Resenha do livro “Como evitar um desastre climático”, de Bill Gates

Bill-Gates-and-Hans-Rosling

Certamente você já conhece Bill Gates, fundador da Microsoft. Possivelmente você também já conhece o Bill Gates filantropo que, ao lado de sua ex-esposa, Melinda Gates, tentam resolver alguns dos maiores problemas relacionados à extrema pobreza global. Contudo, tudo isso ainda pareceu pouco para Bill, que resolveu se aventurar em mais uma área: a das mudanças climáticas proporcionadas pelo aquecimento global.

Conhecido leitor voraz, começou a se dedicar ao entendimento do problema quase incidentalmente, ao tentar entender como este afetaria aos mais pobres do mundo – até então o foco de suas preocupações. Essa pesquisa o levou a tornar-se um dos maiores investidores em tudo quanto é tecnologia experimental na área “verde” e – simples assim – a fundar uma nova empresa dedicada a retomar a inovação em um setor que está praticamente parado desde a década de 50 – a energia nuclear, tentando assim superar os fantasmas que associamos a essa energia desde o desastre de Chernobil.

Se você assistiu o documentário disponível na Netflix “O Código Bill Gates” terá uma pincelada dos 3 Bills acima descritos – e terá certeza de que há algo de excepcional neste homem. Particularmente, gosto da visão de mundo que pessoas como ele trazem à mesa. Há miséria no mundo? Que tal tentarmos resolver isso? Estamos aquecendo o planeta? Vou tentar resolver isso também (Bill não parece saber quando seu prato está cheio).

Não faltam artigos de jornal e resenhas críticas sobre as contradições internas ao capitalismo, sua capacidade de gerar prosperidade ao mesmo tempo deixando tantos para trás – e poluindo um bocado pelo caminho. O que essa visão “crítica” falha em perceber é sua passividade, contentando-se com a denúncia contemplativa da tragédia. Consertar, por sua vez, é denunciado como mero reformismo e que não atua “nas raízes profundas” do problema (ou seja, superar o capitalismo e, bem, você sabe onde isso vai dar…).

Este livro não dá espaço para o alarmismo que nos habituamos ao lermos matérias sobre aquecimento global. Pelo contrário: é um livro extremamente prático. Sim, o problema do aquecimento é real. Sim, as consequências são graves – ainda que possam ter sido exageradas por alguns ativistas alarmistas. E sim, o desafio é complexo, dificílimo, irá requerer uma coordenação global sem precedentes na história humana. Mas aqui há um esboço de um plano para resolvermos isso até o ano de 2050. Há um problema? Vamos resolver. Simples assim.

Veja, não se trata aqui apenas de elogiar Bill Gates e demais bilionários com bala na agulha para ajudar a salvar o planeta. As contribuições dos “problem solvers” é uma das histórias mais negligenciadas da “História”. Como nos lembra Steven Pinker, há uma multitude de “unsung heroes” que contribuem não apenas com as grandes inovações, mas também com os pequenos incrementos nestas tecnologias. Para além dos grandes nomes da política há uma miríade de ativistas contribuindo para as pequenas mudanças legislativas, e assim por diante.

“A ascensão da segurança, como outras formas de progresso, foi encabeçada por alguns heróis, mas também impelida por uma miscelânea de agentes que remaram na mesma direção, palmo a palmo: ativistas de base, legisladores paternalistas e um conjunto de inventores, engenheiros, planejadores e matemáticos muito pouco incensados”.Steven Pinker, o Novo Iluminismo.

Bill sabe disso. E é por isso que dedicou seu livro “Como evitar um desastre climático. As soluções que temos e as inovações necessárias” aos “cientistas, os inovadores e os ativistas que indicam o caminho”. Durante todo o livro ele irá nos contar as histórias de alguns destes heróis pouco conhecidos e algumas das organizações mais importantes de que quase ninguém ouviu falar, geralmente acompanhados de piadas autodepreciativas sobre o quão nerd ele próprio é em seu fascínio pela fabricação de cimento entre tantos outros temas poucos usuais nas rodas de conversa.

Mas não se preocupe. O livro tem pouca linguagem técnica. Raras vezes ele perderá de vista o que almeja: engajar as pessoas no problema do aquecimento global. O livre permite a qualquer um entender quais são os desafios tecnológicos que temos diante de nós para superarmos o aquecimento global, quais as políticas públicas que poderão fornecer os estímulos econômicos para permitir “fechar essa conta”, e mesmo o que cidadãos como eu ou você poderemos fazer para ajudar neste que será um dos maiores desafios que a humanidade já enfrentou.

O tamanho do problema

Bill quer que tenhamos apenas dois números em mente ao lermos o livro: 0 e… 51 bilhões.

51 bilhões de toneladas é mais ou menos o que produzimos de gases de efeito estufa todos os anos, numa métrica chamada dióxido de carbono equivalente (notação: Co2eq). Essa medida nos permite comparar abacaxis com peras, ou seja, como se convertêssemos todos os gases que causam o efeito estufa em apenas dióxido de carbono, conforme seu impacto para o aquecimento global.

Em outros locais você encontrará o número de 37 bilhões, que é apenas o dióxido de carbono, sem os demais gases. Em outros, 10 bilhões, que é apenas o carbono propriamente. Mas não precisa se preocupar muito com essa tecnicidade – vamos ficar aqui com o 51 bilhões, que computa todo o tamanho do problema.

0, por sua vez, é onde devemos chegar. Não bastará reduzir em 1/3 ou pela metade ou mesmo em 3/4 disso. A meta precisará ser zero (ou muito, muito próximo a isso – digamos, 99% de redução). O motivo é simples: os gases de efeito estufa acumulam na atmosfera, alguns por mais tempo, outros menos, porém o bastante para representar um enorme problema para esse século. Aqui, Bill recorre a uma analogia bastante útil: “o clima é como uma banheira sendo enchida lentamente. Mesmo se fecharmos um pouco a torneira e deixarmos apenas um fio de água escorrendo, em algum momento a banheira acabará transbordando”.

Outra parte do desafio é lembrar que a humanidade não irá parar, regredir. Ela irá – felizmente – continuar sua tendência geral de progresso, gerando mais prosperidade, o que representa mais e mais pessoas saindo da pobreza e integrando a classe média global – e demandando mais produtos, eletricidade e emitindo mais Co2 no processo. Ocorre que, hoje, quase 40% das emissões mundiais são produzidos pelos 16% mais ricos da população. O que acontecerá à medida que mais pessoas viverem como os 16% mais ricos?

“Seria imoral e inviável tentar impedir os que estão mais abaixo na pirâmide econômica de subir. Não podemos defender que os pobres continuem pobres porque os países ricos emitiram gases de efeito estufa demais, e mesmo que quiséssemos não haveria como fazê-lo. Em vez disso, precisamos possibilitar que as pessoas de baixa renda elevem seu padrão de vida sem agravar as mudanças climáticas”.

Como os gases de efeito estufa causam o aquecimento?

Essa é uma parte que quase sempre vejo abordada de modo superficial nas mais diversas reportagens que já li a respeito do problema. Bill explica o fenômeno de modo incomumente didático, o que me fez optar por citá-lo de modo integral nas próximas linhas:

“Como os gases de efeito estufa causam aquecimento? A resposta sucinta: eles absorvem calor e o retêm na atmosfera. Funcionam como uma estufa — daí o nome.

Nós podemos inclusive ver o efeito estufa em ação numa escala muito diferente sempre que paramos o carro sob o sol: o para-brisa permite a entrada da luz solar, depois retém parte dessa energia. Por isso, o interior do veículo fica muito mais quente do que a temperatura externa.

Mas essa explicação apenas levanta mais questionamentos. Como o calor do Sol consegue atravessar os gases de efeito estufa e chegar à Terra, mas depois fica retido por esses mesmos gases em nossa atmosfera? O dióxido de carbono funciona como um espelho gigante de uma só face? E se o dióxido de carbono e o metano aprisionam calor, por que não o oxigênio?

As respostas exigem alguns conhecimentos de química e física. Como você deve se lembrar de seus tempos de escola, todas as moléculas vibram; quanto mais rápido vibram, mais quente ficam. Quando certos tipos de moléculas são atingidos pela radiação em determinados comprimentos de onda, bloqueiam a radiação, absorvem sua energia e vibram mais rápido.

