Meu gato

Semana 16

Levei meu gato para uma cirurgia e não sei se volta

Ele odeia entrar na caixinha de transporte, tem trauma de lugares estranhos. Então já fui preparando terreno meia hora antes. Expliquei o que iria acontecer, fiz carinho, ele ainda achava que o dia seria normal, não entende muito frases longas. Até se virou feliz para receber cócegas na barriga, delícia, mais uma manhã de preguiça, devia estar pensando.

Meia hora depois, tínhamos de sair.

Chamei e expliquei tudo de novo: “vamos ao veterinário, você está com excesso de tártaro, vai tomar anestesia geral para a limpeza, talvez tenha de extrair uns 3 dentes, mas vai dar tudo certo, você é forte, né?”

Ele me olhava sem entender. Então busquei sua caixa de transporte.

Aí finalmente caiu a ficha.

Ele mergulhou desesperado para dentro de um cobertor acreditando que assim salvaria sua vida de uma morte violenta e dolorosa e com sangue espirrando pelas paredes e falta de ar e queimação nos olhos e pescoço degolado pendurado de ponta cabeça e…

Eu trouxe a caixa para mais perto com o mínimo barulho possível, pedi com calma para ele entrar.

Nada.

Peguei no colo, expliquei uma última vez para aquele olhar arregalado (ele ofegava de medo) e coloquei na caixa – com bastante cuidado, mas forçando um pouco contra a marcha ré que ele tentava dar.

Chamei o Uber, desci para a calçada, ele reagia aterrorizado a cada luz/cheiro/barulho aleatório que chegava.

Durante a viagem, coloquei a caixa em meu colo (também, claro, para não sujar o banco do Uber). A caixa tremia.

Parecia ser o carro. Mas, quando paramos no primeiro semáforo, a caixa continuou tremendo.

Era o gato. Tremia como uma britadeira.

Abri uma parte da caixa, coloquei minha mão lá dentro tentando mostrar que faria companhia, ele rejeitou, tentou se esconder ainda mais no cobertor. O cobertor, por ter cheiro de casa, ajuda a acalmá-lo, por isso levamos junto.

Cheguei à clínica, abri a caixa, expliquei uma última vez. Apresentei o veterinário para ele e me despedi.

Meu gato está lá agora. Em momentos receberá a injeção para dormir. Em três ou quatro horas devo voltar para buscá-lo.

Espero que volte vivo, saudável e se recupere rápido.

A casa está vazia demais.

Só no Brasil, POR DIA, 14 milhões de porcos, bois e frangos são tirados de suas celas superlotadas e jogados em caixas e caminhões também superlotados e barulhentos e assustadores.

Ficam sem comer nem beber por horas para não atrapalhar o abate, sofrem amontoados, mas sozinhos, levam choques para não atrasarem a carga, sem cuidado algum, nem apoio, nem explicação, nem respeito.

Só no Brasil, POR DIA, 14 milhões de animais são assassinados. Eles fazem o mesmo percurso de desespero que meu gato fez hoje.

Mas sem o conforto do Uber.

Sem uma voz amiga.

Sem um toque.

Sem um cheiro do cobertor de casa.

O tremor e o olhar desesperado do meu gato é o mesmo de todos os porcos, bois e frangos.

Só no Brasil, POR DIA, 14 milhões de animais são transportados para uma “clínica especializada”.

E não voltam.

Leandro Franz é economista, escritor e wannabe vegano. Seus últimos livros são “A Pequena Princesa” (Ed. Letramento), “No Útero de Paulo, o Embrião não Nascerá” (Ed. Penalux) e “Por toda vida, Carolina” (e-book Amazon).

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