Confiança e Integração Social

A sociedade moderna apresenta uma diferença básica em relação a organizações pré-modernas, sua coesão social depende da confiança tácita que seus membros apresentam em abstrações e em um conhecimento especializado muitas vezes não muito bem dominado pela maioriada população.

Por mais que a validade real do conhecimento especializado se dê por uma mensuração objetiva de sua factualidade e utilidade, sua aceitação geral depende em boa medida da confiança que desperta.

De modo algum isso significa que o conhecimento especializado corre qualquer risco de regredir a estágios pré-modernos devido a por exemplo um paralelismo de perspectivas a-científicas que se julgam alternativas ao conhecimento especializado. Também não estamos insinuando que qualquer afirmação deva ser isenta de questionamentos, mesmo àquelas vindas de um especialista (e especialmente estas) devem estar sujeitas a contestação. O que queremos apontar aqui é o risco que a adesão ao conselho do especialista tem de ser enfraquecida a partir da erosão da confiança no especialista.

Anthony Giddens, um dos sociólogos de maior renome e relevância no final do século XX entende que a confiança possui um papel no liame social. Em organizações comunitárias a confiança pessoal é uma das bases da segurança dos membros da comunidade e gera um compromisso para com sujeitos concretos, um “compromisso com face” como Giddens o identifica. Esse é o modo como a humanidade se organizou socialmente na maior parte de nossa história, em comunidades, onde a confiança pessoal gerava esse comprometimento com face.

Em sociedades modernas haveria uma particularidade: hoje a confiança que faz parte da integração social em nossas sociedades mais complexas e amplas é uma confiança em abstrações, em sistemas abstratos que, em contraste aos compromissos com face, gera compromissos sem face. Sociedades modernas se baseiam em impessoalidade, em poder impessoal, em legitimação impessoal.

Um exemplo de sistema abstrato se acha exatamente no conhecimento especializado. A confiança no conhecimento do especialista permite que a intensa divisão do trabalho moderna se estabeleça prezando pela ordem social, e aqui o principal é a confiança no conhecimento, e não na pessoa do especialista. Ao entrar num avião a maioria não tem o menor conhecimento sobre engenharia aeronáutica, e sequer conhecem os engenheiros responsáveis pelo projeto da aeronave, ou mesmo os técnicos responsáveis pela sua manutenção, mas mesmo assim a maioria entra confiante de que partirão em segurança e chegarão em segurança (e talvez até com relativo conforto) no seu destino. Em outras palavras as pessoas não conhecem nem os especialistas nem o conhecimento que impacta diretamente seu cotidiano, mas confiam nesse conhecimento para prover estabilidade e segurança.

Especialistas não são uma exclusividade moderna, porém o conhecimento especializado moderno é singular. Em cenários pré-modernos o conhecimento especializado estava restrito a corporações, limitado pelo alto nível de analfabetismo, quando não era completamente esotérico. Hoje potencialmente qualquer indivíduo pode se tornar um especialista, o que separa um leigo de um especialista moderno é sobretudo o tempo de formação do indivíduo, e não uma qualidade identitária.

Outra característica tipicamente moderna do conhecimento especializado é a impessoalidade. O especialista pré-moderno retirava sua legitimidade da confiança depositada nele especificamente, ou no conjunto de indivíduos que representassem seu ofício. O especialista moderno a princípio não é o detentor da confiança, mas o próprio sistema que o formou, o conhecimento em si.

Mesmo com nossa coesão social dependendo mais de normas e conhecimento impessoais que no passado, não dispensamos completamente a confiança pessoal. Ao evoluirmos como espécie passamos a maior parte de nossa história dependentes de confiança pessoal. Mesmo quando o funcionamento da sociedade depende de fatores impessoais e abstratos não conseguimos dispensar completamente uma confiança “presencial”, ou melhor um objeto de nossa confiança que possa exibir um rosto. Giddens, que citamos acima, chama os momentos em que a relevância da confiança pessoal retorna em um cenário de confiança impessoal de “reencaixe”. Estes momentos de reencaixe logicamente se dariam na interação direta entre colegas, ou entre o especialista e o leigo. Nesses momentos haveria uma adição da confiança pessoal a confiança impessoal.

A conciliação entre uma confiança pessoal (na imagem do especialista, ou na formação de laços entre colegas, e entre leigo e especialista) e uma impessoal (na validade do conhecimento especializado o qual não se tem domínio) gera uma harmonia e apaziguamento de tensões entre a objetividade do conhecimento especializado e valores subjetivos, de âmbito comunitáio-familiar que possam rejeitar a “intromissão” de um especialista. Deste modo, ainda que não compreendam plenamente esse conhecimento, leigos entendem sua relevância, e não o interpretam como ameaça externa a sua comunidade e seus valores.

A Crise de confiança

O problema começa quando essa conciliação é desfeita, e alguns especialistas passam a ser vistos como tendenciosos, ou como ameaças a ordem comunitária. A confiança impessoal, a confiança no conhecimento especializado em si não necessariamente é abalada, mas a confiança na comunidade de especialistas sim.

Essa ”desconfiança pessoal” pode variar em intensidade, por exemplo, em períodos de maior polarização representantes de uma comunidade podem identificar num especialista específico, ou num conjunto de especialistas uma tendência que contrarie seus valores, e por associação estender sua desconfiança a toda comunidade de especialistas numa área.

