Os 5 sentidos do prato carnista

Semana 19

Há exatos 5 meses, um vídeo foi a gota d’água para eu me decidir wannabe vegano. Foi um stories de um boi, arrastado por um chão ensanguentado, levando marteladas na cabeça. Ele não queria morrer, tentava deixar isso claro não morrendo, mas os três humanos em volta precisavam dos 5 minutos de prazer comendo sua carne, então continuavam martelando. Ou precisavam vender esses 5 minutos de prazer para algum desconhecido – continuavam martelando a cabeça do boi.

Naquela semana seguinte, fiz um tratamento de choque assistindo vídeos e documentários com esses bastidores que a bandeja de maminha no supermercado não mostra. 

Eu era viciado em carne (ainda devo ser, sinto falta às vezes, é um prazer de 5 minutos bom demais, né? 

difícil não justificar uma vida inteira de tortura animal pela degustação de um cupim macio e suculento, é mais fácil tentar esquecer ou fugir desses vídeos, justificar pela cultura, pelo “ciclo natural da vida”, muita violência já foi justificada pela cultura e pelo “ciclo natural da vida”, né? 

somos viciados nessa violência e só por meio dos vídeos é que nos conectamos com alguma bondade interior que nos resta, ninguém, por mais carnista que seja, fica indiferente à crueldade com os animais, 

a resposta contra o vício não é a abstinência de carne, é a conexão com o sofrimento desses seres inocentes, 

a maioria crianças recebendo marteladas na cabeça porque precisamos de 5 minutos de prazer na mastigação do contra-filé, 

mas já ficou gigante o parêntese, exploro esse ponto em outro post, voltando ao foco de hoje ponto parágrafo).  

A ideia era reduzir aos poucos, mas, após o primeiro mês, já não tinha mais vontade de comprar ovo, leite, derivados. Quatro meses depois, iniciei um primeiro mês completamente vegano e deu tudo certo. Aí fui em uma churrascaria e comi alguns pedaços de cupim e alcatra pra “comemorar” um passo dado na eliminação do vício. 

E foi delicioso, mas as imagens da crueldade com animais voltavam a todo momento. 

O cérebro ficava em luta entre aqueles 5 minutos de prazer e toda a tortura e desespero e sofrimento 

e pedidos de misericórdia que aquele animal sofreu para estar em pedaços cadavéricos no meu prato.

Pesou bastante no estômago. 

Então decidi que não voltaria ao meu “combinado comigo mesmo” de manter 1 dia de carne semanal, passaria mais 1 mês 100% vegano. No próximo fim de semana, será o fechamento desse mês e eu estarei “liberado” para uma churrascaria. Não sei se vou, não sei se quero. Decidirei no dia, mas essa experiência de comer carne depois de 1 mês me trouxe algumas reflexões.

A principal delas: a estética do prato carnista contra o prato vegano.

Tenho cozinhado muito nesses meses de transição. Descobri diversos novos ingredientes que nunca valorizava, já que sempre o protagonismo era da carne ou  do queijo. Já aprendi a fazer e gostar de quiabo, lentilha, húmus, guacamole, jabuticaba, moqueca de caju, hambúrguer de shimeji, tahine e dezenas de misturas diferentes, até feijoada de tofu ficou boa. Apenas o jiló que não. Jiló, definitivamente, provei e não gostei.

Mas o insight que tive fazendo esses pratos coloridos de plantas, dando protagonismo a quem ficava “de escanteio”, descobrindo novos cortes e misturas e temperos, o insight que tive é como uma comida vegana é muito mais agradável aos nossos sentidos. A todos eles. E isso se reforça a cada dia que a geladeira passa longe do fedor de carne crua de cadáver. Vejamos:

  • Olfato: Carne fede, planta não. Como dois ou três dias passados de uma carne tornam o cheiro da cozinha insuportável, né? As plantas, em contrapartida, passam a semana perfumadas e sorrindo pra você. 
    • E sabe o que mais cheira bem quando a carne é bem feitinha? São as plantas do seu tempero. O alho, a cebola, o chimichurri. Experimenta fazer uma carne sem tempero algum, não vai cheirar muito melhor que um pedaço de cadáver queimado. O que nos leva também ao…
  • Paladar: o prato carnista precisa ter muito tempero para poder apagar o gosto de cadáver. Nenhum carnista consegue se imaginar comendo uma sobrecoxa crua ou sem tempero. Cenoura, arroz, beterraba, feijão crus e sem tempero não dá ânsia de vômito. Carne de cadáver, sim.
    • Chute químico: 80% do gosto bom de qualquer carne vem dos temperos, não da carne. Todo o sofrimento do animal é só pela textura chiclete então?
  • Tato: aproveitando a textura, pegar em um pedaço de frango gosmento nunca foi a atividade preferida de nenhum chef. Se pararmos para pensar, estamos tocando em órgãos de cadáver, preparando isso sobre uma poça de sangue em nossa cozinha, é uma visão macabra. 
    • Já cortei muito fígado, tinha também de bater e tirar seus nervos. Hoje, só reler essa frase me causa estranhamento. Por que eu era assim? 
  • Visão: a cena anterior é macabra, mas culturalmente estamos muito acostumados. E entrar em um açougue então, com todos aqueles pedaços de morte pendurados ou expostos em vitrines? Super normal e tranquilo até para crianças, né?
    • Mas a visão traz um ponto muito interessante: a cegueira. O carnista não aguenta ver vídeos de abatedouros, prefere (e precisa!) fechar os olhos para a crueldade da produção. Prefere (e precisa!) fechar os olhos das crianças, esconder como aquela bandeja chegou ao supermercado, senão gera traumas e a comida fica feia. Pode até se deparar com crianças se recusando a comer esse pedaço vermelho e suculento de desespero e dor.
    • O que nos leva ao último ponto…
  • Audição: comida não tem muito de audição, né? Fora o que for crocante ou vier borbulhando, não é a grande atração. E pratos carnistas e veganos são quase iguais em seus “sons”. A não ser quando lembramos dos sons como são produzidos.
    • Na fazenda de plantas: som de ventos, passarinhos no campo, o som de folhas e árvores e chuva.
    • Na fazenda de animais e ovos e leite: choros dos porcos, choro de mães sendo separadas de bezerros, desespero por clemência, berros, barulhos de choques e marteladas e espirros de sangue e serras. 
      • Quando um animal cai morto no abatedouro, sem ser visto por nós carnistas, será que ele faz barulho?

Não precisa “veganizar” completamente sua vida de um dia para o outro. Apenas considere colocar em sua rotina semanal um ou dois dias só de plantas, só dessa alimentação que você pode desfrutar com os cinco sentidos, visualizando sem dor todo o percurso da comida até seu prato, ouvindo-vendo-tocando os vegetais, a comida sem sangue, cheirando-os no campo durante a colheita, vendo seu colorido, saboreando sua riqueza de vida.

Uma ou duas vezes por semana, considere evitar o sabor putrefato do horror de comer cadáveres que imploraram para continuar vivendo. Ética e Esteticamente, por mais que você discorde do veganismo, estética e eticamente, e para todos os outros 5 sentidos, o prato vegano é imensamente superior.

Leandro Franz é economista, escritor e wannabe vegano. Seus últimos livros são “A Pequena Princesa” (Ed. Letramento), “No Útero de Paulo, o Embrião não Nascerá” (Ed. Penalux) e “Por toda vida, Carolina” (e-book Amazon).

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