Por uma Cesta Básica com MAIS comida e MENOS crueldade

O post de hoje é em parceria com Ramiro Peres, amigo e também membro do Altruísmo Eficaz Brasil. Conversávamos em um café meses atrás sobre como seria possível, dada a inflação generalizada, aumentar a nutrição e quantidade de alimentos na cesta básica brasileira. Ele então escreveu um super artigo e eu apenas revisei, resumi e ajustei um pouco para caber aqui no blog.

O brasileiro não quer deixar de comer carne, sabemos disso. Ainda estamos longe de pedir para a população abandonar o churrasco no final de semana. Mas será que ela poderia ao menos diluir um pouco dessa crueldade? E se pelo menos metade das proteínas da cesta básica viesse de plantas, não teríamos uma cesta mais equilibrada nutricionalmente e, inclusive, com mais comida?

Aqui vão então os pontos resumidos deste post:

  1. A inflação de alimentos impactou especialmente as carnes. Assim, as pessoas estão passando fome, ou substituindo carnes por produtos de origem animal mais baratos – mas menos nutritivos (e que até causam maior sofrimento animal, como consumo de ovos).
  2. Isso seria menos grave se as pessoas pudessem substituir produtos de origem animal pelos de origem vegetal em suas dietas. Um dos obstáculos para isso é que a referência da cesta básica ainda privilegia proteína animal, com base num decreto de 1938. Dessa forma, esses produtos acabam sendo privilegiados por políticas públicas, impedindo a adaptação de hábitos de consumo.
  3. A cesta básica brasileira prevê o consumo médio de 6kg de carne que, se seguido, representa quase 40% do valor total. Se ao menos metade desse gasto fosse direcionado para leguminosas (lentilha, ervilha, soja, feijão), haveria um grande aumento do acesso a proteínas saudáveis pela população e inclusive maior volume de comida.
  4. Carnistas deveriam agradecer vegetarianos e veganos por diminuírem a demanda de carne (e evitar um aumento ainda maior do seu preço), ao invés de fazer objeções a essa dieta. De nada.
  5. Ativistas de direitos dos animais e de segurança alimentar poderiam promover campanhas de conscientização sobre a cesta básica ideal da população, com a substituição (ao menos parcial) de proteína animal por proteínas vegetais mais baratas e saudáveis, disponíveis em qualquer feira no país. 
  6. Uma refeição completa e nutritiva à base de plantas pode chegar a uma economia de 60% em relação a um prato com carne, que, além de mais caro, é menos saudável. Nesta simulação, feita em três capitais, todos os nutrientes se mantinham, a única alteração foi trocar a carne moída por hambúrguer de feijão.

Consumo e insegurança alimentar no Brasil

O Brasil é o maior produtor / vendedor de carne bovina no mundo. No entanto, o consumo médio tem caído há quatro anos em decorrência da recessão econômica – e, em 2020, se tornou o menor em 12 anos. A previsão era de que atingisse o menor nível em 16 anos em 2021 – 24,5Kg por pessoa. A situação piorou agora em 2022. De acordo com o jornal Valor Econômico de 14/6/22, “em maio, o valor da cesta divulgada pela Fundação Procon de São Paulo subiu para R$ 1.226, superando em R$ 14 o piso salarial do país, de R$ 1.212”.

Com a inflação, as pessoas buscam proteínas animais mais baratas, como os ovos: o consumo médio em 2020 pulou para 251 ovos por pessoa, contra 148 ovos em 2010 e 94 em 2000. Também é comum que as pessoas simplesmente substituam proteínas animais por mais carboidratos, como massas.

Há poucas semanas, a Rede Penssan divulgou seu diagnóstico sobre o aumento da insegurança alimentar, afirmando que: “no fim de 2020, 19,1 milhões de pessoas conviviam com a fome no país. Em 2022, são 33,1 milhões de pessoas sem ter o que comer”.

Ao mesmo tempo em que se observa uma diminuição constante na renda média da população mais pobre, nota-se um aumento no preço da cesta básica. Segundo a Dieese, em novembro de 2021: a cesta básica custava R$ 710,53 em Florianópolis/SC (mais cara), e R$ 473,26 em Aracaju/SE (mais barata). A cesta básica correspondia a 58,9% do salário-mínimo. Para mais informações, confira a nota metodológica: “a pesquisa da Cesta Básica de Alimentos (Ração Essencial Mínima) realizada hoje pelo Dieese em dezoito capitais do Brasil acompanha mensalmente a evolução de preços de treze produtos de alimentação, assim como o gasto mensal que um trabalhador teria para comprá-los” (grifo nosso). Essa cesta, portanto, é diretamente relacionada à cesta de produtos correspondente ao salário-mínimo, conforme o Decreto-Lei nº 399/1938. Para sua pesquisa, a Dieese distribui questionários a uma amostra aleatória de trabalhadores sindicalizados de diferentes categorias ao redor do país (portanto, há um viés de seleção relevante).

