Ninguém é perfeito, tudo é comensurável

O que fazer diante do argumento de que somos moralmente obrigados a nos engajar em ativismo político?

Este artigo questiona os efeitos práticos da onda de ultraje moral que tomou as redes sociais. No lugar do “xingar muito no twitter”, sem maiores consequências, ele oferece uma alternativa bastante razoável de como canalizar o impeto de busca por justiça em ações que fazem diferença real no mundo.

Boa leitura!

NINGUÉM É PERFEITO, TUDO É COMENSURÁVEL

I.

Recentemente avistado no Tumblr:

“Essa vai ser uma opinião impopular, mas eu vejo pessoas comentando que não querem reblogar coisas sobre Fergunson e chamar a atenção do mundo pra essas questões, porque não querem negatividade na vida delas ou porque isso vai deixá-las ansiosas. Elas vêm pro Tumblr pra escapar e se sentirem felizes, o que eu acho uma puta bobagem. Tem pessoas literalmente morrendo, temendo por suas vidas, com medo de tomarem tiro quando saem de casa e você não consegue compartilhar uma foto porque isso te deixa nervoso?”

“Cês não podiam tirar um tempinho que vocês gastam com memes e fandoms pra ler e compartilhar sobre o Paquistão? Porque esse privilégio de vocês de ter uma bolha segura não é compartilhado por todo mundo, não.”

Ignorando as escolhas estilísticas questionáveis, tem um ponto importante aqui que vale a pena considerar. Algo como “Sim, o sentimento de estar constantemente indignado e comprometido com a última controvérsia é desagradável. E, sim, seria bom poder evitá-lo para passar tempo com a família ou olhar fotos de gatinhos, ou algo assim. Mas quando a controvérsia trata de pessoas sendo mortas a sangue frio, ou vivendo aterrorizadas, ou algo assim — daí você, como ser humano decente que é, passa a ter o dever de se importar. No melhor dos casos, você pode cumprir esse dever organizando protestos ou algo assim — mas o mínimo do mínimo que você pode fazer é reblogar alguns slogans.”

Acho que Cliff Pervocracy está tentando dizer algo semelhante neste post. Trecho relevante:

“Quando você foi criado ouvindo a mensagem de que você é incompetente para tomar as próprias decisões, que não merece nenhuma das coisas que tem e que nunca será bom o bastante, a fantasia [conservadora] de um individualismo obstinado começa a parecer bem atraente.

Intelectualmente, eu acho que meu meio político atual de feminismo / progressismo / justiça social é mais correto, mais benéfico para o mundo em geral e mais útil para mim em particular, já que eu não vivo em um chalé totalmente isolado.

Mas, por Deus, é desconfortável. É intencionalmente desconfortável — tudo é convite pra ficar com raiva da injustiça e questionar a correção das suas próprias ações e ficar triste que tanta gente vive com tanta dor e opressão. Isso tudo no lugar de olhar pro seu chalé e declarar — “Eu batizo você de SOLAR DO CLIFFORDSON!” — não, você precisa olhar pro seu chalé e reconhecer toda uma série de injustiças brutais que são responsáveis pelo fato de que você tem um trabalho estável num escritório que te permite comprar uma casa grande e inútil no meio da floresta enquanto os donos originais dessa terra foram assassinados ou expulsos.

E você nunca é bom o bastante. Você pode ser bom — certamente você ganha vários pontos por fazer caridade e se envolver com ativismo e lutar por uma boa causa — mas não bom o bastante. Não importa o que você faça, você ainda assim participa de um monte de sistemas corruptos que engendram opressão. A menos que você cause uma revolução em tudo e todos, o seu trabalho nunca estará completo, você nunca será bom o bastante.

Mais uma vez, pra deixar claro: eu não acho isso errado. Só acho que é uma pena.

Eu não tenho uma solução pra isso. (Uma pena, mais uma vez). Eu acho que o progressismo jamais conseguirá competir com a auto-satisfação confortável da fantasia do chalé nas montanhas. Eu não acho que deve. É necessário mudar o mundo, e as pessoas não mudam se elas estiverem totalmente felizes e satisfeitas, portanto o desconforto é necessário.”

