O veganismo é um imperativo no Altruísmo Eficaz?

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Imagine que você vai fazer um piquenique na beira de um lago. Estende uma toalha na grama, organiza sua tábua de queijos e abre um vinho. O fim de tarde traz uma luz bonita, a temperatura é agradável, o vento que sopra seus cabelos não incomoda. Só o que incomoda é uma vaca mugindo a alguns metros dali.

Ela não para de mugir desesperada em direção ao lago: seu bezerro recém-nascido está se afogando. Ela tenta se comunicar contigo, você é o único humano ali por perto, em 1 minuto você conseguiria entrar na água e salvar o bezerro! Faria novamente aquela família feliz.

Você só teria de molhar um pouco suas roupas, mas não passaria frio, tem toalhas e casaco no seu carro. Você salvaria o bezerro?

Ah, antes de responder, só tem mais uma condição surpresa. Esse mundo é mágico e, se você salvar o bezerro, magicamente seus queijos serão substituídos por queijos de castanhas. 

Você olha para seu gorgonzola e seu camembert “tradicionais”, você olha para a vaca desesperada e o bezerro em seus últimos segundos de vida, tentando se agarrar à borda, “mas gorgonzola de castanhas nem é tão gostoso”, você pensa. 

O sofrimento de mãe e filho continua. Você vira o rosto, coloca um fone de ouvido, senta-se na grama e desfruta de sua muçarela de búfala enquanto estuda sobre o inverno nuclear.

Ou estou enganado e você salvaria o bezerro?

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Este livro está sendo postado m um projeto do Altruísmo Eficaz. Para os leitores que até aqui ainda não conhecem esse movimento, segue um curso rápido de 2 minutos (quem já conhece, pode pular para a próxima parte):

Você está no mundo, nasceu, cresceu e pode querer fazer o bem para outros ou pensar apenas em si mesmo.

Se só pensa em fazer bem para si mesmo, siga seu rumo, volte ao Instagram, não queremos papo com você.

Se pensa em fazer o bem para os outros, temos dois conceitos para trabalhar. O que é “bem”? E quem são “os outros”?

Fazer o bem ao mundo, no movimento do Altruísmo Eficaz, envolve dois objetivos diferentes de curto prazo (1.reduzir mortes; ou 2. reduzir sofrimento) e um grande objetivo de longo prazo (3. evitar o apocalipse das vidas na Terra e, se aplicável, em outros planetas também).

Sobre o conceito “outros”, o movimento considera um círculo moral expandido para todas as vidas capazes de sofrer. Os outros não são apenas os seres humanos, são todos os animais sencientes, inclusive aqueles consumidos como “comida”.

Agora que aprendemos o que é fazer o “bem aos outros”, podemos explorar o grande diferencial do movimento: a palavra Eficaz. Ela enfatiza uma diferença de outras ações altruístas, pois busca entender “qual o MAIOR bem que você pode fazer?”. 

O movimento começou com a ideia de aumentar doações financeiras às ONGs e organizações que melhor aproveitam cada dólar doado. Uma visão de “retorno sobre o investimento”. Às vezes, um valor que doamos para uma ação poderia salvar mais vidas e ter mais impacto se escolhêssemos outra alternativa.

Os fundadores buscavam, de um lado, trazer comprometimento das pessoas a doarem ao menos 10% de sua renda e, por outro lado, identificar as organizações que tivessem o maior impacto em suas ações (em termos de redução de mortes e sofrimento).

Mas nossas realidades são muito diferentes e o movimento evoluiu também para doação de tempo e a pergunta se modificou para “qual o MAIOR bem que você pode fazer com os recursos de TEMPO e/ou DINHEIRO que possui?”

Desse insight surgiu o projeto “80 mil horas” (que hospeda este blog), focado em apoiar os jovens na escolha de carreiras. Se trabalharão 80 mil horas ao longo da vida, não valeria a pena investir 0,1% desse tempo analisando quais trabalhos farão o maior bem para o mundo?

O guia de carreiras segue a mesma priorização do Altruísmo Eficaz: quais os maiores problemas do mundo? (em termos de escala, de número de vidas sencientes impactadas); quais desses problemas são mais tratáveis?; e quais desses estão tendo menor atenção e recebendo menos recursos? (em termos de pesquisa da solução ou mesmo investimento financeiro). 