Mas nem toda radiação está no comprimento de onda correto para causar esse efeito. A luz do Sol, por exemplo, passa diretamente pela maioria dos gases de efeito estufa sem ser absorvida. A maior parte chega à Terra e aquece o planeta, como tem sido há eras.

A questão é a seguinte: a Terra não segura toda essa energia para sempre; se fizesse isso, o planeta já teria uma temperatura insuportável. Portanto, parte da energia é irradiada de volta para o espaço — e parte dessa energia é emitida justo na faixa de comprimentos de onda absorvida pelos gases de efeito estufa. Em vez de seguir inócua para o vácuo, ela atinge as moléculas da estufa e as faz vibrar mais rápido, aquecendo a atmosfera. (A propósito, devemos ser gratos pelo efeito estufa; sem ele, o planeta seria frio demais para nós. O problema é que todo esse volume extra de emissões está potencializando esse fenômeno em um nível excessivo).

E por que nem todo gás age dessa maneira? Porque moléculas com duas cópias do mesmo átomo — por exemplo, moléculas de nitrogênio ou oxigênio — deixam a radiação passar direto por elas. Apenas moléculas compostas por diferentes átomos, como as de dióxido de carbono e metano, têm a estrutura certa para absorver radiação e começar a aquecer”.

As consequências do aquecimento global – o que sabemos e o que não sabemos

Os cientistas ainda têm muito a aprender sobre como e por que o clima está mudando. Não temos certeza de quanto a temperatura irá subir, nem em que velocidade nem todas suas consequências. Ainda que saibamos que sim, é um efeito causado pelo homem (e não natural, como ainda insistem alguns negacionistas, polêmica da qual Bill sabiamente se esquiva), e sabemos também que “haverá mais dias quentes” e “o nível do mar vai subir”, não podemos, contudo, atribuir às mudanças climáticas a culpa por essa ou aquela tempestade ou furacão em particular.

Haverá, sim, tempestades mais fortes, o que significa mais furacões, inundações, perda de vidas e destruição de prédios, estradas e linhas de transmissão de energia, que levaram anos para serem construídas e poderão levar anos para serem reerguidas.

Em outras regiões, haverá secas mais frequentes e severas. Isso porque o ar mais quente pode reter mais umidade, e à medida que se aquece torna-se mais seco, sugando mais água do solo. Um clima mais quente significa incêndios florestais mais frequentes e destrutivos.

Outro efeito do aumento do calor é que o nível do mar vai subir. Isso ocorre em parte por causa do derretimento do gelo polar e porque a água se expande conforme esquenta. Isso representará um problema para regiões costeiras em geral. Bangladesh será particularmente afetado, dado que a maior parte do território do país fica em deltas de rio baixos e propensos a enchentes.

Quanto a nossos alimentos, até há um lado positivo: trigo e muitas outras plantas crescem mais rápido e necessitam de menos água quando há grande quantidade de carbono no ar e, em algumas regiões mais setentrionais, a produção poderia crescer. Porém, na maioria dos lugares vai diminuir, e em alguns pontos percentuais até 50%. Em comunidades pobres os preços dos alimentos podem subir 20% ou mais.

O calor mais forte não será bom para os animais que nos alimentam: eles se tornarão menos produtivos e mais propensos a morrer cedo, o que por sua vez encarecerá a carne, os ovos e os laticínios. Teremos também menos frutos do mar, pois os oceanos estão ficando mais quentes. Peixes estão se deslocando para águas diferentes, ou simplesmente morrendo. Se a temperatura subir 2ºC, os recifes de coral podem desaparecer por completo, destruindo a principal fonte de alimento de mais de 1 bilhão de pessoas.

Outros animais também serão afetados. Segundo pesquisa do IPCC, um aumento de 2ºC diminuiria o território geográfico de vertebrados em 8%, de plantas em 16% e de insetos em 18%. À medida que o clima se tornar mais quente, os mosquitos começarão a viver em novos lugares e teremos casos de malária e outras doenças transmitidas por insetos em lugares onde nunca apareceram antes.

A insolação será outro grande problema. Nas regiões sob maior perigo — golfo Pérsico, Ásia Meridional e partes da China —, haverá épocas do ano em que centenas de milhões de vidas estarão em risco.

Por fim, essas coisas têm efeitos sociais em cadeia: imigração por falta de comida, guerras civis e refugiados. Na pior seca já registrada na Síria — que durou de 2007 a 2010 — cerca de 1,5 milhão de pessoas trocou a zona rural pelas cidades, ajudando a preparar o palco para o conflito armado que começou em 2011. O resultado é que em 2018, cerca de 13 milhões de sírios tinham se tornado refugiados.

Bill então traça um paralelo com a atual pandemia – lembremos que ela tinha apenas começado quando da publicação do livro. Bill estima que, até meados do século, as mudanças climáticas podem ser tão mortais quanto a covid-19 e, em 2100, cinco vezes mais letais. Já os prejuízos econômicos provocados pela mudança climática provavelmente serão tão sérios quanto a ocorrência de uma pandemia como essa a cada dez anos. E, no fim do século XXI, será muito pior caso o mundo não mude seu curso.

Não será fácil

Há três metas aqui:

“Todos os países precisam consolidar a meta de chegarem a zero – até 2050 para os países ricos e, após essa data, quanto antes possível para os países de renda média. Segundo, os governos deverão desenvolver planos específicos para atender a tais metas. Para chegar a zero até 2050, precisaremos de políticas públicas e estruturas de mercado funcionando até 2030. E, terceiro, qualquer país em condições de financiar pesquisa precisa se certificar de estar no caminho certo para produzir uma energia limpa barata — reduzindo os Prêmios Verdes — a ponto de permitir aos países de renda média zerar suas emissões”.

Nada disso será fácil. Combustíveis fosseis são tão onipresentes que talvez seja difícil captar todos os modos como eles afetam nossa vida. Esse trecho também merece ser transcrito:

“Você escovou os dentes hoje de manhã? A escova de dentes provavelmente contém plástico, que é feito de petróleo, um combustível fóssil.

Se tomou café da manhã, os grãos em sua torrada e seu cereal foram cultivados com fertilizantes, cuja fabricação libera gases de efeito estufa. A colheita foi realizada com um trator de aço — que é feito de combustíveis fósseis em um processo que libera carbono e funciona à base de um derivado de petróleo. Se comeu um hambúrguer no almoço, como faço de vez em quando, a criação do gado que forneceu a carne gerou gases de efeito estufa — as vacas emitem metano por meio de arrotos e flatulência —, assim como o cultivo e a colheita do trigo utilizado no pão.

As roupas que vestiu talvez contenham algodão — que também leva fertilizante e precisa ser cultivado — ou poliéster, feito de etileno, um derivado do petróleo. Se usou papel higiênico, lá se vão mais algumas árvores cortadas e mais carbono na atmosfera.

Se o veículo que usou para ir ao trabalho ou à faculdade hoje era movido a eletricidade, ponto para você — embora essa eletricidade provavelmente tenha sido gerada com uso de combustível fóssil. Se andou de trem, ele percorreu trilhos feitos de aço e passou por túneis feitos de cimento, que é fabricado com combustíveis fósseis em um processo que libera carbono como subproduto. O carro ou ônibus em que andou é feito de aço e plástico. O mesmo vale para a bicicleta que usou no último fim de semana. As ruas por onde você passou contêm cimento, além de asfalto, que é um derivado do petróleo.

Se você mora em um apartamento, provavelmente vive cercado por cimento. Caso viva numa casa de madeira, as vigas e os caibros foram cortados e moldados por máquinas movidas a gasolina e feitas de aço e plástico. Se sua casa ou escritório possui sistema de aquecimento ou ar-condicionado, não só usa uma quantidade razoável de energia como também o fluido refrigerante do aparelho pode ser um potente gás de efeito estufa. Se você está sentado em uma cadeira feita de metal ou plástico, isso corresponde a mais emissões.

Além disso, praticamente todos esses itens, da escova de dentes aos materiais de construção, foram transportados de um lugar para outro em caminhões, aviões, trens e navios, todos movidos a combustíveis fósseis e fabricados com o uso de combustíveis fósseis”.

Os combustíveis fósseis (assim como outros produtos geradores de gases do efeito estufa) são onipresentes. Precisaremos fazer uma enorme transição para outras fontes energéticas e, pior, em curto espaço de tempo. Contudo, uma transição rápida é quase sem precedentes na história humana.

