omelas, os templos são livres para cada um exercer sua fé. Pode haver drogas para quem quiser. Pode haver orgias também. A autora inclusive pede a contribuição na leitura: imagine a utopia que você quiser, ela é Omelas.

Nessa utopia pode haver a celebração de atos corajosos, desde que não causem mortes, Omelas não admite carnificina: “The joy built upon successful slaughter is not the right kind of joy; it will not do; it is fearful and it is trivial.”

Aí a autora pergunta: Você acredita nesse festival de verão maravilhoso de Omelas? Você aceita? “Do you believe? Do you accept the festival, the city, the joy? No? Then let me describe one more thing.”

Então, ela descreve esse tal de “one more thing”. Em um porão escuro, apertado, imundo, sem janelas, com a porta trancada, vive uma criança de uns nove anos, mas tão magra e desnutrida que parece ter seis. Ela está nua, extremamente assustada, abandonada por todos, sentada em seus próprios excrementos, cheia de feridas, ela chora sem parar. 

Às vezes, a porta faz um barulhão e se abre, uma pessoa entra, chuta a criança e deixa um prato com comida: meia tigela de farelo de milho e um pouco de gordura (essa é a ração diária). A criança já tentou berrar para pedir ajuda, dizer que seria boa, que ia se comportar, mas ninguém dá ouvidos. A porta se fecha e ela é abandonada no escuro de novo.

Você já entendeu o que isso parece, né? Podemos ter a sociedade mais exuberante e rica e justa e pacífica, mas e se isso se sustentar por meio da crueldade? E se, com tudo isso de bom que construirmos em Omelas, ainda mantivermos vidas em cativeiro, sendo cruelmente acorrentadas, espancadas, esquartejadas? Podemos, para mantermos nosso prazer utópico, fechar os olhos para seres ingênuos, inocentes, que apenas gostariam de viver em liberdade?

Sim, o conto continua e explica, esses são os termos do contrato. A criança precisa estar lá presa e torturada. Se ela for trazida para Omelas, toda a riqueza e abundância e paz e felicidade acabarão. Ah, a criança tem deficiência intelectual. A população até fica com pena dela, mas se justifica mentalmente: “ela nem ia ter tanta felicidade aqui em cima”.

Algumas pessoas descem para observá-la rapidamente quando a porta se abre para a ração diária: “Some of them have come to see it, others are content merely to know it is there. They all know that it has to be there. Some of them understand why, and some do not, but they all understand that their happiness, the beauty of their city, the tenderness of their friendships, the health of their children, the wisdom of their scholars, the skill of their makers, even the abundance of their harvest and the kindly weathers of their skies, depend wholly on this child’s abominable misery.”

A população até explica essa situação para seus filhos, quando eles chegam perto dos 8 a 12 anos. As crianças às vezes também descem para ver aquela tristeza, ficam estarrecidas, sentem raiva da situação, sentem-se impotentes, gostariam até de ajudar, mas entendem que não há nada a fazer. Isso nem é exatamente o que fazemos quando explicamos o leite e o bacon em nossas mesas, né? Escondemos das crianças pequenas toda essa crueldade e, mesmo crescidas, não temos a honestidade de falar a verdade para elas, continuamos com historinhas “românticas” da vaca e da galinha feliz e, inclusive, nem nunca tocamos no assunto. Nesse ponto, ponto para o pessoal de Omelas.

Aqui o trecho: “This is usually explained to children when they are between eight and twelve, whenever they seem capable of understanding; and most of those who come to see the child are young people, though often enough an adult comes, or comes back, to see the child. No matter how well the matter has been explained to them, these young spectators are always shocked and sickened at the sight. They feel disgust, which they had thought themselves superior to. They feel anger, outrage, impotence, despite all the explanations. They would like to do something for the child. But there is nothing they can do. If the child were brought up into the sunlight out of that vile place, if it were cleaned and fed and comforted, that would be a good thing, indeed; but if it were done, in that day and hour all the prosperity and beauty and delight of Omelas would wither and be destroyed. Those are the terms. To exchange all the goodness and grace of every life in Omelas for that single, small improvement: to throw away the happiness of thousands for the chance of the happiness of one: that would be to let guilt within the walls indeed. The terms are strict and absolute; there may not even be a kind word spoken to the child.”