Eu gostaria de fazer um adendo gentil, espero, à postagem de Cliff. Ele acha que está falando de progressismo contra conservadorismo, mas não está. Um conservador feliz, com seu chalé e ocasionais expedições de caçada, e um progressista feliz, no seu apartamentinho na Zona Sul e ocasionais saraus de poesia, são muito parecidos psicologicamente. Igualmente parecidos são o esquerdista que abandona a vida de conforto, para trabalhar com serviço comunitário no subúrbio e lutar contra a pobreza, e o conservador que abandona a vida de conforto, para servir no exército e lutar contra o terrorismo. A distinção em que Cliff está mirando aqui não é esquerda-direita. É ativista contra “passivista”.

Como parte de um movimento recentemente tachado de pós-político, tenho que admitir que eu me encontro mais do lado passivista do espectro — pelo menos nessa concepção. Eu falo de política quando me interessa ou quando eu quero — e eu sinto uma obrigação de não piorar as coisas. Mas eu não sinto que preciso falar sem parar sobre a questão da vez até eu e meus leitores ficarmos transtornados. Já ouvi muita gente dando suas razões para não entrar em política. Para alguns, ouvir sobre todos os males do mundo dá vontade de virar uma bolinha e chorar por horas. Outros ainda sentem uma culpa pessoal profundíssima a respeito de tudo que ouvem — uma crença quase psicótica de que, se alguém sofrer em qualquer lugar do planeta, é culpa deles não o ter prevenido. Alguns se sentem cronicamente incapazes de tomar partido, preocupados que suas ações, quaisquer que sejam, façam mais mal do que bem. Um ou outro tiveram experiências traumáticas que os impedem de se afiliar a qualquer lado, por medo — você sabia que o promotor do caso Fergunson foi filho de um policial morto por um suspeito negro? E outros ainda são perfeitamente inocentes e só querem reblogar fotos de gatinhos.

Pervocracy admite isso e o exprime melhor do que eu:

“Mas, por Deus, é desconfortável. É intencionalmente desconfortável — tudo é convite pra ficar com raiva da injustiça e questionar a correção das suas próprias ações e ficar triste que tanta gente vive com tanta dor e opressão. Isso tudo no lugar de olhar pro seu chalé e declarar — Eu batizo você de SOLAR DO CLIFFORDSON — não, você precisa olhar pro seu chalé e reconhecer toda uma série de injustiças brutais que são responsáveis pelo fato de que você ter um trabalho estável num escritório que te permite comprar uma casa grande e inútil no meio da floresta enquanto os donos originais dessa terra foram assassinados ou expulsos.

E você nunca é bom o bastante. Você pode ser bom — certamente você ganha vários pontos por fazer caridade e se envolver com ativismo e lutar a boa luta — mas não bom o bastante. Não importa o que você faça, você ainda assim participa de um monte de sistemas corruptos que engendram opressão. A menos que você cause uma revolução total de tudo, o seu trabalho nunca estará completo, você nuca será bom o bastante.”

Isso resume a coisa toda. Pervocracy se resigna ao desconforto e eu estou mais ou menos na mesma. Mas outras pessoas, menos estáveis, acabam se odiando. Outras pessoas vão mais longe ainda, entoando um auto-desprezo meio calvinista: “talvez eu não passe de um verme desprezível indigno de existir”. A resposta de moteinthedark a Pervocracy me dá a impressão de que ela às vezes sofre assim. Para essas pessoas, abster-se da política é sua única forma de lidar com isso.

Mas o contra-argumento insiste que você tem muita audácia [chutzpah] de se resguardar nessa desculpa quando milhares de pessoas em Peshawar ou em Fergunson ou no Iraque jamais poderiam lidar com suas questões abstendo-se dessa maneira. Você não pode só trazer um atestado médico e dizer “Conforme recomendações do meu psiquiatra, meus problemas mentais me dispensam de consideração para com os menos afortunados”.