Aqui Bill Gates recorre às obras de Vaclav Smil, especialista em história da energia (e autor de livros bem volumosos sobre o assunto), reconstruindo rapidamente a história das fontes de energia empregadas pela humanidade ao longo do tempo, partindo da queima de plantas, de seus próprios músculos e dos músculos de animais empregados na agricultura (sendo inclusive ainda hoje as principais fontes de energia nas partes mais pobres do mundo) até nossa atual dependência de combustíveis fosseis.

Vejamos o que ocorreu com as principais fontes de energia atual. Entre 1840 e 1900, o carvão passou de 5% do suprimento mundial de energia a 50%. Já o petróleo passou a ser consumido comercialmente em 1860 e, meio século mais tarde, ainda representava apenas 10% da energia mundial. Mais 30 anos depois e ele passou a representar 25%. A fissão nuclear já conseguiu ser mais rápida, indo de zero a 10% em 27 anos, porém empacando pelos motivos conhecidos. Em resumo, o problema aqui é o seguinte: transições de energia costumam levar tempo. Não temos esse tempo.

A isso devemos somar que todas as transições energéticas foram feitas pois faziam sentido econômico: a nova fonte era mais barata e potente que a anterior. Aqui já se desenha o problema a ser abordado nos próximos capítulos. A não ser que sejamos capazes de criar fontes energéticas economicamente competitivas com os atuais combustíveis fósseis, dificilmente alcançaremos o 0. Para isso, muitas inovações deverão ser alcançadas. Porém temos aqui um grande problema: usinas a carvão não são como chips de computador. Cito:

“Você provavelmente já ouviu falar na Lei de Moore, a previsão feita por Gordon Moore em 1965 de que os microprocessadores dobrariam de capacidade a cada dois anos. Gordon estava certo, claro, e a Lei de Moore é uma das principais razões para as indústrias da computação e do software terem decolado da maneira como fizeram. À medida que os processadores ficavam mais poderosos, pudemos desenvolver softwares melhores, o que aumentou a procura por computadores, o que proporcionou aos fabricantes de hardware o incentivo para continuar aperfeiçoando suas máquinas, que contaram com softwares cada vez melhores e assim por diante, em um círculo virtuoso.

A Lei de Moore funciona porque as empresas continuam a encontrar novas maneiras de fazer transistores — os minúsculos interruptores que alimentam um computador — cada vez menores. Isso permite compactar mais transistores no chip. Um chip de computador fabricado hoje possui aproximadamente 1 milhão de transistores a mais do que os feitos em 1970, o que o torna 1 milhão de vezes mais potente.

Às vezes vemos a Lei de Moore sendo invocada como um motivo para pensar que podemos fazer o mesmo tipo de progresso exponencial em energia. Se os chips de computador conseguem melhorar tanto tão depressa, por que carros e painéis solares não conseguem?

Infelizmente, não é o caso. Os chips de computador são um ponto fora da curva. Eles são aprimorados porque descobrimos um jeito de enfiar mais transistores em cada um, mas não houve avanço equivalente que fizesse os carros usarem 1 milhão de vezes menos gasolina. O primeiro Modelo T a deixar as linhas de produção de Henry Ford em 1908 não fazia mais que nove quilômetros por litro. No momento em que escrevo, o melhor híbrido no mercado faz 25 quilômetros por litro. Em mais de um século, a economia de combustível não chegou sequer a triplicar.

Os painéis solares tampouco se tornaram 1 milhão de vezes menores. Quando as células solares de silício cristalino foram introduzidas, na década de 1970, cerca de 15% da luz do sol que incidia sobre elas era convertida em eletricidade. Hoje, a conversão gira em torno de 25%. É um bom progresso, mas está longe de obedecer à Lei de Moore.”

Cinco perguntas a fazer em qualquer conversa sobre o clima

Bill também parece incomodado com a exibição de grandes números sem contexto, que parecem estar presentes mais para impressionar do que informar.

Quando comecei a estudar as mudanças climáticas, sempre me deparava com fatos difíceis de entender. Para começar, os números eram tão grandes que mal conseguia imaginá-los. Quem consegue imaginar 51 bilhões de toneladas de gás? Outro problema era que os dados muitas vezes eram citados sem contexto. Um artigo afirmava que um programa europeu de comércio de emissões reduzira a pegada de carbono do setor da aviação no continente em 17 milhões de toneladas por ano. Parece uma quantidade relevante, mas será mesmo? Que porcentagem do total isso representa? O artigo não dizia, e esse tipo de omissão era surpreendentemente comum.

Diante disso, Bill criou o que chamou de “estrutura de raciocínio” para ajudar a pensar tais questões. Trata-se de 5 perguntas:

1. De quanto dos 51 bilhões de toneladas estamos falando? Faz mais sentido do que as outras comparações que vemos com frequência por aí, como “essa quantidade de toneladas equivale a tirar um carro das ruas”. Quem sabe quantos carros há nas ruas, para começo de conversa? Ou quantos carros teríamos de tirar das ruas para deter as mudanças climáticas? Prefiro relacionar tudo à meta principal de eliminar 51 bilhões de toneladas por ano.

2. O que fazer com o cimento? Coisas como eletricidade e carros recebem muita atenção, mas são apenas o começo. As indústrias de aço e cimento juntas correspondem a cerca de 10% das emissões totais. Portanto, a questão “o que fazer com o cimento?” é apenas um lembrete de que temos de levar em consideração muito mais do que a eletricidade e os carros se pretendemos elaborar um plano abrangente para deter as mudanças climáticas.

3. De quanta potência estamos falando? Essa questão surge sobretudo em artigos sobre eletricidade. Talvez você tenha lido que uma nova usina de energia vai gerar quinhentos megawatts. Isso é muito? E o que é um megawatt, afinal de contas? A tabela a seguir mostra algumas comparações aproximadas que ajudam a colocar tudo isso em perspectiva.

4. De quanto espaço precisamos? Algumas fontes de energia ocupam mais espaço que outras e isso pode ser um problema em alguns casos. A densidade de potência da energia solar é consideravelmente maior que a da eólica, por exemplo. Se você quiser usar vento em vez de luz do sol, precisará de muito mais espaço, embora o restante dos requisitos continue o mesmo. Isso não significa que a energia eólica seja ruim e a solar, boa. Significa apenas que há condições diferentes que devem ser levadas em consideração.

5. Quanto vai custar? Nossas tecnologias energéticas atuais são de longe a solução mais barata de que dispomos. A maioria dessas soluções de carbono zero é mais cara do que suas alternativas de combustível fóssil. Deste modo, a troca de uma por outra implica em um Prêmio Verde, conceito central em todo o livro.

Prêmio Verde

Trata-se de um conceito simples. Tomemos por exemplo o combustível de aviação. Nos Estados Unidos o custo deste é 2,22 dólares. Os atuais biocombustíveis avançados para aviões a jato, alternativa verde àqueles, custam em média 5,35 dólares o galão. O Prêmio Verde para combustível de carbono zero, portanto, é a diferença entre esses dois valores, que dá 3,13 dólares. Trata-se de um custo extra de mais de 140%. Em raros casos, um Prêmio Verde pode ser negativo — ou seja, a solução verde pode ser mais barata do que continuar com os combustíveis fósseis. Por conta disso, deveriam ser as primeiras a serem empregadas no momento. O fato de não a estarmos ainda empregando significa que o preço não é o impeditivo da transição. Alguma outra coisa — como políticas públicas ultrapassadas ou falta de conscientização — nos impede de adotá-las em larga escala. No outro extremo, são nos itens com maiores prêmios verdes que deveríamos direcionar mais gastos com pesquisa, de modo a tentar derrubar os valores destes prêmios – caso contrário, nunca será economicamente viável a transição destes itens (e nunca alcançaremos o almejado 0).

Precisaremos com urgência baixar os Prêmios Verdes de vários materiais. Veremos a frente como. Mas Bill deixa claro que baixar os Prêmios Verdes pagos pelo mundo não é caridade.

“Países como os Estados Unidos não deveriam encarar o investimento em pesquisa e desenvolvimento em energia limpa como um favor aos demais, mas sim como uma oportunidade para obter avanços científicos que darão origem a novos setores econômicos formados por novas empresas essenciais, gerando emprego e reduzindo as emissões ao mesmo tempo. Pense em todos os benefícios advindos da pesquisa médica financiada pelos Institutos Nacionais de Saúde. Estes publicam seus resultados para que cientistas de todo o mundo possam se beneficiar de seu trabalho, mas o financiamento também aumenta a capacidade das universidades americanas, que por sua vez se associam em projetos tanto com startups quanto com grandes empresas. Resultado: um produto de exportação americano — especialidade médica avançada — que cria vários empregos bem remunerados no país de origem e salva vidas no resto do mundo”.

