O que fazer para nunca mais acontecer? Evitar as milhares de mortes em casas de repouso.

hands, old, old age

De 24,7 mil mortos na França no início de março, 12,5 viviam em casas de repouso. 51% de TODAS as mortes. Pagamos um preço caro por não antecipar a propagação da Covid, a adoção de medidas sanitárias (distanciamento social, capacidade de testagem) e seus efeitos sócio-econômicos. Na mesma linha, devíamos ter previsto (parece hoje óbvio) a alta mortalidade em casas de repouso; isso poderia ter poupado muitas vidas — principalmente, no Brasil.

Nota cautelosa: nada do que será dito neste artigo depende de acreditar que a melhor estratégia é isolamento total, ou vertical, ou rezar, ou ir a comício, ou liberar a cloroquina, etc.; o argumento é basicamente “senso comum pedindo uma análise estatística”.

Todos nós acompanhamos como o Sars-Cov-2 se espalhou pelo mundo, gerando uma crise sanitária, econômica e social que vai marcar nossa geração. Então por que não nos preparamos melhor para isso? Mesmo que fosse difícil ter certeza sobre a propagação do vírus (até hoje ainda temos dúvidas sobre qual exatamente é a principal forma de transmissão), a probabilidade ex ante de que ocorresse era relevante, e deveríamos ter feito mais.

Em especial, houve problemas de comunicação (sério, veja a entrevista da Tara Sell) por parte de autoridades sanitárias, que por vezes evitam demais “espalhar pânico”, ou simplificam a mensagem (impossibilitando qualquer nuance), ou desaconselham algo útil, como o uso de máscaras; a imprensa raramente supre essa lacuna, já que sua postura usual é ou apenas repassar as informações, ou apresentar um contra-ponto — sem prover uma análise conclusiva, nem as fontes / referências usadas na matéria. Por outro lado, às vezes algum ponto importante é simplesmente ignorado ou despercebido, dada a montanha de informações que precisa ser processada — mesmo que, em retrospectiva, ele pareça óbvio (p. ex., a baixa capacidade de testagem).

A respeito destes pontos não deixe de ler nossa outra proposta: O que fazer para nunca mais acontecer? Comunicação entre especialistas, jornalistas e população

Possivelmente, a gravidade da Covid-19 em asilos e casa de repouso é um exemplo de lacuna — que apenas agora começa a ser reconhecido; em vários países europeus, esses ambientes respondem por 30% a 60% dos mortos, sem contar os que ainda estão por ser descobertosClaro, esses ambientes concentram idosos e portadores de doenças crônicas, então é de se esperar que isso seja afetado por viés de seleção; mas o efeito parece ser muito grande (nos países europeus) para que se possa afirmar, sem um análise estatística adequada, que essas pessoas teriam a mesma chance de morrer se estivessem em outro lugar.

As bolinhas cinzas representam o total de mortes em casas de repouso. Fonte.

Fatores a considerar: o Sars-Cov-2 tem se destacado por situações de “super-propagação” em aglomerações (como shows e missas) e ambientes fechados (como presídios e abatedouros). Nota-se uma ênfase considerável em segurança hospitalar: milhares de trabalhadores da saúde foram afastados por contato com a doença, e o sistema de saúde foi cobrado em relação ao fornecimento de equipamentos de proteção e testes. E é interessante lembrar que alguns nomes de destaque no combate à doença foram infectados, como David Uip (coordenador da força-tarefa do estado de SP) e Li Wenliang (médico chinês que divulgou dados sobre a Covid ainda em dezembro de 2019).

No entanto, até recentemente, eu não havia lido nada a respeito de Covid em casas de repouso — embora sejam ambientes análogos a hospitais, que concentram grupos de risco. Conquanto existam diretrizes para segurança do paciente nesses ambientes, elas são menos estritas que em hospitais, e os poucos artigos que encontrei indicam que a ênfase em biossegurança e segurança é consideravelmente menor do que em hospitais. Na verdade, a Anvisa já havia pressentido o perigo, e alguns veículos noticiaram a “chegada da epidemia” a um único estabelecimento — mas isso ficou perdido na balbúrdia de informações (que, hoje, parecem menos relevantes) sobre cloroquina, disputa política, contaminação em pacotes, etc. Por exemplo, qualquer um desses temas teve mais buscas no Google do que “Covid and nursing homes” ou “Covid e casas de repouso””

A boa notícia é que ainda não encontramos muitas notícias sobre mortes no Brasil — basicamente, um estabelecimento em Itu que conta com 8 mortos, outro em Hortolândia com seis… Mas é provável que isso aumente.

5 medidas para prevenir um (ainda maior) massacre

Se as autoridades têm maiores informações sobre o problema, ou se já o consideram solucionado, deveriam deixar isso claro e incentivar a imprensa a publicá-lo. Se não, algumas sugestões baratas:

  1. Avaliar se as diretrizes para segurança do paciente e prevenção de contaminação interna em casa de repouso são adequadas, no contexto atual de pandemia (ex.: a NT 5/2020 da Anvisa recomenda máscaras apenas para pacientes com sintomas respiratórios)e se estão sendo cumpridas pelos estabelecimentos — spoiler: mesmo hospitais tem denúncias de descumprimento de medidas de prevenção.
  2. Claro, testes!
  3. Encontrar / realizar um estudo estatístico que busque discriminar se, de fato, estar em uma casa de repouso implica um risco aumentado de morte por Covid-19, controlando por idade e comorbidades — i.e., precisamos saber se essas pessoas não teriam a mesma chance de morrer se estivessem fora desses ambientes.
  4. Conscientizar as pessoas do problema. Se uma família estiver considerando hospedar / internar um idoso numa casa de repouso, pode ser interessante refletir se essa decisão não pode ser postergada por uns meses, para depois da crise; em especial, é importante avaliar se um idoso com tais e tais características tem maior ou menor chance de contrair (e morrer por) Covid dentro da casa de repouso, ou com sua família. Além disso, saber do problema lhes dá um incentivo adicional para cobrar da casa de repouso maior atenção com a segurança do paciente.
  5. Já mencionei… testes? Nunca é demais repetir.

Status epistêmico: esse é um ensaio exploratório, que visa a chamar atenção para um ponto que pode ter alto impacto, mas recém começa a ser percebido (ao menos por veículos de comunicação). Não deve ser lido como uma crítica contundente de qualquer autoridade específica, mas como um “pedido de atenção”: deveríamos estar falando de casas de repouso dois meses atrás, quando começamos a nos preocupar com segurança hospitalar.

Autor: RAP

Pequenas alterações foram feitas no texto original que você pode ler aqui.

Este artigo faz parte da série: “Coronavírus: o que fazer para nunca mais acontecer”.

Deixe um comentário

Seu email não será publicado