Uma opção é negar a obrigação. Simpatizo bastante com essa escolha. O custo marginal da minha existência para os pobres e miseráveis do mundo é zero. Na verdade, é provavelmente positivo. Minha atividade econômica consiste basicamente em tratar pacientes, comprar produtos e pagar impostos. O primeiro trata as doenças dos pobres, o segundo cria empregos e o terceiro paga por planos de assistência governamental. Pelo que exatamente deveria eu me desculpar aqui? Pode ser que eu tenha me beneficiado do genocídio dos indígenas na medida em que vivo onde costumavam morar tribos inteiras. Mas eu também me beneficio do asteroide que matou os dinossauros, na medida em que eu vivo onde costumavam morar espécies inteiras de dinossauros. Não me sinto cúmplice na queda do asteroide; por que deveria eu me sentir cúmplice no genocídio indígena?

Não possuo objeção alguma a quem diz isso. O problema com essa opção não é filosófico, mas emocional. Para a maioria das pessoas, isso não será o bastante. O antigo ditado dizia que “a questão que não foi gerada pela razão tampouco será resolvida pela razão”, e a questão de pessoas seguras e prósperas deverem de alguma forma “retribuir” é muito mais antiga do que as acusações modernas de “cumplicidade nas estruturas de opressão”. Provavelmente é mais antiga que a própria Bíblia. As pessoas sentem uma necessidade profundamente arraigada de mostrar que entendem a sorte que tiveram e de ajudar os menos afortunados.

Então o que fazer diante do argumento de que somos moralmente obrigados a nos engajar em ativismo político, incluindo aí o compartilhamento de toda e qualquer notícia sobre Fergunson que cruze a nossa vista?

II.

Nós perguntamos: por que raios estamos privilegiando essa subseção em particular da categoria “melhorar o mundo”? Pervocracy diz que “a menos que você cause uma revolução total de tudo, o seu trabalho nunca estará completo, você nunca será bom o bastante”. Mas ele está sendo otimista demais. Por acaso sua revolução total de tudo eliminou as doenças isquêmicas do coração? Curou a malária? Manteve os idosos fora dos asilos? Não? Então ainda falta muito para quitar a sua dívida infinita!

Ser uma pessoa perfeita não significa apenas participar de toda e qualquer campanha de Twitter em que você esbarra. Significa devotar todo o seu tempo a sopões comunitários, tornar-se vegano, doar todo o seu dinheiro para a caridade, ligar para a vovó toda semana e casar-se com refugiados do terceiro mundo que precisam de vistos em vez de procurar o seu amor verdadeiro.

E nem todas essas coisas são importantes na mesma medida.

Cinco milhões de pessoas participaram da campanha de Twitter #BlackLivesMatter. Suponha que, como consequência dessa campanha, nunca mais um policial machuque um negro desarmado. São 100 vidas salvas por ano multiplicadas por, digamos, 20 anos restantes na carreira do policial médio, totalizando 2000 vidas salvas, ou 0,4 milésimo de vida salva por participante da campanha. Por coincidência, 0,4 milésimo de vida salva é justamente o que se consegue com uma doação de 1U$ para a Fundação Contra a Malária (AMF). A passagem de ônibus que as pessoas pagaram para ir e voltar dos protestos do #BlackLivesMatter poderia ter salvado dez vezes mais vidas negras do que os protestos em si, mesmo usando estimativas ridiculamente otimistas da eficácia dos protestos.

A moral da história é que, se você sente uma obrigação de retribuir o mundo, engajar-se em ativismo político é uma das piores formas de fazer isso. Mesmo doar uma quantidade ridícula de dinheiro para caridade é centenas, talvez milhares, de vezes mais efetivo do que qualquer atividade política em que você possa se envolver. Ainda que você esteja completamente convencido de que uma determinada questão política é a coisa mais importante do mundo inteiro, você vai gerar muito mais mudança efetiva doando dinheiro para uma organização sem fins lucrativos envolvida na questão do que reblogando o que quer que seja.