Como classificar as coisas que emitem carbono?

Saber como categorizar as atividades que emitem carbono pode ser um tema surpreendentemente importante e complexo. Importante, pois é a partir dessas categorias que saberemos melhor a dimensão de cada um dos problemas e assim saberemos o que devemos priorizar. Complexo, pois tudo depende do que optamos por agregar ou separar. Se eu colocar todo o setor de transporte numa categoria ela será uma das maiores. Se eu desagregar entre navios, aviões e transportes terrestres, sem dúvida cairá num eventual ranking. Se eu separar os automóveis de passeio das motos e caminhões, mais ainda.

Isso era um ponto que particularmente me incomodou no livro de folego “Drawdown“, de Paul Hawken. Mesmo reportagens feitas no lançamento do livro tinham que lidar com ambiguidade das categorias. De acordo com o ranking do livro, o problema número 1 seria o problema bastante técnico do “Gerenciamento de Refrigeradores”. Contudo, vendo o pouco apelo jornalístico deste tema, a entrevista da Vox preferiu destacar outra como sendo a “solução número 1”: o empoderamento feminino. Para isso precisou somar duas soluções analisadas no livro: a educação das meninas e a promoção do planejamento familiar.

Não me entenda errado. Acho ótimo investirmos em empoderamento feminino, educação de meninas e planejamento familiar. E também no gerenciamento de refrigeradores. Mas isso parece tornar claro que o modo como classificamos as coisas podem acabar contando histórias muito diferentes a respeito do mesmo problema. E é por isso que gostei tanto da categorização didática empregada por Bill. Ele propõe apenas 5 categorias:

  1. Como ligamos as coisas na tomada, responsável por 27% dos 51 bilhões de toneladas.
  2. Como fabricamos as coisas, responsável por 31%.
  3. Como cultivamos as coisas, responsável por 19%.
  4. Como transportamos as coisas, responsável por 16%.
  5. Como esfriamos e aquecemos as coisas, responsável por 7%.

Nestes capítulos, há toda uma explicação pormenorizada de todos os poréns com cada tipo de transição que não há como resumir adequadamente aqui. Contudo, Bill sempre tenta sumarizar o prêmio verde das diversas intervenções ao longo destes capítulos. Tentei então sintetizar todas essas informações em uma única tabela. Onde as tabelas não foram fornecidas pelo próprio autor, mas a informação estava espalhada pelo texto, tentei compô-las. Com isto, acredito ter suprido o que considerei como sendo a principal lacuna do livro, uma tabela que tentasse – apesar das dificuldades – comparar todos os prêmios verdes. Disponibilizei a tabela aqui.

A tabela não resume todos os pontos debatidos naqueles capítulos. Apresenta apenas os pontos em que há algum cálculo sobre prêmios verdes. O desmatamento, por exemplo, é debatido, mas é complicado falar em prêmio verde aqui.

Acima mencionamos que quanto maior o prêmio verde mais deveríamos investir em P&D visando diminuí-lo. Disto segue uma lista de tecnologias que precisaremos desenvolver/baratear nos próximos anos. Por baratear entenda-se “barato o bastante para países de renda média comprarem”:

  • Hidrogênio produzido sem emissão de carbono
  • Armazenamento de eletricidade em escala de rede capaz de durar uma estação do ano inteira
  • Eletrocombustíveis
  • Biocombustíveis avançados
  • Cimento de carbono zero
  • Aço de carbono zero
  • Plásticos de carbono zero
  • Carne e laticínios derivados de vegetais e células-tronco
  • Fertilizantes de carbono zero
  • Fissão nuclear de última geração
  • Fusão nuclear
  • Captura de carbono (tanto direto do ar como no local de emissão)
  • Transmissão de eletricidade subterrânea
  • Energia geotérmica
  • Hidrelétrica reversível
  • Armazenamento termal
  • Cultivos tolerantes a secas e inundações
  • Alternativas de carbono zero para o óleo de palma
  • Fluidos refrigerantes sem gases fluorados

Captura de carbono

Mesmo obtendo sucesso em desenvolver todas as inovações acima e derrubar os prêmios verdes alguma emissão de carbono será mantida, provavelmente acima do 1% de margem de erro que podemos tolerar em nosso objetivo de zero emissões. Por conta disso, será necessário complementar a chamada captura de carbono. Essa pode ser obtida de dois modos: com a instalação de sistemas de captura direto das usinas (captura pontual) ou com a simples remoção do Co2 que já está em circulação no ar que respiramos (captura direta do ar ou DAC).

Trata-se de uma ferramenta importante: “um estudo feito pela Academia Nacional de Ciências revelou que precisaremos remover cerca de 10 bilhões de toneladas de dióxido de carbono por ano até meados do século e cerca de 20 bilhões até o início do próximo”.

“Os aparelhos de “captura pontual” existem há décadas, mas têm um preço alto de aquisição e operação. Em geral capturam apenas 90% dos gases de efeito estufa envolvidos, e as companhias energéticas não ganham em nada com sua instalação. Já a captura direta do ar é um desafio técnico muito maior do que a captura pontual, em razão da baixa concentração de dióxido de carbono no ar. Quando as emissões vêm diretamente de uma termelétrica a carvão, a concentração é muito elevada, na faixa de 10% de dióxido de carbono, mas, uma vez na atmosfera, onde a dac opera, eles se dispersam bastante. Pegando uma molécula da atmosfera ao acaso, a probabilidade de conter dióxido de carbono é de apenas 1 em 2500”.

Por qual motivo simplesmente não tentamos remover toda poluição – os 51 bilhões – apenas com a captura, não tendo que se preocupar com mais nada? Isso seria inviável. Vamos aos cálculos:

“O custo de remover uma tonelada de carbono do ar, ainda não foi determinado com precisão, mas é no mínimo de duzentos dólares por tonelada. Com alguma inovação, acho que podemos alimentar esperanças realistas de baixar para cem dólares a tonelada, então usarei esse número. Assim, chegamos à seguinte equação: 51 bilhões de toneladas por ano × us$ 100 por tonelada = us$ 5,1 trilhões por ano Em outras palavras, a abordagem da dac para resolver o problema climático custaria no mínimo 5,1 trilhões de dólares anuais enquanto produzíssemos emissões. Isso representa cerca de 6% da economia mundial.”

“Na prática, a tecnologia por trás dela não está pronta para ser empregada em grande escala, e, mesmo que estivesse, seria um método extremamente ineficaz de resolver o problema do carbono no mundo. Não existe a certeza de que poderíamos armazenar centenas de bilhões de toneladas de carbono em segurança. Não existe modo prático de coletar 5,1 trilhões de dólares por ano ou assegurar que todos paguem a parte que lhes cabe (e mesmo definir a parte de cada um seria uma enorme briga política). Precisaríamos construir mais de 50 mil usinas de dac pelo mundo só para controlar as emissões que produzimos no momento atual. Além do mais, a dac não funciona com metano ou outros gases de efeito estufa — só com dióxido de carbono. E é provavelmente a solução mais cara — em muitos casos, sai mais barato apenas não emitir gases de efeito estufa”.

Geoengenharia

Outro conjunto de ideias possíveis para lidar com o aquecimento é conhecida pela expressão geoengenharia. Faríamos alterações temporárias nos oceanos ou na atmosfera para baixar a temperatura do planeta. A geoengenharia envolve assim mexer em algumas “variáveis planetárias” e por isso gera grande controvérsias quanto aos seus riscos, principalmente aqueles que desconhecemos.

Por conta disso, parece existir algum consenso de que ela deve ser vista apenas como um Plano B: ela não deve de modo algum nos isentar da responsabilidade de buscarmos atingir zero emissões, mas devemos conduzir estudos em pequena escala desde já, caso não tenhamos sucesso em reduzir as emissões em ritmo rápido o suficiente.

“A geoengenharia baseia-se na ideia de que, para compensar o aquecimento causado por gases de efeito estufa lançados à atmosfera, precisamos reduzir a quantidade de luz do sol que chega ao planeta em cerca de 1%.

