Rousseau e a diferença entre animais humanos e animais não humanos

Semana 21

Somos todos animais. Somos do reino animal. Não somos fungos nem plantas nem pedras. Somos todos animais. Mas o que difere um animal humano de um animal não humano? Rousseau tem uma das respostas mais interessantes em seu livro de 1755, “Discurso sobre a Origem da Desigualdade entre os Homens”.

Na época em que lançou o livro, muitos (influenciados por Descartes e Aristóteles) consideravam os animais como máquinas sem sentimentos, quase “autômatos” que viviam sem pensar sem sentir totalmente à disposição do que os animais humanos quisessem fazer com eles. Quem era influenciado por Descartes e Aristóteles poderia até chutar a cabeça de um cachorro sem culpa, já que um cachorro, uma vaca, uma galinha, não deveriam receber consideração alguma.

Pois Rousseau traz uma interpretação bem menos retrógrada. O ano era 1755, mas já não fazia sentido a interpretação de que animais não sentem dor, né? Vamos a alguns trechos:

“Em cada animal não vejo senão uma máquina engenhosa, à qual a natureza ofereceu sentidos para recompor-se por si mesma, e para defender-se, até certo ponto, de tudo o que tende a destruí-la ou estragá-la. Percebo exatamente as mesmas coisas na máquina humana, com a diferença de que a natureza faz tudo nas ações do animal, enquanto o homem concorre para as suas, na qualidade de agente livre. Um escolhe ou rejeita por instinto, e o outro, por um ato de liberdade: o que faz com que o animal não se afaste da regra que lhe é prescrita, mesmo quando lhe fosse vantajoso fazê-lo, e que o homem se afaste frequentemente dela, em seu prejuízo”

Complicado, né? Mas ele traz exemplos: “Assim é que um pombo morreria de fome perto de uma vasilha repleta das melhores carnes, e um gato, diante de uma porção de frutos ou de grãos, embora tanto um quanto o outro pudesse perfeitamente se nutrir com o alimento que desdenha, se ousasse experimentá-lo”

Além de conseguir se afastar dos instintos, uma outra maneira do animal humano se diferenciar do animal não humano seria em sua capacidade de se aperfeiçoar: “enquanto um animal é, ao fim de alguns meses, o que será durante toda a sua vida, e sua espécie, ao fim de mil anos, o que era no primeiro desses mil anos”. Assim, nós, humanos, criamos sociedades e comportamentos e valores e leis. Estamos sempre evoluindo. Temos todo o poder de decisão de, por exemplo, abandonar a crueldade com animais. 

Traduzindo Rousseau: os animais não humanos possuem um software que os mantém mais constantes (em relação ao seu comportamento individual e em grupo) do que o software dos animais humanos. Nós criamos abstrações como leis, valores, histórias, códigos éticos, sociedades e isso é um poder nosso, esse caminho de aperfeiçoamento. 

Já aceitamos no passado como “normal” muitos tipos de crueldade, que eram liberadas por lei, muitas inclusive incentivadas. Pensem em todas as barbaridades que nossas sociedades já fizeram nos últimos 2 mil anos e que eram tratadas como normais.

Pois bem, rejeitar o confinamento, sequestro, tortura e assassinato de animais não humanos é só mais um passo em nosso aperfeiçoamento. Pode ser agora, pode ser daqui a 100 anos, mas, em algum momento, vamos abandonar essa violência. Somos capazes disso.

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Adendo 1: dado que somos os únicos “levemente livres” do software que trazemos em nosso DNA, que podemos criar códigos morais que nos afastem da barbárie, também somos os únicos a sermos capazes de crueldade, de atos “diabólicos”. 

O escritor Luc Ferry (em seu livro “Aprender a Viver”) traz uma explicação sobre a maldade dos animais humanos. 

Nós somos capazes de usar a maldade como um “projeto” nosso, não como ação/reação de nossos instintos de caça (como fazem os gatos ao maltratarem borboletas): “não existe nada no mundo animal que se aparente à tortura. (…) Os animais devoram, às vezes, um dos seus ainda vivo. Eles nos parecem então cruéis. Mas basta refletir para compreender que não é o mal enquanto mal que eles visam, e que a crueldade deles só se deve, é claro, à indiferença que sentem quanto ao sofrimento do outro. E no momento em que eles parecem matar ‘por prazer’, eles só estão, na verdade, exercendo do melhor modo um instinto que os guia. (…) Mas o ser humano não é indiferente. Ele faz o mal e sabe que o faz e, às vezes, ele se compraz com isso. 