A cesta básica brasileira prevê o consumo médio de 6kg de carne; isso corresponde a aproximadamente 200g por dia – muito acima dos valores máximos de referência de 70g do Departamento de Saúde do Reino Unido e de 50g da Heart Foundation. Há importantes diferenças regionais: 6,6kg nos Estados da região Sul, e 4,5kg nos Estados da região Nordeste. Num cálculo improvisado, usando o valor médio de R$40,00 / kg, a carne estaria respondendo por cerca de 38% da cesta básica: R$264 em SC, e R$180 em SE.

Vale destacar que, embora não estabeleça valores precisos, a cesta de alimentos do Dec.-Lei 399/1938 refletia o conhecimento científico e os padrões de produção e consumo da Era Vargas. Assim, embora faça referência a leguminosas, não há menção à soja – o principal item da agricultura nacional, rico em proteínas; e, embora preveja a substituição de um item por outro, isto só é permitido por aqueles considerados “do mesmo tipo”, como produtos animais – e.g., carne vermelha por peixes (e não por leguminosas).

Inflação

Após a pandemia e a invasão da Ucrânia, uma inflação nos preços dos alimentos afetou o mundo todo – em especial produtos de origem animal. Isso levou a uma substituição principalmente da carne bovina por carne de frango e ovos. 

Em países com tradição de produção e consumo de carne bovina, viram-se situações dramáticas já no ano passado: em maio de 2021, a Argentina suspendeu sua exportação. Ainda assim, os preços não diminuíram o bastante – e, em dezembro, viralizou um vídeo de vacas esquartejadas vivas no meio da estrada pela multidão. No Brasil, em outubro, o preço médio da carne bovina se encontrava em R$40 segundo a Piauí/Dieese, contra R$15 em 2011.

Não vamos entrar nas questões ambientais, mas todo esse aumento de preço também veio com o aumento da produção por meio de desmatamento e da área plantada de soja (para ração animal) invadindo as plantações de feijão no país. Nos últimos quarenta anos, a área dessa proteína vegetal tão fundamental ao país caiu mais de 50%

Com isso, mesmo sendo uma proteína mais barata em relação à proteína animal, também o feijão sofre com a inflação, tendo subido 20% desde junho de 2021 (contrafilé e fígado subiram 13% nesse período). Ainda assim, um prato com as mesmas características nutricionais hoje pode chegar a ser 60% mais barato trocando a carne moída por hambúrguer de feijão: “‘A substituição da carne bovina por feijão ou outras leguminosas, como lentilha e grão-de-bico, é uma saída mais em conta e mais saudável para as pessoas continuarem a ter um consumo de proteína e ferro adequados’, diz Bruna Nascimento, nutricionista e especialista sênior em Políticas Alimentares da MFA.’”

Substituindo proteínas animais não só por razões econômicas

Embora dietas plant based e flexitarianas sejam mais baratas, pesquisas recentes sobre padrões de consumo indicam que existem razões até mais fortes que o preço na substituição de proteínas animais. Além da inflação, a conscientização tem levado as pessoas a buscarem alternativas.

Esta revisão de 22 estudos sobre estratégias para a redução do consumo de carne enfatiza o aumento da conscientização; já esta de 23 estudos destaca fatores como gênero do consumidor, além de informação sobre benefícios à saúde e ao meio ambiente – e só então entram considerações econômicas. Mesmo nessa pesquisa que entrevistou 501 consumidores de produtos mistos (i.e., que não substituem totalmente os derivados de animais), o destaque é para considerações sobre saúde e ambiente.

De fato, é notável que os produtos veganos industrializados (Hambúrguer do Futuro, Leite Moça Vegetal, NotMilk etc.), que tentam imitar produtos de origem animal, ainda são caros. Contudo, há várias alternativas de proteínas saudáveis e tradicionais encontradas em qualquer mercado ou feira. Escolhemos a proteína de soja como exemplo e improvisamos uma planilha comparando, de forma meio grosseira, seus dados nutricionais e preços contra carne magra (“patinho”) e ovos. Usamos como fonte a Tabela Nutricional (uma plataforma desenvolvida para consultas por nutricionistas) – e agregamos preços de diversos sites na internet usando o Google e a página do supermercado Extra. Classificamos os produtos em ordem crescente do preço por quantidade de proteína:

Preço em R$ / kg
Produto – FonteProteínaProduto (em massa kg)Energia – VD de kcal
Soja farinha    63,73     22,95           11,36 
Proteína texturizada de soja    69,10     35,94           20,66 
Soja extrato solúvel pó    79,59     28,40           12,37 
PSA – proteína isolada de soja (90%)    85,93     77,34           38,67 
Carne bovina patinho sem gordura grelhado    105,82     37,99           34,64 
Ovos tipo grande branco classe A    117,02     14,04           16,78 

Note como os ovos, na realidade, podem ter menor custo-benefício quando se mede o preço da proteína obtida – a métrica mais relevante aqui. A tabela mostra que um flexitariano poderia facilmente aumentar sua ingestão de proteína vegetal, com baixo custo, adicionando suplementos de soja (farinha, extrato ou proteína isolada) a receitas – como sopas, bolos, pães, massas, molhos, etc.