Existem várias maneiras de fazer isso. Uma envolve espalhar partículas extremamente finas — com milionésimos de centímetro de diâmetro — nas camadas mais altas da atmosfera. Os cientistas sabem que essas partículas dispersariam a luz solar e causariam algum resfriamento, porque já viram isso acontecer: quando vulcões muito poderosos entram em erupção, expelem partículas similares e diminuem perceptivelmente a temperatura mundial.

Outra iniciativa de geoengenharia é tornar as nuvens mais brilhantes. Como a luz do sol se esparrama pelo topo delas, poderíamos tornar a luz ainda mais difusa e resfriar o planeta borrifando sal nas nuvens, para dispersarem mais a luz. E não seria preciso uma mudança dramática; para chegar a uma redução de 1%, precisaríamos apenas aumentar em 10% o brilho das nuvens que cobrem 10% da área terrestre”.

A adaptação a um mundo mais quente

O Bill filantropo está presente ao longo de todo o livro, mas é no capítulo 9, a adaptação a um mundo mais quente, que ele é mais vocal. Há uma migração de recursos que de ajuda humanitária de causas sociais para ambientais, movimento este que é denunciado por pessoas como Bjørn Lomborg e que também muito desagrada a Gates:

Passo boa parte do meu tempo entre pessoas que administram verbas de auxílio internacional nos países do mundo rico. Mesmo algumas muito bem-intencionadas me disseram: “Costumávamos financiar vacinas. Agora precisamos direcionar nossas verbas para as questões climáticas” — ou seja, ajudar a África a diminuir suas emissões de gases de efeito estufa. Eu digo: “Por favor, não tirem dinheiro das vacinas para gastar em carros elétricos. A África é responsável por apenas 2% das emissões globais. Vocês deveriam na verdade financiar a adaptação. A melhor maneira de ajudar os pobres a se adaptarem às mudanças climáticas é garantir que tenham saúde suficiente para sobreviver. E para prosperar apesar delas”.

Uma agricultura mais resiliente, seja a seca, seja a inundações, será fundamental para que os mais pobres não passem fome por conta do aquecimento global. Em mais um momento nerd do livro ficamos conhecendo aquela que talvez seja a organização mais importante e pouco conhecida do mundo, a CGIAR:

“nenhuma outra organização fez mais do que o CGIAR para assegurar que as famílias — especialmente as mais pobres — tenham alimento nutritivo na mesa. E nenhuma outra organização está em melhor posição para criar as inovações que ajudarão os produtores rurais pobres a se adaptar às mudanças climáticas nos próximos anos(…) cada dólar investido na pesquisa do CGIAR gera cerca de seis dólares em benefícios”.

Além de recomendar o aumento do investimento em pesquisas como as realizadas pela CGIAR, Bill recomenda uma série de outras medidas visando ajudar os mais pobres na adaptação ao clima:

Ajudar os produtores a gerir os riscos em um clima mais caótico. Por exemplo, os governos podem ajudá-los a diversificar seus cultivos e criações para não se arruinarem caso percam uma safra. Fornecer seguridade social e seguros agrícolas, em geral ausentes nos países mais pobres mas comuns para os trabalhadores rurais do primeiro mundo.

Concentrar-se nos mais vulneráveis. As mulheres não são o único grupo vulnerável, porém são o mais numeroso. Por toda uma variedade de motivos — culturais, políticos, econômicos —, elas enfrentam dificuldades ainda maiores do que os homens. Elas podem não obter direito à terra, por exemplo, ou igual acesso à água, ou financiamento para a compra de fertilizantes, ou mesmo um boletim meteorológico. Portanto, precisamos de ações como a promoção dos direitos à propriedade das mulheres e o aconselhamento técnico específico para elas. Caso deseje saber mais sobre essa realidade recomendo este outro excerto de um livro de Melinda Gates.

Levar em conta as mudanças climáticas na elaboração de políticas públicas. Pouquíssimo dinheiro é direcionado para a adaptação dos agricultores; uma minúscula fatia dos 500 bilhões de dólares que os governos gastaram em agricultura entre 2014 e 2016 se destinava a atividades que amenizassem o impacto das mudanças climáticas para os pobres. Os governos deveriam elaborar políticas e incentivos para ajudar os agricultores a reduzir suas emissões ao mesmo tempo que cultivam mais produtos.

Os desafios não estão apenas no setor rural. As cidades precisam mudar a maneira como crescem: “Cidades não podem continuar sendo erguidas sobre várzeas, florestas e áreas alagáveis que poderiam absorver transbordamentos durante uma tempestade ou servir como reservatórios de água durante uma seca. (…) as cidades costeiras sofrerão as piores consequências. Centenas de milhões de pessoas poderão ser expulsas de suas casas quando o nível do mar subir e as ressacas se agravarem. Em meados do século, o custo das mudanças climáticas para as cidades litorâneas pode chegar a mais de 1 trilhão de dólares… anuais (…) os planejadores urbanos precisam dos dados mais atualizados sobre os riscos e acesso às projeções de modelos computacionais. Em termos mais específicos: uma nova ponte construída sobre um rio local deverá ter 3,5 metros ou 5,5 metros de altura? A mais alta é mais cara no curto prazo, mas, se soubermos que existe a enorme possibilidade de uma grande inundação na próxima década, seria a escolha mais sensata”.

Devemos reforçar nossas defesas naturais: “As florestas armazenam e regulam a água. Áreas alagáveis impedem transbordamentos e fornecem água para fazendas e cidades. Os recifes de coral abrigam peixes dos quais as comunidades costeiras dependem para se alimentar(…) restaurar ecossistemas traz vantagens substanciais. Os serviços públicos de água nas maiores cidades do mundo poderiam economizar 890 milhões de dólares por ano com a restauração de florestas e bacias hidrográficas(…) A preservação de áreas de mangue é outra medida óbvia. Esse ecossistema é composto de árvores baixas, adaptadas à vida em águas salobras, que crescem ao longo do litoral; eles reduzem a subida das águas causada pelas tempestades, evitam a inundação costeira e protegem os habitats dos peixes. No total, os manguezais ajudam o mundo a evitar 80 bilhões de dólares por ano em prejuízos causados por enchentes e economizam mais outros bilhões de diferentes maneiras. Plantar manguezais é bem mais barato do que construir quebra-mares, e as árvores também melhoram a qualidade da água.”

Precisaremos de mais água potável do que podemos obter: “Já sabemos como extrair o sal da água do mar e torná-la potável, mas o processo requer muita energia, assim como mover a água do oceano para as instalações de dessalinização e para o consumidor final. Isso significa que, como tantas coisas, o problema hídrico é em última instância um problema de energia: com energia barata e limpa, podemos produzir toda água potável de que precisamos(…)Uma boa ideia que tenho estudado com atenção envolve extrair água do ar. É basicamente um desumidificador à base de energia solar com um avançado sistema de filtragem para despoluir a água”.

Por fim, para financiar projetos de adaptação, precisamos encontrar novas fontes de dinheiro. “O problema que precisamos superar é o seguinte: as pessoas pagam adiantado pela adaptação, mas os benefícios econômicos às vezes demoram anos para aparecer. Por exemplo, você pode equipar seu estabelecimento com uma estrutura à prova de enchentes hoje, mas um desastre como esse talvez só venha a ocorrer daqui a dez ou vinte anos. E sua reforma não vai gerar lucro; nenhum cliente pagará mais pelos seus produtos porque o esgoto parou de invadir seu porão em dias de enchente. Sendo assim, os bancos não se mostrarão muito dispostos a emprestar dinheiro para seu projeto, ou cobrarão uma taxa de juros mais elevada. De um jeito ou de outro, você tem de arcar com parte do custo sozinho e, nesse caso, talvez prefira não fazer isso. Precisamos tornar a adaptação um investimento atraente”.

E quais seriam os custos e o retorno disso? “investir 1,8 trilhão de dólares entre 2020 e 2030 (criação de sistemas de alerta de tempestades, construção de infraestrutura resistente ao clima, elevação da produtividade das colheitas, manejo da água e proteção aos manguezais) representaria um retorno de mais de 7 trilhões de dólares em benefícios. Isso equivale a cerca de 0,2% do PIB mundial, com um retorno de investimento quase quadruplicado”.