Após esse filtro, os maiores focos de atuação altruísta do movimento (de maneira bem simplificada, e constantemente atualizada) caem hoje em 3 pilares: pobreza extrema, sofrimento animal (principalmente em fazendas industriais) e longotermismo (essa palavra estranha envolve tudo que pode trazer um apocalipse para a vida na Terra, desde pandemias, desastres naturais, guerras nucleares até um caos criado por uma inteligência artificial que venha a sair dos trilhos).

Em cada um desses pilares, o movimento identifica as organizações, iniciativas, projetos que mais reduzem o número de mortes, de sofrimento ou, quando pensamos para o futuro, que mais aumentam nossa possibilidade de sobreviver por mais alguns milênios.

Pronto, você está formado no tema Altruísmo Eficaz. Parabéns! Pegue aqui o seu diploma e voltemos à pergunta inicial.

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Você salvaria o bezerro?

Ou melhor: se você considera o Altruísmo Eficaz em suas ações, seria um imperativo você salvar o bezerro? 

E se você descobrir que 8 milhões de bezerros são mortos anualmente só no Brasil para você poder comer seu queijo… Seria um imperativo moral você tirá-lo do prato? Seria Eficaz?

Dos três maiores pilares do movimento, agir para reduzir o sofrimento animal é o que exige o menor dos esforços, tanto em tempo quanto em dinheiro. Depende só de você, basta retirar o queijo do prato. Ok, não é só o queijo, mas o foco do texto hoje é o bezerrinho se afogando no lago.

Qual seu custo em termos de tempo para tirar o queijo do prato? Zero.

Qual seu custo em termos financeiros para tirar o queijo do prato? Aqui são dois caminhos. Você pode economizar esse valor e investi-lo em redes contra mosquito da malária que salvam milhares de vidas na África. Mas você também pode entender que psicologicamente precisa muito ter o queijo na sua alimentação. Então, sim, os queijos sem sofrimento animal, feitos de plantas, ainda são em torno de 30% mais caros.

Nesse caso, há um custo financeiro de fazer o bem para os outros (os bezerros e suas mães). Então, pelo prazer do camembert, você pode decidir postergar a atuação altruísta até a conta fazer sentido. Mas, ao menos, quando for comer fora e a opção com queijo vegetal tiver o mesmo preço (em muitos lugares já estão até mais baratas), você não teria outra desculpa. 

Na pior das hipóteses, após todas as resistências e argumentos, um AE deve sempre pedir a opção vegana em restaurantes, se ela tiver o mesmo preço. Um AE deve sempre, pelo menos, cogitar seriamente em salvar o bezerro.

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Expandindo além do queijo. As contas divergem, mas uma pessoa não vegana é responsável pela morte de 100 a 300 animais a cada ano (a conta varia se leva em conta, além do consumo, também as mortes “acidentais” na produção, os animais “não comestíveis” mortos nas grandes redes de pesca, os abates de pintinhos vivos – só no Brasil são 86 milhões por ano -, o de bezerros não consumidos e outras práticas da indústria).

Se o AE apenas retirar os animais de seu prato, já faz uma ação com efeito extremamente claro e altruísta: não financiou a morte e sofrimento de, ao menos, 100 animais por ano. Em uma vida inteira, isso significaria deixar de financiar a morte e sofrimento de quase 10 mil animais. Vendo esses números, também podemos concluir o quanto é importante os AEs criarem filhos veganos, para ainda um maior impacto longotermista nas gerações vindouras, mas esse ponto fica para outro post.

Por fim, um bônus: a dieta vegana é em torno de 30% mais barata que a onívora (se você não ficar só nos industrializados ultraprocessados, claro). Então, expandindo além do queijo, com alguns alimentos compensando outros, é ainda mais imperativo o veganismo para os AEs. Essa economia poderia ser usada diretamente para salvar vidas contra a malária. Um duplo ganho com apenas uma ação: retirar os animais do prato.

Conclusão: se os AEs estão mesmo preocupados em fazer o maior bem possível aos outros seres sencientes, deveriam começar a transição vegana hoje mesmo. Mesmo que aos poucos.

Leandro Franz é economista, escritor e wannabe vegano. É autor dos livros “A Pequena Princesa” (Ed. Letramento), “No Útero de Paulo, o Embrião não Nascerá” (Ed. Penalux) e “120 dias de Corona” (Ed. Letramento) – este último lançado agora em 2022.

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