(…) O homem tortura seus semelhantes sem nenhum objetivo além do da própria tortura. Por que milicianos sérvios obrigam – como se lê nos relatórios de crimes de guerra dos Balcãs – um infeliz avô croata a comer o fígado de seu neto ainda vivo? Por que os hútus cortam os membros dos recém-nascidos tútsis para se divertirem, apenas para nivelarem suas caixas de cerveja? Por que, exatamente, a maioria dos cozinheiros trincha com tanto prazer as rãs vivas, fatia uma enguia começando pela cauda, quando seria mais simples e mais lógico matá-las imediatamente? (…) É esse excesso que Rousseau chama de liberdade: é sinal de que não estamos inteiramente aprisionados em nosso programa natural de animal”.

Portanto, somos livres do “software” de nosso DNA animal tanto para o bem quanto para o mal.

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Adendo 2: Para quem quiser se estender no tema, Luc Ferry aponta duas consequências dessa nossa diferença em relação aos animais.

  • 1a Consequência: nós, animais humanos, somos dotados de Dupla Historicidade.
    • “De um lado, haverá a história do indivíduo, da pessoa, e é o que chamamos habitualmente de educação; de outro, haverá também a história da espécie humana, o que chamamos de cultura e política. Observe, ao contrário, o caso dos animais e verá que é inteiramente diferente. Desde a Antiguidade temos descrições das “sociedades animais”, por exemplo, a dos cupins, das abelhas ou das formigas. Ora, tudo leva a pensar que o comportamento desses animais é o mesmo, exatamente o mesmo, há milhares de anos: seu habitat não mudou nem uma vírgula, assim como não mudou o modo de providenciarem a alimentação, de alimentarem a rainha, de dividirem as funções etc. As sociedades humanas, ao contrário, não param de mudar: se voltássemos 10 mil anos atrás, seria impossível reconhecer Paris, Londres ou Nova Iorque. Em contrapartida, não teríamos nenhuma dificuldade em reconhecer um formigueiro e tampouco ficaríamos surpresos com o modo como os gatos caçavam os camundongos ou ronronavam no colo dos donos”.
      • O que faz com que a pequena tartaruga não possua nem história pessoal (educação) nem história política e cultural é que ela é desde o início guiada pelas regras da natureza, seu instinto, e que lhe é impossível se afastar deles. O que, ao contrário, permite ao ser humano ter essa dupla historicidade é justamente o fato de que, estando em excesso em relação aos programas da natureza, pode evoluir indefinidamente, educar-se ao longo da vida e entrar numa história da qual ninguém pode dizer hoje como e onde acabará. 
  • 2a Consequência: é porque somos livres que podemos ser morais.
    • “é porque não é prisioneiro de nenhum código natural determinante que o ser humano é um ser moral. (…) Kant disse uma vez que Rousseau era o ‘Newton do mundo moral’. Com isso ele queria dizer que, com sua ideia sobre a liberdade do homem, Rousseau foi para a ética moderna o que Newton tinha sido para a física nova: um pioneiro, um pai fundador.”

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Adendo 3: seguindo o livro de Luc Ferry, ele descreve algumas conclusões de Kant. Um pilar importante para a moral seria o “desinteresse”:

  • “A ação verdadeiramente moral será, primeiramente e antes de tudo, a ação desinteressada. (…) a capacidade de resistir às tentações às quais nosso instinto nos expõe. (…) Se eu seguisse sempre minha natureza animal, é provavel que o bem comum e o interesse geral teriam de esperar muito até que eu me dignasse a considerar sua eventual existência. Mas, se sou livre, se tenho a faculdade de me afastar das exigências de minha natureza, de lhe resistir por menos que seja, então, nesse afastamento posso me aproximar dos outros para entrar em comunhão com eles e, por que não, levar em consideração suas próprias exigências.”
    • “Liberdade, virtude da ação desinteressada, preocupação com o interesse geral: eis as três palavras-chave que definem as modernas morais do dever. (…) elas nos ordenam uma resistência, até mesmo um combate contra a naturalidade ou animalidade em nós”.

Leandro Franz é economista, escritor e wannabe vegano. Seus últimos livros são “A Pequena Princesa” (Ed. Letramento), “No Útero de Paulo, o Embrião não Nascerá” (Ed. Penalux) e “Por toda vida, Carolina” (e-book Amazon).

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