A política e a economia para chegarmos a zero

É a partir do capítulo 10 que falaremos menos de inovações técnicas e mais de política e economia. Bill procura o diálogo e pessoas com um senso prático para tocar a complexa agenda de descarbonização:

“Espero que possamos nos unir em torno de planos capazes de superar as divisões políticas. Como tentei demonstrar, isso pode não ser tão ingênuo quanto parece. Ninguém domina o mercado de soluções efetivas para a mudança climática. Seja você um entusiasta da iniciativa privada, da intervenção governamental ou do ativismo, ou de alguma combinação entre essas coisas, há uma ideia prática em torno da qual pode se unir. Quanto às ideias que não pode apoiar, talvez se sinta obrigado a manifestar publicamente sua opinião, e isso é compreensível. Mas espero que gaste mais tempo e energia apoiando coisas de que é a favor do que se opondo às que é contra”.

No capítulo 10, a importância das políticas públicas, Bill explicita sua tentativa de superar a desconfiança basal que empreendedores como ele tem para com a política:

“Pode parecer irônico que eu defenda uma maior intervenção governamental. Enquanto construía a Microsoft, eu fazia questão de manter distância dos políticos, tanto em Washington como no resto do mundo, considerando que representavam apenas um empecilho ao nosso trabalho”.

Contudo, Bill sabe o papel estratégico que o Estado pode desempenhar na promoção da inovação e dos estímulos econômicos, quando ele realmente sabe o que está fazendo…

“Os integrantes dos governos devem criar normas que determinem quanto carbono as usinas, os carros e as fábricas poderão emitir. Podem adotar regulamentações que direcionem os recursos dos mercados financeiros e esclareçam os riscos das mudanças climáticas para os setores público e privado. Podem ser os investidores principais na pesquisa científica, como atualmente, e elaborar leis que determinem em quanto tempo os novos produtos estarão prontos para o mercado. E ajudar a consertar alguns problemas com que o mercado não está preparado para lidar — incluindo os custos indiretos que produtos emissores de carbono impõem ao meio ambiente e aos seres humanos”.

Bill então propõe 7 metas que os governos de todo mundo (não apenas nacionais, mas também estaduais e das cidades, quando couber) deveriam buscar:

1. Evitar lapsos de investimento: de um modo geral, o papel do governo é investir em pesquisa e desenvolvimento quando a iniciativa privada não o faz por não perceber como extrairá algum lucro. Quando fica claro que as empresas podem ganhar dinheiro, o setor privado assume. Quando uma ideia está em estágio embrionário — quando não temos certeza se vai funcionar, e o sucesso talvez demore mais tempo do que os bancos ou as empresas de capital de risco estão dispostos a esperar —, as iniciativas e as verbas públicas, quando bem aplicadas, podem assegurar que seja explorada até atingir ou esgotar seu potencial. Talvez se trate de uma inovação extraordinária, mas também pode ser um furo n’água, portanto precisamos tolerar alguns inquestionáveis fracassos.

2. Equilibrar o jogo: aqui entramos no problema da externalidade. Poderíamos elevar o custo dos combustíveis fósseis, incorporando aos preços o prejuízo causado por eles. Há várias maneiras, inclusive um imposto sobre carbono ou um programa de comércio de emissões, de assegurar que pelo menos alguns desses custos externos sejam assumidos por seus responsáveis. Para que as empresas possam comprar e vender o direito de emiti-lo, precificar as emissões é uma das coisas mais importantes que podemos fazer para eliminar os Prêmios Verdes. Bill também observa que o conceito de preço do carbono conta com ampla aceitação entre economistas de diversas escolas de pensamento e de todo o espectro político.

Também é possível ir pelo caminho de adoção de padrões de eletricidade limpa. Vinte e nove estados americanos e a União Europeia adotam atualmente um modelo de desempenho chamado padrão de portfólio renovável. A ideia é exigir que as companhias de serviços públicos obtenham uma determinada porcentagem de sua eletricidade de fontes renováveis. São mecanismos flexíveis, lastreados no mercado; por exemplo, as empresas de serviços com mais acesso a fontes renováveis podem vender créditos para outras.

Porém, há um problema no modo como essa iniciativa é colocada em prática atualmente. Ela permite aos serviços públicos usarem apenas determinadas tecnologias de baixo carbono (eólica, solar, geotérmica, às vezes hidrelétrica) e excluem opções como energia nuclear e captura de carbono. Isso na prática eleva o custo geral da redução de emissões.

3. Superar barreiras não relacionadas ao mercado: há algumas situações em que as alternativas verdes na verdade têm um prêmio negativo, ou seja, economizaríamos se a adotássemos. Ainda assim, elas não estão sendo adotadas como deveriam. Por que os locadores não modernizam seus imóveis com equipamentos mais eficientes? Porque repassam a conta de energia para os inquilinos, que normalmente não têm permissão para fazer esse tipo de reforma e, de qualquer modo, provavelmente não morarão na casa por tempo suficiente para colher seus frutos de longo prazo. Essas barreiras não tem muito a ver com custos. Elas existem sobretudo devido à falta de informações, de pessoal capacitado ou de incentivos — áreas em que as políticas públicas corretas podem fazer uma grande diferença.

4. Manter-se atualizado: aqui entramos numa situação em que o Estado atrapalha, com suas regulamentações ultrapassadas. “Se você quer usar concreto em um prédio, as normas de construção especificam nos mínimos detalhes o desempenho esperado do material — sua resistência, quanto peso pode suportar e assim por diante. Podem definir até a composição química exata do concreto a ser utilizado. Esses padrões normalmente excluem o cimento de baixas emissões que você quer usar, mesmo que atenda a todos os padrões de desempenho”. Devemos assegurar que os padrões reflitam os avanços mais recentes em tecnologia, bem como a urgência de chegarmos a zero.

5. Planejar uma transição justa: politicamente este deve ser o ponto mais quente. Como lidar com os que serão prejudicados nesta transição? Cidades e Estados dependentes da extração de combustíveis fosseis, por exemplo (pense no Texas). É compreensível que as pessoas se preocupem com as dificuldades ainda maiores que a transição pode trazer a sua subsistência. Teremos mais apoio a transição energética se buscarmos compreender as preocupações das famílias e comunidades cujo meio de vida será duramente atingido, e as levarmos a sério.

Com certeza existem comunidades onde os empregos bem remunerados no setor de combustíveis fósseis darão lugar naturalmente a, digamos, empregos na indústria de energia solar. Mas muitas outras terão de passar por uma transição difícil para alguma atividade que não seja a extração de combustíveis fósseis. Como as soluções vão variar de um lugar para outro, serão necessários ajustes conduzidos pelas instâncias de governo locais. Mas o governo federal pode ajudar — como parte de um plano abrangente para chegar a zero — fornecendo verbas e consultoria técnica e conectando as comunidades que vivenciam problemas similares no país, de modo a poderem compartilhar soluções.

6. Fazer também a parte difícil: há uma tendência natural a priorizar a parte fácil da transição energética, onde as tecnologias já estão mais maduras e baratas. Mas não podemos nos limitar às medidas óbvias. Temos de nos voltar também às questões complicadas: o armazenamento de energia, os combustíveis, o cimento, o aço, os fertilizantes limpos etc. E isso exigirá uma abordagem diferente em termos de elaboração de políticas públicas. Precisaremos investir mais em pesquisa e desenvolvimento nessas áreas mais difíceis e disponibilizá-las no mercado.

7. Trabalhar simultaneamente na tecnologia, nas políticas e nos mercados: os mercados, as políticas públicas e a tecnologia precisam ser complementares. São como três alavancas que precisamos acionar ao mesmo tempo para tudo funcionar.

Simplesmente implementar alguma política — digamos, padrões de emissão zero para carros — não fará grande diferença se não tivermos a tecnologia para eliminar as emissões ou se não houver uma empresa disposta a fabricar e vender carros dentro dos padrões. Por outro lado, uma tecnologia de baixas emissões — digamos, um dispositivo que capture carbono dos exaustores de uma termelétrica a carvão — não ajudará muito se não criarmos incentivos financeiros para as companhias energéticas o instalarem. E poucas empresas apostarão na invenção de tecnologia de emissões zero se a concorrência levar a melhor vendendo produtos à base de combustíveis fósseis.

