Como o Efeito Dunning-Kruger pode se manifestar mesmo coletivamente?

Tomar decisões faz parte de nossas vidas, fazemos isto do momento em que acordamos até o momento de descansarmos a noite. Mas boa parte de nossas decisões não são exatamente racionais e embasadas, existem muitos diferentes vieses que podem determinar nossas decisões. Em alguns casos nossa própria habilidade em julgar nossa capacidade para tomar certas decisões pode estar enviesada. Este vídeo (com legendas em inglês) fala sobre o Efeito Dunning-Kruger, que é um viés cognitivo, pelo qual pessoas incompetentes, devido a mesma falha que limita sua competência, se tornam incapazes de reconhecer suas limitações, e acabam por cair numa “superioridade ilusória”, onde se entendem como muito mais competentes do que são de fato.

Assim, uma falha deixa de ser corrigida, e sequer é reconhecida como falha, e a possibilidade de correção e melhora é desperdiçada. Do mesmo modo, pessoas relativamente competentes, exatamente por serem competentes e deterem conhecimento mais que razoável sobre um tema, reconhecem as possibilidades reais de se falhar, além de, no caso de serem especialistas num certo tema, se acostumarem a comparar seu nível de conhecimento com outros especialistas e desconhecer a distância real entre suas habilidades adquiridas e as habilidades de uma população leiga que o cerca. Deste modo não é raro que pessoas competentes sofram do oposto, de uma inferioridade ilusória, no caso chamado de “Síndrome do Impostor”.

Geralmente o Efeito Dunning-Kruger é lembrado para ilustrar quão imprecisos são nossos julgamentos sobre nós mesmos em âmbito individual. Mas más decisões geradas de dificuldade em se identificar viés ou limitação podem se dar em âmbito coletivo também. Isto ocorre sobretudo quando um líder carismático dentro de um grupo, associação, empresa ou mesmo uma nação que ao se mostrar confiante sobre a validade de suas propostas consegue achar apoio entre outros que como ele se mantém confiantes sobre seu potencial. Esta confiança pode ser sedutora, e pode ser parte da origem de seu carisma (se não a totalidade da origem de seu carisma), e pode ser fundada em simples inabilidade em reconhecer o potencial para falha deste líder e suas propostas.

Um líder confiante, por ser inábil em reconhecer suas limitações, estimula confiança em subordinados que por sua vez não conseguem perceber a limitação de seu líder, e a confundem com segurança e determinação. A falha destes subordinados em reconhecer sua própria limitação em enxergar os potenciais erros de seu líder pode alimentar a certeza de seu apoio, que por sua vez alimenta mais ainda a segurança do líder, isto enquanto são produzidas justificativas que fundamentem sua escolha de liderança. Ou seja, mesmo nações modernas e democráticas podem levar a frente decisões mal embasadas devido a inabilidade de um líder eleito reconhecer as próprias limitações e vieses, assim como a inabilidade de seus apoiadores em reconhecer suas limitações em julgar o potencial de um líder.

A democracia moderna é não só um modo potencialmente justo de tomada de decisões, mas também um modo potencialmente racional de tomada de decisões, entretanto pode se ver refém de incompetência não reconhecida, e superioridade ilusória alimentada por um embate ideológico real ou fantasioso. Disputa que faz dessa superioridade ilusória também uma superioridade moral ilusória, que por sua vez torna urgente ao incompetente temas supérfluos de distinção em relação aqueles contra quem combate, e torna secundários temas relevantes. O governo democrático, a tomada de decisão democrática pode ter como grande obstáculo exatamente o poder do enviesamento de lideranças, o governar, as decisões acerca de políticas públicas devem ser bem embasadas, devem partir da objetividade de dados, e pesquisas dotadas de boa metodologia, e não antepor a esta objetividade a subjetividade da opinião.

Apesar deste aparente ponto fraco, democracias modernas possuem uma característica positiva, que é o caráter profano da imagem da liderança pública. Quando esta comete um erro, ela pode e deve ser exposta a crítica generalizada, sua imagem não deve se tornar sacralizada e impenetrável a críticas. Apesar disto, conforme é exposto no vídeo, em nossas mentes, nossas opiniões valem muito mais do que fatos, e a crítica embasada pode ser insuficiente para se convencer alguém convicto. Mas neste mesmo vídeo também vemos que as pessoas não são completamente imunes a mudarem de ideia, e sua inicial intransigência pode ser menos devida a uma questão moral, “de ego”, que a uma limitação que pode ser superada com o tempo.

Além disto, para não deixarmos o pessimismo e fatalismo tomarem conta de nós, devemos estar cientes de que assim como uma confiança derivada de limitações pode levar em certos momentos a agregação e um apoio automático; uma descrença e dificuldade em agregação podem ser potencializados exatamente entre aqueles que possuem um conhecimento mais sofisticado que a maioria acerca das dificuldades em promover políticas públicas eficientes, em paralelo ao Efeito Drunning-Kruger. Não é só o otimismo do incompetente que é enviesado, o pessimismo do competente também é. Todos somos capazes de mudarmos de ideia, e políticas públicas bem embasadas podem se tornar mais convincentes que apelos ao carisma, á confiança pessoal, e segurança de quem não governa, mas batalha contra moinhos de vento.

Autor: Caio Freire

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