Fechando o trecho, a autora conta que as pessoas reconhecem a violência, mas acham que, mesmo se fosse liberta, a criança não aproveitaria a vida, já que tem deficiência intelectual. Assim, a troca da infelicidade de uma única pessoa “imbecil” (essa é a palavra que se fala no conto e que também designamos vacas, galinhas e porcos, né?), sem capacidade mental plenamente desenvolvida, a troca dessa pequena infelicidade irrelevante pela felicidade de toda a cidade de Omelas faz muito sentido. O trecho: “(…) Often the young people go home in tears, or in a tearless rage, when they have seen the child and faced this terrible paradox. They may brood over it for weeks or years. But as time goes on they begin to realize that even if the child could be released, it would not get much good of its freedom: a little vague pleasure of warmth and food, no doubt, but little more. It is too degraded and imbecile to know any real joy. It has been afraid too long ever to be free of fear. Its habits are too uncouth for it to respond to humane treatment. Indeed, after so long it would probably be wretched without walls about it to protect it, and darkness for its eyes, and its own excrement to sit in.”

Um detalhe importante. A autora sempre chama a criança de “it”, pronome usado para coisas, não para pessoas. É o pronome que normalmente se usa para tratar (e maltratar) os animais que vão no seu x-bacon. Exceto nossos pets, tratamos os animais como coisas, não como indivíduos com seus próprios medos, gostos, famílias, amizades, desejos, dores, alegrias. São todos vistos apenas como pedaços de comida para o prazer humano, são mercadoria, são comprados e vendidos para serem esquartejados. 

A maioria das interpretações desse conto foca apenas nos animais humanos oprimidos. E é óbvio que essa abordagem é essencial. Mas, expandindo o círculo moral aos animais não humanos, Omelas pode continuar sendo de uma utopia linda se sua felicidade depende de machucá-los? De reproduzi-los forçadamente para, ainda crianças, serem forçadamente degolados?

O conto continua com a autora provocando: você acredita no povo de Omelas? “Now do you believe in them? Are they not more credible? But there is one more thing to tell, and this is quite incredible.”

E então, no último parágrafo, ela conta esse “one more thing” que é “incredible”. Algumas pessoas, aparentemente sem motivo algum, após visitar a criança, passam alguns dias mudas, sem alegria, e vão embora de Omelas. Abandonam essa felicidade extrema do festival e vão embora inexplicavelmente. Esses são “AQUELES QUE VÃO EMBORA DE OMELAS”.

O parágrafo final: “At times one of the adolescent girls or boys who go to see the child does not go home to weep or rage, does not, in fact, go home at all. Sometimes also a man or woman much older falls silent for a day or two, and then leaves home. These people go out into the street, and walk down the street alone. They keep walking, and walk straight out of the city of Omelas, through the beautiful gates. They keep walking across the farmlands of Omelas. Each one goes alone, youth or girl, man or woman. Night falls; the traveler must pass down village streets, between the houses with yellow-lit windows, and on out into the darkness of the fields. Each alone, they go west or north, towards the mountains. They go on. They leave Omelas, they walk ahead into the darkness, and they do not come back. The place they go towards is a place even less imaginable to most of us than the city of happiness. I cannot describe it at all. It is possible that it does not exist. But they seem to know where they are going, the ones who walk away from Omelas.”

Você também pode refletir sobre Omelas, sobre a violência que financia com seu prazer à mesa, com sua alegria no zoológico ou no rodeio, sua vaidade no casaco de pele ou nos cosméticos testados em animais. 

Considere assistir Dominion (nesse link), espie as crianças nos porões escuros, reavalie suas ações de acordo com sua ética, você não quer financiar esse sofrimento.

Você também pode ir embora de Omelas. É só dar o primeiro passo.

Leandro Franz é economista, escritor e wannabe vegano. É autor dos livros “A Pequena Princesa” (Ed. Letramento), “No Útero de Paulo, o Embrião não Nascerá” (Ed. Penalux) e “120 dias de Corona” (Ed. Letramento) – este último lançado agora em 2022.

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