Não existe motivo algum para sequer considerar a política do ponto de vista de uma pessoa neutra tentando “furar a bolha do seu privilégio” ou “ajudar as pessoas que têm medo de sair de casa”. Alguém dizendo que pessoas com o objetivo de fazer o bem precisam espalhar uma determinada causa política é mais ou menos tão crível quanto um pastor da televisão dizendo que pessoas com o objetivo de fazer o bem precisam lhe dar dinheiro para financiar um novo estúdio de filmagens. É possível que o pastor da televisão com um novo estúdio bonito seja um pouquinho melhor que um pastor da televisão com um estúdio aos pedaços, mas essa não seria a primeira opção de alguém tentando sinceramente melhorar o mundo.

Ninguém se importa com caridade. Todo mundo se importa com política, principalmente raça e gênero. Da mesma forma que os pastores, obcecados por uma igreja melhor e mais bonita, talvez considerem a doação ao fundo de renovação deles a derradeira prova da decência humana, também a nossa obsessão universal com política, raça e gênero nos leva a defender, com unhas e dentes, que se tome e espalhe a posição correta nessas questões, como se essa fosse a derradeira prova da decência humana.

Então agora temos um ângulo de ataque contra a nossa questão original. “Sou eu uma má pessoa por não me importar o suficiente com política?” Bom, quase qualquer outra forma de fazer o bem, principalmente a caridade, é mais importante que a política. Então essa questão é estritamente suplantada pela pergunta “Sou eu uma má pessoa por não me engajar em todas as outras formas de fazer o bem, principalmente a caridade?” E uma vez que respondamos isso, podemos perguntar “Além disso, à quantidade de pecado que eu cometi por não ter me engajado em caridade deve-se adicionar ainda outra quantidade de pecado, digamos 1% desse total, pelo meu não engajamento em política?”

E a preocupação de Cliff Pervocracy de que “Mesmo que eu faça um monte de política, sou ainda uma má pessoa por não fazer TODAS as ações políticas?” é estritamente suplantada por “Mesmo que eu doe um monte de dinheiro para a caridade, sou ainda uma má pessoa por não doar TODO o meu dinheiro? E, ainda, uma pessoa pior ainda, digamos 1% pior, por não fazer, além das doações, TODAS as ações políticas?”. Não há boas respostas para essas perguntas. Se você quiser sentir ansiedade e autodesprezo por não doar 100% do seu salário para a caridade, excetuando gastos de subsistência, ninguém pode te impedir.

Eu, por outro lado, prefiro chamar isso de “não ser perfeito”. Eu preferiria dizer que, se você sente que vai viver afundado em ansiedade e autodesprezo até que tenha doado uma determinada quantidade de dinheiro para a caridade, essa quantidade deveria ser então dez por cento.

Por que dez por cento?

Dez por cento, porque esse é o padrão decretado pela organização Giving What We Can e a comunidade do Altruísmo Eficaz. Por que deveríamos acreditar nesse padrão? Eu acho que deveríamos acreditar nele porque, se o rejeitarmos em favor de “Não, você é uma má pessoa a não ser que doe todo o seu dinheiro”, então todo mundo vai só sentar o dia todo se sentindo mal consigo mesmo sem fazer nada a respeito. Mas se, ao contrário, dizermos bem claramente que “Você quitou seu dever moral ao doar da sua renda dez por cento ou mais”, então muita gente vai doar dez por cento ou mais. O mais importante é ter um Schelling point (Ponto de Schelling*) e dez por cento é um número simples, redondo, divinamente consagrado e — o mais crucial — é o número que já estabelecemos. É um Schelling point ativo. Se você doar dez por cento, você pode ter o seu nome numa lista bonita e acessar o fórum secreto no site da Giving What We Can que, pra falar a verdade, é bem sem graça.