Ao fim do capítulo, Bill dá um exemplo bastante elucidativo de erros de políticas públicas que são hoje cometidos. Vale uma transcrição longa:

Em 2005, atento à alta dos preços do petróleo e com o objetivo de diminuir as importações, o Congresso dos Estados Unidos aprovou o Padrão do Combustível Renovável, que determinava metas para o uso de biocombustíveis no país em anos futuros. A mera aprovação dessa legislação serviu para mandar um recado veemente à indústria do transporte, que investiu pesado na tecnologia de biocombustível existente na época — o etanol à base de milho. Esse combustível já competia em certa medida com a gasolina, porque os preços dos derivados do petróleo estavam subindo e os produtores de etanol se beneficiavam havia décadas de crédito fiscal.

A iniciativa funcionou. A produção de etanol rapidamente excedeu as metas estabelecidas pelo Congresso; hoje, um galão de gasolina nos Estados Unidos pode conter até 10% de etanol.

Então, em 2007, o Congresso tentou usar os biocombustíveis para solucionar um problema diferente. A preocupação não eram apenas os preços do petróleo, mas também as mudanças climáticas. O governo elevou as metas de produção e exigiu que cerca de 60% de todos os biocombustíveis vendidos nos Estados Unidos fossem feitos a partir de outros amidos que não o milho. (Biocombustíveis feitos dessa forma reduzem as emissões três vezes mais do que os convencionais.) As refinarias rapidamente cumpriram a meta para os biocombustíveis convencionais à base de milho, mas as alternativas avançadas ficaram muito aquém.

Por quê? Em parte porque a ciência dos biocombustíveis avançados é muito difícil. E os preços do petróleo permaneceram relativamente baixos, o que dificultou a justificativa para maiores investimentos em uma alternativa que será mais cara. Mas um importante motivo é que as empresas que poderiam produzir esses biocombustíveis, e os investidores que poderiam financiá-las, não sentem a menor segurança em relação ao mercado.

O poder executivo prevê déficits na oferta de biocombustíveis avançados, então vai baixando as metas. Em 2017, ela foi reduzida de 5,5 bilhões de galões para 331 milhões. E, às vezes, as novas metas demoram tanto para ser anunciadas que os produtores ficam sem nenhuma expectativa de vendas. É um círculo vicioso: o governo diminui a cota porque espera um déficit, enquanto os déficits continuam ocorrendo porque o governo segue baixando a cota.

A lição aqui é que os responsáveis pelas políticas públicas precisam ter clareza sobre a meta que querem alcançar e estar cientes das tecnologias que tentam promover. Determinar uma meta de uso de biocombustíveis foi uma boa maneira de reduzir a quantidade de petróleo que os Estados Unidos importavam, pois já havia uma tecnologia existente — o etanol de milho — para atender à demanda. A iniciativa induziu a inovação, o desenvolvimento do mercado e a produção em larga escala. Mas determinar uma meta de biocombustíveis não foi uma maneira particularmente eficaz de baixar as emissões, porque os formuladores de políticas públicas não levaram em conta o fato de que a tecnologia adequada — biocombustíveis avançados — continua em estágios iniciais e não passou a segurança de que o mercado precisa para desenvolvê-la.

Alguns princípios são colocados por Bill para evitar esses tipos de problemas: “as políticas governamentais devem ser tecnologicamente neutras (beneficiando todas as soluções que reduzem emissões, não apenas as de sua preferência), previsíveis (em vez de expirarem de tempos em tempos e depois serem estendidas, como acontece hoje com tanta frequência) e flexíveis (de modo que muitas empresas e investidores diferentes possam tirar proveito delas, não apenas quem paga impostos federais elevados).”

O Plano – e mais questões políticas e econômicas

O capítulo 11, um plano para chegar a zero é às vezes um pouco mais repetitivo e técnico, destoando do restante do livro. Tentarei resumir seus principais pontos.

Dividi os diferentes componentes de meu plano em duas categorias. Elas soarão familiares para quem conhece o bê-a-bá da economia: uma está voltada a expandir a oferta de inovações — o número de novas ideias que são testadas — e a outra, a acelerar a procura por inovações. As duas funcionam de mãos dadas, uma influenciando a outra. Sem a procura por inovação, os inventores e os elaboradores de políticas públicas não terão incentivo para produzir novas ideias; sem uma oferta regular de inovações, o consumidor não terá os produtos verdes de que o mundo precisa para chegar a zero.

A primeira seção, expandir a oferta de inovação, trata do clássico processo de pesquisa e desenvolvimento. As medidas práticas a serem tomadas pelo governo seriam estas:

1. Quintuplicar a energia limpa e a área de pesquisa e desenvolvimento relacionada ao clima durante a próxima década: no total, o financiamento público para o setor de pesquisa e desenvolvimento em energia limpa corresponde a cerca de 22 bilhões de dólares anuais, apenas 0,02% da economia mundial. Os americanos gastam mais do que isso com gasolina em apenas um mês.

2. Apostar mais em projetos de pesquisa e desenvolvimento com risco e recompensa elevados: via de regra, maior o risco, maior a recompensa. Não é só questão de quanto os governos gastam. Como as verbas são direcionadas também faz diferença. Alguns governos já tiveram muito prejuízo investindo em energia limpa antes e nossos representantes compreensivelmente não querem transmitir a impressão de que estão desperdiçando o dinheiro do contribuinte. Mas esse medo do fracasso torna míopes os responsáveis pelas políticas públicas em pesquisa e desenvolvimento. Eles tendem a buscar investimentos mais seguros que poderiam e deveriam ser financiados pelo setor privado. O verdadeiro valor da liderança do poder público na área de pesquisa e desenvolvimento é que o governo pode correr riscos com ideias ousadas que talvez fracassem ou não compensem no prazo imediato.

3. Aliar pesquisa e desenvolvimento a nossas maiores necessidades: embora ciência básica e aplicada sejam coisas diferentes, é um erro pensar — como fazem alguns puristas — que a ciência básica não deveria sujar as mãos se ocupando de como produzir algo útil do ponto de vista comercial. Algumas das melhores invenções surgiram quando os cientistas iniciaram sua pesquisa já pensando num uso final para ela; o trabalho de Louis Pasteur em microbiologia, por exemplo, levou às vacinas e à pasteurização. Precisamos de mais programas governamentais para integrar a pesquisa básica e aplicada às áreas em que as inovações são mais necessárias.

4. Trabalhar em parceria com a indústria desde o começo: outra distinção enganosa com que me deparei é a ideia de que a inovação em estágio inicial cabe aos governos, e a inovação em estágio posterior, às indústrias.

A segunda seção trata de acelerar a procura por inovação. Após determinada inovação ser testada em laboratório, precisa ser comprovada no mercado.

Temos de descobrir se a ideia que funcionou no laboratório continua funcionando sob condições reais. A fase de testes é um vale da morte, um lugar onde boas ideias entram para nunca mais voltar. Os governos (assim como as grandes empresas) podem ajudar as startups de energia a sobreviver porque são grandes consumidores. Se priorizarem as compras verdes, ajudarão a disponibilizar mais produtos no mercado, gerando confiança e reduzindo custos.

Eis o que o governo deve fazer:

1. Aproveitar seu poder de compra: governos compram muitas coisas. Qualquer funcionário público responsável por decisões de compra deveria ter um incentivo para buscar produtos mais sustentáveis, aprendendo e aplicando o custo das externalidades nos cálculos de compra.

2. Criar incentivos que baixem os custos e reduzam o risco: os governos podem incentivar o setor privado a optar pelo verde de várias maneiras. Créditos fiscais, garantias de empréstimo e outras ferramentas ajudam a reduzir os Prêmios Verdes e impulsionam a procura por novas tecnologias.

3.Construir a infraestrutura que trará as novas tecnologias ao mercado: nem as tecnologias de baixo carbono competitivas em termos de custo conseguirão conquistar uma fatia do mercado se não houver uma infraestrutura instalada para distribuí-la, antes de mais nada. Os governos em suas várias instâncias precisam ajudar a construir todo esse aparato. Isso inclui linhas de transmissão para energia eólica e solar, estações de recarga para veículos elétricos e oleodutos para o dióxido de carbono e o hidrogênio capturados.

4.Mudar a regulamentação de modo que as novas tecnologias sejam competitivas: quando a infraestrutura estiver construída, precisaremos de novas regras de mercado que proporcionem competitividade às novas tecnologias. Por exemplo, na maioria dos sistemas de distribuição, os serviços de energia que investiram em armazenamento de longa duração não são adequadamente compensados pelo valor que fornecem à rede.