Mas isso não significa que vão desconsiderar todo o conhecimento especializado. Podem inclusive buscar novos especialistas, novas comunidades de especialistas que estejam mais de acordo com seus valores numa tentativa de nova conciliação. Conciliação que pode facilmente fortalecer um “paralelismo científico” de versões tendenciosas do conhecimento especializado, onde se unem leigos entusiastas de “teorias alternativas” e especialistas com teorias bastante questionáveis (pra dizer o mínimo) que estão à margem do consenso numa área acadêmica. Exemplos podem ser encontrados no design inteligente, no terraplanismo e em versões “gospel” da psicologia.

Em sociedades modernas com frequência inédita o local, o comunitário é impactado pelo “global”. Riscos, oportunidades, mudanças frequentemente são percebidas como abstratas ou de origem distante, e podem parecer ao cidadão comum como alheias a ele e sua realidade. Esse cenário pode acabar testando sua confiança.

Especialistas e Agentes Públicos

Entretanto, mesmo que haja uma desconfiança com representantes de uma disciplina científica, são poucos aqueles que irão voluntariamente desprezar e ignorar todo o conhecimento científico. Além disto, a princípio, assim como qualquer pessoa está sujeita a vieses e a resistências ao conhecimento especializado, qualquer pessoa está sujeita a mudar de opinião de acordo com novas evidências. É o que este estudo demonstra (há uma matéria do jornal nexo comentando esse artigo). Nele se chega a conclusão (após realizada pesquisa com agentes políticos de mais de 2000 municípios brasileiros) que sim, tomadores de decisão podem sim mudar de ideia, e aplicar políticas públicas a partir de pesquisas bem embasadas. Haveria inclusive certa demanda por estas pesquisas.

Se esta pesquisa não deixou escapar nenhum fato relevante, podemos nos perguntar então o porquê de em nosso país não verificarmos mais políticas públicas bem embasadas em evidências. No artigo se comenta sobre a possibilidade de baixo acesso a essas pesquisas e pura desinformação. Mas isso pode ser só metade da explicação: o que impede que informações geradas a partir de evidências apontadas em pesquisas rigorosas chegue a quem de fato detém o poder? No que consiste a bolha que isola políticos e especialistas uns dos outros?

Neste caso específico podemos especular em 3 pontos:

  • O isolamento acadêmico, a “torre de marfim” que mantém especialistas ocupados sobretudo em tarefas dentro de seu nicho;
  • A seleção de assessores e funcionários dos tomadores de decisão, que deixa a desejar quanto a eficácia de selecionar aqueles que servirão como meio de informação do tomador de decisão, eles mesmos mais ligados a uma rede de contatos específica que a qualificação pessoal;
  • E o próprio embate ideológico que, além de poder criar uma hierarquia de relevância equivocada a partir da urgência de combater seu inimigo ideológico, pode simplesmente engessar debates e criar tabus.

Atacar estes três pontos pode não só melhorar a relação entre especialistas e agentes políticos, como pode ser entendido como parte dos objetivos almejados para melhorar a relação entre especialistas e toda a sociedade. Por mais que políticos e especialistas estejam em esferas diferentes, facilitar a mediação e o trânsito entre os dois pode além de melhorar a qualidade de políticas públicas, reduzir a influência de ideólogos anticientíficos que quando crescem em visibilidade podem abrigar-se estrategicamente no meio político.

Outro ponto que se encontra implícito acima é justamente que podem haver falhas na mediação entre o meio de especialistas e os não-especialistas. Esta mediação a princípio é melhorada a medida que se melhore a educação geral, e através desta melhora facilitar a formação de “mediadores” dentro da população que representem uma ponte entre o conhecimento especializado e seus meios de convivência.

Mas algo que não se deve esquecer aqui é a confiança. Deve-se prezar pela confiança que a comunidade de especialistas inspira, e deve-se lembrar que é mais fácil perder essa confiança que uma confiança por todo o conhecimento científico (ou pelo menos pelo o que o não-especialista entende por conhecimento científico). A objetividade dos fatos não pode ser relativizada para preservar crenças e valores comunitários, mas mesmo assim, essa relação sensível entre o conhecimento especializado e crenças subjetivas deve ser tratada com certa diplomacia.

Prezando pela confiança na comunidade de especialistas, o especialista deve evitar ser tendencioso, e misturar crenças suas a autoridade de sua imagem. Assim como deve também evitar ser hermético, e fortalecer qualquer resquício pré-moderno de um caráter esotérico da posição de especialista. Na verdade, para equilibrar tensões o especialista deve ser simpático a mediações, modos de transmitir seu conhecimento, mesmo que signifique nessa transmissão apelar para certa simplificação. Afinal a função do especialista, do cientista é gerar conhecimento não para um nicho somente.

Não estamos sugerindo que a autonomia do cientista deva ser comprometida em prol de seu impacto social, cientistas não são políticos (e isso serve a todas disciplinas científicas, não só as ciências humanas). Weber em seu ensaio “Ciência como Vocação” atenta para a necessidade do cientista ater-se ao seu trabalho como especialista, e recusar se enxergar como condutor da sociedade.

Uma separação entre crenças, filiações ideológicas e valores do cientista e seu trabalho é necessária. Mas isto não significa que o cientista deva se fechar numa bolha, seu trabalho deve impactar, e de fato impacta o mundo. Mas esse impacto não está numa função política da ciência, mas sim na sua função esclarecendo a realidade e fornecendo meios técnicos para aprimorar a sociedade. Ater-se a estas funções por si já podem ajudar na manutenção da confiança na comunidade de especialistas, e afastar a imagem do especialista como sujeito tendencioso.

Autor: Caio Freire

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