* Na teoria dos jogos, um ponto focal (ou ponto de Schelling) é uma solução que as pessoas tendem a escolher por padrão, na ausência de comunicação. (Nota do Tradutor).

Dez por cento, porque definições foram feitas para o Homem, não o Homem para as definições e, se definirmos “boa pessoa” de uma forma tal que todo mundo fique o dia todo se sentindo um lixo porque não consegue atingir um ideal inalcançável, então somos criadores de definição estúpidos. Se formos bons criadores de definição, definiremos da forma que mais efetivamente contribui pra convencer as pessoas a doar.

Dez por cento, finalmente, porque se você acredita em algo parecido com universalização como fundamento da moral, então um mundo no qual todo mundo doa 10 por cento da sua renda para a caridade é um mundo onde aproximadamente sete trilhões de dólares por ano serão doados para a caridade. Estima-se que resolver a pobreza no mundo custe cerca de cem bilhões de dólares por ano ao longo de duas décadas. Isso dá aproximadamente dois por cento de todo o dinheiro que estaria subitamente disponível. Se fossem doados para a caridade sete trilhões de dólares por ano, o primeiro ano apenas seria suficiente para resolver a pobreza no mudo, eliminar todas as doenças tratáveis, financiar pesquisa e desenvolvimento para as intratáveis por séculos, educar qualquer um que precise de educação, alimentar qualquer um que precise de alimento, financiar um renascimento sem igual nas artes e ciências, salvar permanentemente todas as florestas tropicais do mundo e ainda restaria o suficiente para seis ou sete missões tripuladas para Marte. E isso seria só no primeiro ano. Só Deus sabe o que faríamos no ano seguinte.

(Em contraste com isso, se todo mundo no universo inteiro retwitasse a última #campanha da vez, a única consequência disso é que o Twitter quebraria.)

Caridade é, de certa maneira, a ação não incentivada perfeita. Se você acredita que a coisa mais importante a se fazer é curar a malária, então uma doação de caridade equivale a elencar a força do seu cérebro e dos seus músculos na causa pela cura da malária. Se, como já argumentei, a razão pela qual não conseguimos resolver a pobreza e a doença no mundo é a captura de nossos recursos financeiros pela dança indiscriminada dos incentivos, então há forma melhor de revidar do que dizendo “Não, obrigado. Estou pegando essa representação abstrata dos meus recursos e usando-os exatamente da forma como eu acho que eles melhor deveriam ser usados”?

Se você doar dez por cento ao ano, você vai ter feito a sua parte na construção desse mundo. Você pode dizer com toda a certeza e sinceridade “Bom, a culpa não é minha se o resto das pessoas ainda estão paradas de braços cruzados”.

III.

Uma vez que se tenha fixado o nível em dez por cento, temos uma ideia melhor de como responder à pergunta original: “Se eu quero ser uma boa pessoa que retribui a comunidade, mas falar de política me deixa ansiosa, então eu faço o quê?” Você faça o bem de um jeito que não te deixe ansiosa. Outro benefício de ter menos do que 100% de obrigação é que isso permite que você faça cálculos orçamentários. Se você ganha $30.000 por ano e aceita 10% como medida adequada, você pode escolher doar $3.000 para a caridade, ou participar de protestos políticos até que a quantidade de vidas ou dólares ou anos de vida saudável que você salvou equivalha-se a isso.

Ninguém é perfeito. Isso nos dá licença para não sermos perfeitos também. Em vez de mirar em uma meta impossível, fracassar e acabar não fazendo nada, nós estabelecemos uma meta arbitrária, mas atingível, projetada para encorajar o maior número de pessoas possível a fazer a maior quantidade de bem possível. Essa meta é dez por cento.

