A solução para o vício não é abstinência, é conexão

Semana 25

A solução para o vício não é abstinência, é conexão. Essa é a conclusão do sociólogo e best seller Johann Hari em um TED sobre vício em drogas. Claro que os componentes químicos fazem sua parte, mas a redução da dependência vem por meio do acolhimento por outros humanos, da criação de laços afetivos, de propósito de vida. 

Quando tudo isso se fragiliza, nós acabamos buscando a felicidade no uso de substâncias entorpecentes (mesmo as consideradas mais leves, como álcool e redes sociais). Prometer a si mesmo que você vai parar com elas não adianta muito, sua força de vontade mingua rápido se não há um outro propósito ou um sentido de acolhimento e conexão com familiares, amigos e, até mesmo, animais de estimação.

Segundo Johann Hari: “quando você vê a guerra contra as drogas sob este prisma, tentar eliminar as drogas – os produtos químicos que causam dependência – nunca acabará completamente com o vício porque evita um problema mais profundo na sociedade – a falta de conexão. Existe uma alternativa. Você pode construir um sistema projetado para ajudar os viciados em drogas a se reconectar com o mundo – e assim deixar seus vícios para trás.”

A solução para o vício em carne não é se forçar a comer plantas, é se conectar com os animais. Tem sido assim comigo. A última coisa do mundo que eu queria era virar vegano. Sempre fui o mais carnista da família, o que ficava do lado do churrasqueiro, o que comia mais pedaços no rodízio de pizza, omelete mesmo eu comia dia sim dia não…

Quando comecei a transição (ainda em curso), o que sempre me deu força foi ver os vídeos dos animais sendo torturados. Se não fossem esses vídeos, se eu ficasse só na descrição, não sei se conseguiria. Meu vício era (ainda é?) muito grande, tanto psicológico quanto cultural.

Se você me perguntar se tenho vontade de comer um churrasco, eu afirmo que sim! Muito! Todo dia! O tempo todo! Aí eu me lembro dos vídeos dos animais. Por isso, continuo bastante cético com quem se propõe a uma transição vegana por algo mais amplo como o “aquecimento global” ou “minha saúde”… Continuo pensando que, se fosse esse o motivo da minha transição, eu já teria chutado o balde e desistido. E voltado para o vício (psicológico e cultural) na picanha, no gorgonzola, no pudim de leite condensado.

Não consigo pensar que a abstinência dessas comidas tão boas (e com tanta memória afetiva) teriam me mantido firme na transição. O que me traz força é continuar vendo os vídeos nas redes sociais, continuar lembrando que 70 bilhões de animais terrestres tiveram vidas horríveis e foram brutalmente mortos só no ano passado, que outros trilhões de animais marinhos também, e que mais outros bilhões de animais continuam presos em sofrimento, crescendo com medo e desespero, só esperando serem os próximos a terem as gargantas cortadas. Eles sentem, eles sabem disso..

Talvez seja diferente para cada um, mas acho que a reconexão com os animais pode ser um grande pilar de mudança para todos. Para mim, tem sido o maior. Foi assim que comecei, vendo o vídeo de um boi sendo arrastado com a garganta cortada e ainda vivo em uma poça de sangue. 

Agora, no final de janeiro de 2022, faz 8 meses dessa tomada de decisão. Relembrando para guardar o histórico:

No dia 30/05/21, decidi que não dava mais para ignorar o sofrimento animal apenas pelo meu prazer individual de 5 minutos. Passei a semana inteira vendo documentários e vídeos sobre veganismo e os bastidores da indústria.

No dia 06/06/21, escrevi meu primeiro post do diário. A decisão estava tomada, mas ainda estava decidido a reduzir aos poucos, não imaginava que conseguiria viver sem tanta comida (comida?) gostosa tão rápido.

No dia 15/06/21, me inscrevi no Veganuary para passar 30 dias recebendo mais informações e me ajudando na transição. Ainda continuava pensando que seria lenta. Mas as visitas aos supermercados já estavam diferentes, já olhava com outros olhos a sessão de frios, comprava menos caixas de leite, comia menos ovos na semana. Até que…

No dia 10/09/21, três meses depois (e já com vários posts desse blog publicados), decidi que faria um mês 100% vegano. Se eu não olhasse para comerciais de “comida” (comida?), os produtos de origem animal já faziam menos falta. Principalmente o queijo, que eu achava que seria o mais difícil. Também fui ficando mais criativo na cozinha, buscando novas receitas, retirando a carne como a protagonista dos pratos. Ah, também fiz um exame de sangue e me consultei com uma nutricionista no dia 18/08/21, para tirar uma “foto” da minha saúde ainda carnista. Todo esse ambiente me trouxe confiança em fazer um teste definitivo, com um mês 100% vegano.