Por fim, vale destacar: não somos nutricionistas; esta análise foi feita apenas a título de exemplificação. Não recomendamos a ninguém que altere sua dieta apenas com base em um post na internet. Pelo contrário, se estiver considerando o veganismo, é importante consumir outros produtos vegetais – e pode ser recomendável consultar um especialista e conversar com outras pessoas com dietas afins.

À guisa de conclusão

Começamos a pesquisa e escrever este post para tentar entender por que razão não observamos um aumento do consumo de produtos vegetais em substituição aos de origem animal, tendo em vista a inflação – em especial nos produtos da cesta básica. Algumas de nossas descobertas:

  1. Produtos de origem vegetal também sofreram inflação. Ainda assim, quando focamos no preço do grama de proteína, opções vegetais são muito mais econômicas e possuem melhores impactos para a saúde e o meio ambiente para cada real gasto.
  2. O problema é agravado pela total ausência de discussão sobre a possibilidade de substituir fontes de proteína animal da cesta básica.
  3. A maior parte do problema é informação:
    1. fontes de proteína vegetal são frequentemente apresentadas ao público como produtos “especiais” – de modo que os vendedores podem cobrar muito mais caro. Numa prateleira do mercado, você encontra “Soy Milk” como um substituto especial do leite em pó; em outra, entre os cereais, você encontra “extrato de soja” numa embalagem sem graça, por menos da metade do preço. A situação é pior para a população que não acessa grandes cadeias de supermercados.
    2. Mesmo nós, para montar essa pesquisa rápida, gastamos horas comparando informações nutricionais e preços de diferentes produtos – e sequer consideramos leguminosas clássicas, como feijão, lentilha, ervilhas, etc. Para um vegetariano / vegano, isso não é um problema, pois como essa adaptação ocorre todo dia, você logo se acostuma e aprende estratégias para manter uma alimentação equilibrada. Mas para um flexitariano que pretende apenas reduzir uma pequena parte de seu consumo de animais, esse tipo de análise pode ser um custo relevante.

Por fim, mas não menos importante, a redução da crueldade

Na semana passada, após a divulgação do número de 33 milhões de brasileiros com fome no país, a filósofa e ativista pelos direitos dos animais, Sônia T. Felipe, colocou um texto que complementa bastante nossa análise. 

Vivemos em um país abundante em terras para a agricultura, mas direcionamos a maior parte para a produção de ração animal (soja e milho) e para o pasto bovino. Há uma enormidade e até excesso de produção agrícola, mas há falta de comida no prato das pessoas. Por quê? 

“A fartura das colheitas para servir inocentes destinados à degola 

[Dr. phil. Sônia T. Felipe]

Temos um rebanho bovino beirando os 220 milhões de animais. Cada bovino consome e excreta o equivalente ao que o fazem de 20 a 26 humanos. Portanto, nem precisa sair do Brasil para afirmar que aqui se colhe o que alimenta milhões pelo mundo afora. 

Aqui se alimenta inocentes bovinos, destinados à degola. Só o que é colhido e transportado para alimentar bovinos no Brasil, daria para alimentar quase 5 bilhões de humanos. 

Não há escassez de produção agrícola. Há desvio da comida para o estômago dos inocentes destinados à degola, porque suas carnes contêm proteínas. O fato é que o feijão e o milho, fora outras forrageiras, dados de comer a tanto bicho esfomeado, são fontes de proteínas vegetais suficientes para alimentar 5 bilhões de humanos. Não temos escassez de produção agrícola no Brasil.

Temos um rebanho de suínos que, individualmente, consomem por dia o equivalente ao que consomem 3,5 humanos. O Brasil abate por ano uns 50 milhões de suínos. Multiplicando por 3,5 o que os porcos comem, dá pra alimentar uns 175 milhões de humanos. Temos hoje 33 milhões de brasileiros passando fome. Não há falta de alimentos. Não há escassez. 

Matamos por ano uns seis bilhões de aves. Cada 4 aves consomem mais ou menos 1 kg de alimento por dia. Arredondando, o que cultivamos e colhemos para servir aves inocentes destinadas à degola, por 1 ano, daria pra alimentar 1 bilhão de humanos por dia, por 1 ano. Não temos escassez de alimentos, nem de plantação, nem de colheita. 

O sistema dietético animalizado, onívoro e mortal, é quem responde pela falta de comida para os 33 milhões de esfomeados humanos brasileiros. Plantação, colheita e consumo de alimentos não é o que falta no Brasil. 

Falta respeito pelo que se cultiva e pela vida dos inocentes degolados depois de terem transformado proteína vegetal em proteína muscularizada. Falta respeito pelos humanos. A somatória da escassez de respeito, tanto pela vida dos animais não humanos quanto pela fome dos animais humanos é o que faz vir à tona a miséria na qual estamos atolados. A lama é de sangue de inocentes vertido  para as canaletas dos abatedouros.”

Leandro Franz é economista, escritor e wannabe vegano. É autor dos livros “A Pequena Princesa” (Ed. Letramento), “No Útero de Paulo, o Embrião não Nascerá” (Ed. Penalux) e “120 dias de Corona” (Ed. Letramento) – este último lançado agora em 2022.

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