Tudo é comensurável. Isso nos dá licença para determinar exatamente como vamos cumprir essa meta de dez por cento. Algumas pessoas ficam ansiosas e assustadas com política. Outras são doentes demais pra fazer voluntariado. Outras ainda são pobres e não têm muito pra doar. Mas o dinheiro é um lembrete constante de que tudo vai no mesmo saco e que é possível cumprir obrigações de vários jeitos equivalentes. Algumas pessoas não vão poder doar dez por cento da renda sem incorrer em sofrimentos terríveis, mas eu aposto que pensar na própria contribuição em termos fungíveis ajudará a decidir exatamente quanto voluntariado ou ativismo elas precisam empreender para alcançar o equivalente.

Cliff Pervocracy diz “Seu trabalho nunca estará completo, você nunca será bom o bastante”. Isso parece — no melhor dos casos — uma receita para ficar sofrendo sem propósito, entregue ao auto-desprezo e completamente vulnerável ao primeiro meme parasitário que vier ordenando que você se engaje no conflito da vez porque senão você é um lixo. No pior dos casos, isso autocatalisa uma oposição de egocêntricos que riem da ideia de ajudar aos outros. Por outro lado, Jesus diz “Tomai sobre vós o meu jugo… e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo e leve.” Isso parece uma receita para fazer as pessoas dizerem “Muito bem, tomarei o seu julgo sobre mim! Obrigado!”

O poeta persa Omar Khayyam, considerando o conflito entre as leis rígidas do Islã e o seu próprio desejo de aproveitar a vida, decide-se pela seguinte regra:

Não sigas a Suna, tampouco a lei divina;

Se dos pobres a cota-parte lhes destinas,

nunca ferir ou maltratar, nem um pouquinho,

eu te garanto o paraíso — e também vinho!

Eu não estou dizendo que doar 10% do seu dinheiro para a caridade faz de você uma pessoa incrível, livre de qualquer outra obrigação moral. Não estou dizendo que quem escolher não doar é uma pessoa má. Só estou dizendo que, se você sente a necessidade de descarregar um sentimento de exigência moral que o comanda a ajudar os outros, e você quer ajudar de forma inteligente, então doar é melhor que a maioria das alternativas.

Este mês está ocorrendo a campanha de filiação para a Giving What We Can, organização de pessoas que prometeram doar 10% da sua renda para a caridade. Eu sou membro. Ozy é aspirante a membro e planeja se juntar assim que começar a receber um salário. Muitos dos comentadores deste site são membros — reconheço, por exemplo, o nome de Taymon Beal na lista. Alguns filósofos morais bem conhecidos, como Peter Singer e Derek Parfit, são membros. Outras 700 pessoas são também membros. Recomendo dar uma olhada neles.

Popularidade relativa das postagens do blog onde este texto foi originalmente postado, divididas por assunto. Da esquerda para a direita: Caridade, estatística, medicina, economia, ficção, transhumanismo, racionalidade, ciência, política, raça e gênero, arrependimento.

ORIGINALMENTE ESCRITO POR SCOTT ALEXANDER EM 19 DEZEMBRO DE 2014.

Disponível em: https://slatestarcodex.com/2014/12/19/nobody-is-perfect-everything-is-commensurable/

Tradução: Stefan Rotenberg
Revisão: Fernando Moreno

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Vidas negras importam — não importa onde vivam.

Em 2018, estima-se que houve 228 milhões de casos de malária, com 405 mil mortes (94% em países da África). Em 2017, muito antes da pandemia, 2,5 milhões morreram de pneumonia — 800 mil crianças; a área mais atingida é a África Central. Ainda, recentemente, na República Democrática do Congo (RDC), detectou-se um novo surto de Ebola; no mesmo país, o Alto-Comissariado para Direitos Humanos denunciou o massacre de milhares de civis. Na verdade, essa região tem sido palco de violência étnica e política desde a década de 90, quando houve as Grandes Guerras do Congo, vitimando mais de 5 milhões de pessoas (estimado por mortes em excesso). Mas a maioria das pessoas nunca ouviu falar disso. Igualmente, se a crise de refugiados na Europa impacta a política mundial, o fato de que Uganda abriga mais de 1,4 milhões de refugiados (oriundos principalmente da RDC e do Sudão) é vastamente ignorado.

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