No dia 10/10/21, fechei com sucesso o primeiro mês vegano e comemorei em uma churrascaria (querida polícia vegana, foram alguns pedaços só, juro rs..). Eu estava morrendo de vontade, o vício martelava minha cabeça, eu ainda não tinha coragem de pensar que nunca mais comeria carne. Foi uma delícia, óbvio, mas já com um gosto diferente. Eu mastigava aquela carne relembrando dos gritos do boi, do sangue do matadouro, dos chutes e choques que leva, de toda tortura em vida que sofrem… Então recomecei mais um mês 100% vegano, até que…

No dia 11/11/21, comi carne de novo. E um pouco de peixe. E sobremesa com leite. Foi em um evento do trabalho, eu tinha pedido para os organizadores disponibilizarem uma opção vegana (já estava planejando ultrapassar o 1 mês vegano), eles me confirmaram que teria, mas cheguei lá e não tinha. Resisti aos deliciosos coffee breaks nos dois dias de evento (ficava só na castanha), mas nos 2 almoços foi impossível. Eu queria comer. Eu poderia sair sozinho e ir buscar no shopping ao lado alguma opção de batata recheada? Poderia. Eu seria o único a sair no meio de 60 pessoas? Seria. Teria sido um ato político legal, mas, no fundo, eu queria comer. Minha força de vontade não superou o vício ali. E tive outra recaída. Em compensação, nos dois dias, só falei de veganismo na mesa e todos tiveram que ficar me ouvindo, até os garçons. Como eu também estava comendo carne, eles até me ouviam com mais atenção, eu era um deles, eu era um carnista em sofrimento para virar vegano.

Após mais um mês 100% vegano (eu já tinha aceitado que abriria exceção uma vez por mês), no dia 11/12/21, comi carne e peixe de novo. E camarão. Foi outro evento, dessa vez de 2 dias em um hotel 4 estrelas, não resisti. Desde o início da transição, já tinha parado 100% com porco e frango (os dois animais que mais sofrem pelos vídeos que eu vi). Se só tivessem essas duas opções, eu estava decidido a passar fome. Mas, óbvio, que o hotel tinha outras opções. Nos dois cafés da manhã, daqueles gigantes, me segurei bastante e fiquei só com frutas e granola e pão francês e suco e café. Mas nos dois almoços não aguentei, peguei alguns pedaços de peixe e camarão. Eu me afundei inclusive na sobremesa, em um pudim de cappuccino delicioso. E jantei espaguete com camarão com um primo antes de pegar o voo de volta (dei a maioria pra ele, fiquei só com alguns, polícia vegana).

Após essa recaída mais forte, me prometi ficar 2 meses 100% vegano. Isso incluiu todas as férias na casa dos meus pais e ceia de natal em família (fiz nuggets de grão de bico e tender de soja) e idas à praia sem comer camarão nem nenhum fruto (fruto?) do mar.

A maior prova foi a ceia de Natal, sempre esperava o ano inteiro para comer o tender com frutas. Prato clássico e mais “afetivo” (afetivo?) da família. Mas, relembrando o sofrimento dos porcos, seus gritos, seu desespero nas celas apertadas, seus rabos e dentes arrancados sem anestesia, não tive vontade alguma. Foi a maior prova, a que eu tinha mais medo de não aguentar, mas a conexão com os animais falou mais forte que a conexão afetiva com aquela ceia anual, com aquela tradição familiar.

Agora, dia 11/02/22 se aproxima. Mentalmente, eu sei que posso me permitir uma recaída. Isso ajuda no dia a dia, pensar que não é pra sempre, o “nunca mais” é muito forte pra aceitar tão rápido, todo vício precisa de uma transição. Mas sabem que, chegando em 2 meses 100% vegano, parece que buscar um terceiro mês não vai ser tão difícil? Será que, realmente, após 8 meses da decisão, meu vício psicológico e cultural está se esfarelando?

Cada vez mais, mesmo vendo amigos comendo carne ao lado, assistindo propagandas de comidas (comidas?) deliciosas na TV, cada vez mais estou mais próximo dos animais, eles comem comigo à mesa, toda refeição sem pedaços de crueldade tem sido uma refeição mais feliz, mais leve e gostosa, uma refeição que preenche não só o estômago, mas também a consciência.

Quanto mais os animais estão comigo à mesa, ao meu lado, e não no prato, mais fácil fica resistir às recaídas. Acredito que o John Hari está corretíssimo. Pelo menos, para mim, tem sido esse o caminho. A solução para o vício não é abstinência, é conexão. A solução para o vício em carne, ovo e derivados de leite não é se forçar a comer somente plantas, é se conectar definitivamente com os animais.

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Leandro Franz é economista, escritor e wannabe vegano. É autor dos livros “A Pequena Princesa” (Ed. Letramento), “No Útero de Paulo, o Embrião não Nascerá” (Ed. Penalux) e “120 dias de Corona” (Ed. Letramento) – este último lançado agora em 2022.

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