Veganos mudos não mudam o mundo

Semana 26

Veganos mudos não mudam o mundo. Budistas mudos também não. Nem padres, nem pastores, nem abolicionistas, políticos, artistas, feministas, nem burocratas, nem economistas mudos mudam o mundo. 

Se existe algo errado e você “só faz sua parte” quieto no seu canto, você não ajuda em quase nada. As vítimas continuam em sofrimento. “A neutralidade ajuda o opressor, jamais a vítima. O silêncio encoraja o torturador, jamais o torturado” (Elie Wiesel, Prêmio Nobel da Paz e sobrevivente do Holocausto).

Em uma estimativa sobre consumo, uma pessoa é responsável por no mínimo 300 mortes de animais ao ano (não só para o consumo na alimentação, mas nos demais produtos e também em etapas intermediárias de produção). 

Vamos assumir que você seja a pessoa mais consumista e carnista do mundo, que sua pegada de sofrimento animal seja 10 vezes essa, em torno de 3 mil animais por ano. Se você se tornar uma pessoa 100% vegana muda, você está reduzindo em 0,00000429% (sim eu fiz a conta) da crueldade anual com animais. Isso porque calculei só em relação aos 70 bilhões de animais terrestres assassinados. Se fosse colocar os trilhões de animais marinhos na conta, o resultado ficaria vergonhoso.

“Os fatos não deixam de existir por serem ignorados” (Aldous Huxley)

Hoje, violentar animais para suprir o próprio prazer é socialmente aceito e incentivado pela imensamente maioria da população. Não é ético, mas é legal. Como Taleb coloca em seu livro “Arriscando a própria pele”: “O ético é sempre mais robusto que o legal. Com o passar do tempo, é o legal que deve convergir para o ético, nunca o contrário.” 

Só que esse passar do tempo é muito tempo, já são milhares de anos de sofrimento animal e de nada adianta uma pequena parcela abandonando essa violência e impactando menos de 0,00000429% o problema.  

O próprio Taleb, que nem é vegano, nos traz a solução: precisamos ser intolerantes: “A formação de valores morais na sociedade não vem da evolução do consenso. É a pessoa mais intolerante que impõe a virtude aos outros precisamente por causa dessa intolerância. O mesmo pode ser aplicado aos direitos civis.” E, por que não, ao direito dos animais?

Ele então explica a regra da minoria intolerante por uma lógica matemática, que não cabe estender muito aqui, mas separei só mais alguns trechos para contextualizar a ideia:

“A regra da minoria, a mãe de todas as assimetrias. Basta que uma minoria intransigente — um certo tipo de minoria intransigente — que arrisca de maneira significante a própria pele (ou, melhor, se dedica de corpo e alma) para alcançar um nível diminutamente pequeno, digamos 3% ou 4% da população total, para que a população inteira tenha que se submeter a suas preferências.”

“(…) Vejamos a seguinte manifestação da ditadura da minoria. No Reino Unido, onde a população muçulmana (praticante) é de apenas 3% a 4%, uma proporção muito alta da carne que encontramos é halal. Cerca de 70% das importações de carne de cordeiro da Nova Zelândia são halal. Perto de 10% das lanchonetes da rede Subway armazenam apenas carne halal (ou seja, nada de carne de porco), apesar dos custos de perder a clientela de comedores de presunto (como eu). O mesmo acontece na África do Sul, que tem aproximadamente a mesma proporção de muçulmanos. Lá, uma fatia desproporcionalmente alta de carne de frango recebe certificação halal.”

Pelas mesmas regras de mercado que influenciam tanto a disponibilidade de comida halal em países com 4% de população muçulmana, nós, wannabes veganos, podemos também incomodar a indústria a ponto de conseguir ter opções veganas mais abundantes, acessíveis e variadas. Isso se formos uma minoria intolerante (e pacífica, claro, não adianta nada sair queimando máquinas). 

Precisamos atingir 5% ou 10% da população, precisamos fazer barulho. Veganos mudos não mudam o mundo; Wannabes veganos, barulhentos, sim. Não precisa mudar radicalmente a vida e se tornar, de um dia para o outro, 100% vegano. Seja 30% ou 50% ou 80% vegano, mas grite para mais gente (e para a indústria toda) vir junto. Para os animais, isso fará toda a diferença.

Venha sem medo para o wannabe veganismo. Você se mantém em movimento, mostra que um dia você vai chegar lá (a direção é mais importante que a velocidade) e ainda influencia mais gente a dar o passo junto. Escolha, para sua transição, um dos tipos de wannabe veganismo abaixo (ou crie o seu), mas comece hoje!  

Home wannabe: seja 100% vegano só em casa. Quando estiver em eventos de trabalho, em encontros com amigos e família, você pode comer de tudo. E, sempre, fale sobre o veganismo, sobre os bastidores da indústria e como está sendo sua transição.

Health wannabe: pare imediatamente com 100% dos alimentos de origem animal que fazem mal à saúde (embutidos, bacon, requeijão, maionese etc). Apenas esse. Mas, em seus encontros sociais, enfatize que está lutando para parar com os demais. Que esse foi “só o primeiro passo, e o mais fácil, olha que legal, por que vocês não fazem isso também? É bom para a saúde!”

Para não ser repetitivo, vocês já entenderam. Todo wannabe vegano precisa falar, colocar a boca no trombone e mostrar que está fazendo a transição, tentar influenciar os demais enquanto, inclusive, come carne ou pudim com amigos. 

A seguir, focarei só em descrever mais uns tipos de wannabe veganos (e você pode criar o seu), sem repetir que precisa vocalizar a transição e não ficar mudo em seus encontros sociais.

Love wannabe: parecido com o de cima, corte 100% dos alimentos (sem nenhuma exceção nunca, hein) que não gosta ou que acha mais ou menos. Escolha aqueles Top10 (olha que fácil), só aqueles 10 que você acha que morreria se não pudesse mais comer. Esses, você continua por mais um tempo, os outros, busque substitutos vegetais imediatamente.

Survival wannabe: não mude nada na alimentação ainda, finja que você precisa dela para sobreviver. Mas foque em cortar/substituir todos os outros produtos de origem animal de sua vida. Isso vale tanto para roupas e cosméticos quanto para esportes e lazer (zoológicos, parques etc.)

Step by step “uh baby” wannabe: faça um cronograma de abandonar um item com sofrimento animal por mês. Você pode trapacear aqui, em vez de falar “a partir de março, não como mais queijo”, pode colocar que “em março, abandono o cheddar; depois em abril o catupiry; depois em maio o muçarela…” Não tem problema, aqui o ritmo você decide. O essencial é não voltar atrás.

Por fim, Taleb novamente: “‘Nunca duvide de que um pequeno grupo de cidadãos conscientes possa mudar o mundo. De fato, essa é a única via que já conseguiu produzir mudanças até hoje’, escreveu Margaret Mead. As revoluções são indiscutivelmente conduzidas por uma minoria obsessiva. E todo o crescimento da sociedade, seja econômico ou moral, vem de um pequeno número de pessoas.”

Leandro Franz é economista, escritor e wannabe vegano. É autor dos livros “A Pequena Princesa” (Ed. Letramento), “No Útero de Paulo, o Embrião não Nascerá” (Ed. Penalux) e “120 dias de Corona” (Ed. Letramento) – este último lançado agora em 2022.

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