Depois destes passos vem a fase de ganho de escala — da adoção rápida e amplamente disseminada de uma ideia nova. Só alcançamos esse estágio quando o custo é acessível, as redes de fornecimento e os modelos de negócios estão bem desenvolvidos e o consumidor deu mostras de que comprará o que está sendo vendido. A fazenda eólica em terra, a energia solar e os veículos elétricos estão todos nessa fase de crescimento.

Os governos poderiam ajudar precificando o carbono e implantando taxas, como já mencionamos. Ele também poderia adotar padrões de combustível limpo – e de outros produtos também. Padrões de desempenho também podem ajudar a acelerar o uso de cimento, aço, plásticos e outros produtos que geram muitas emissões. Os governos começariam o processo estabelecendo programas de padrões para suas compras e criando programas de etiquetagem que forneçam ao comprador a informação sobre até que ponto cada um dos diferentes fornecedores é “limpo”. A partir daí, podemos expandi-los para padrões que cubram todos os produtos com alta emissão de carbono no mercado, não apenas os adquiridos por um governo.

Produtos importados também teriam de atender a eles, de forma a acalmar a preocupação nacional de que seu setor manufatureiro fabrique produtos mais caros e deixe o país em desvantagem competitiva.

Além de produzir nova tecnologia o mais rápido possível, os governos precisarão aposentar todo equipamento ineficaz movido a combustíveis fósseis — de usinas elétricas a automóveis — com ainda mais rapidez. Usinas são caríssimas, e a energia produzida por elas só é barata se pudermos diluir os custos de construção ao longo de sua vida útil. Por isso empresas e agências publicas relutam em desativar uma usina perfeitamente funcional que talvez ainda teria década de uso pela frente. Incentivos tanto de legislação fiscal como de regulamentação podem acelerar o processo de nos livrarmos destas “velharias”.

Local, Estadual ou Nacional?

A maioria dos governos estaduais ou municipais exerce um papel fundamental em regulamentar a eletricidade, planejar a infraestrutura, como estradas e pontes, e escolher os materiais usados nesses projetos. Os governos locais têm uma importante função para determinar diretrizes de licitações públicas e padrões de desempenho para prédios municipais. Podem dizer como os prédios são construídos e que tipos de energia usam, estabelecendo normas de construção verde. Podem estabelecer uma infraestrutura de recarga para os veículos elétricos e também eletrificar suas frotas de ônibus, viaturas e caminhões de lixo. Já que o assunto é lixo ela também pode buscar soluções mais verdes para a forma como os resíduos dos aterros sanitários são manejados. Também podem restringir o acesso de veículos a combustíveis fósseis de suas vias públicas e usar as leis de zoneamento para aumentar a densidade habitacional, de modo que as pessoas se desloquem menos entre o trabalho e suas casas.

Já a jurisdição dos governos nacionais abrange atividades interestaduais ou internacionais, portanto são eles que instituem as normas que regem os mercados de eletricidade, determinam a regulamentação sobre poluição e definem os padrões para veículos e combustíveis. Eles também usufruem de enorme poder de compra, são a fonte primária de incentivos fiscais e costumam financiar mais pesquisa com dinheiro público do que qualquer outra instância de governo.

Bill finaliza o capítulo dando um exemplo detalhado de como os Estados Unidos poderia reorientar suas atuais políticas e agências para operacionalizar as ideias descritas, nas esferas nacional, estadual e local.

O problema do carona

Bill também aborda neste capítulo como lidar com o problema do carona, também conhecido em português como clandestinidade. Cito:

Como os países ricos podem lidar com aqueles que querem que o problema seja resolvido, mas se recusam a arcar com os custos da solução?

Os Prêmios Verdes dão aos países, especialmente os de rendas média e baixa, um incentivo considerável para resistir a cortar suas emissões. Já vimos exemplos e mais exemplos ao redor do mundo — Canadá, Filipinas, Brasil, Austrália, França e outros — em que o público deixou claro, com seu voto e sua voz, que não deseja pagar mais caro pela gasolina, pelo óleo que alimenta seus sistemas de aquecimento e por outros produtos básicos. A questão não é que essas pessoas queiram um clima mais quente. Só estão preocupadas no quanto as soluções vão lhes custar. Sendo assim, como solucionamos o problema do carona?

Estabelecer metas ambiciosas e se comprometer a cumpri-las, como os países fizeram no Acordo de Paris em 2015, podem ajudar. É fácil menosprezar os acordos internacionais, mas eles são parte de como o progresso acontece: se você tem algum apreço pela camada de ozônio, deve ficar grato ao acordo internacional chamado Protocolo de Montreal. Uma vez determinadas as metas, os países se reúnem em fóruns como o cop21 para relatar seus progressos e compartilhar as iniciativas que vêm dando certo. Esses eventos servem como um mecanismo para pressionar os governos nacionais a fazer sua parte. Quando os governantes de todo o mundo concordam que reduzir as emissões é valioso, fica mais difícil — embora sempre seja possível, como já vimos — ser o do contra que diz: “Que se dane. Continuaremos a emitir gases de efeito estufa”. E quanto aos que se recusarem a cooperar? É notoriamente difícil fazer um país prestar contas por coisas como emissões de carbono. Mas não está fora de cogitação. Por exemplo, os governos que adotam um preço sobre o carbono podem criar o chamado ajuste de fronteira — assegurando que o preço seja pago não só em função do que é produzido internamente, mas também dos produtos importados. (Devem ser feitas concessões para países de baixa renda nos quais a prioridade seja promover o crescimento econômico, e não reduzir suas emissões de carbono já bastante baixas.) Em essência, os governos podem dizer uns aos outros: “Se você quer fazer negócios conosco, precisa levar as mudanças climáticas a sério”.

O que cada um pode fazer?

“Quando alguém quer comer torrada no café da manhã, precisamos assegurar a presença de um sistema capaz de suprir o pão, a torradeira e a eletricidade que a faz funcionar sem acrescentar gases de efeito estufa à atmosfera. Não resolveremos o problema climático dizendo às pessoas para nunca mais comer torrada”.

Quando nos perguntamos o que fazer para limitar as mudanças climáticas, é natural pensar em coisas como comprar um carro elétrico ou comer menos carne. Esse tipo de ação pessoal é importante, pela sinalização que faz ao mercado mas o grosso de nossas emissões depende dos sistemas mais amplos nos quais se desenrola nossa vida diária.

Mas a instalação desse novo sistema de energia requer uma ação política combinada. Por isso, o engajamento no processo político é o passo mais importante que gente de todas as áreas pode dar para evitar um desastre climático.

Nossos representantes adotarão planos específicos para as mudanças climáticas se forem cobrados por seus eleitores. Graças a ativistas do mundo todo, não precisamos gerar demanda: milhões de pessoas já estão envolvidas em um chamado à ação. O que devemos fazer, porém, é transformar essas cobranças em uma pressão que incentive os políticos a tomar decisões difíceis e fazer os pactos necessários para cumprir as promessas de reduzir as emissões.

Telefone, escreva cartas, compareça a câmaras municipais. Sei que soa antiquado, mas cartas e telefonemas para seus representantes eleitos podem exercer um impacto real. Senadores e deputados recebem relatórios frequentes sobre o que seus gabinetes ouvem dos eleitores. Mas não diga simplesmente: “Façam alguma coisa sobre as mudanças climáticas”. Informe-se a respeito da posição deles sobre o assunto, faça perguntas, deixe claro que se trata de uma questão que ajudará a determinar seu voto. Reivindique mais financiamento para pesquisa e desenvolvimento em energia limpa, o desenvolvimento de um padrão de energia limpa, um preço sobre o carbono.

Pense em termos tanto locais como nacionais. Muitas decisões relevantes são tomadas nos âmbitos estadual e local por governadores, prefeitos e legislaturas estaduais e municipais — instâncias em que os cidadãos podem ter um impacto ainda maior do que na esfera federal. Conheça seus representantes, as comissões e conselhos e mantenha contato com eles.

Concorra nas eleições. Concorrer a um assento no Congresso não é fácil. Mas você não precisa começar por aí: pode concorrer a um cargo estadual ou local, onde provavelmente terá maior impacto.

Saindo da política, você pode influir enquanto consumidor. Você também pode sinalizar para o mercado que quer alternativas de carbono zero e está disposto a arcar com o custo disso. Quando se dispõe a pagar mais caro por um carro elétrico, uma bomba de calor ou um hambúrguer vegetariano, a pessoa está afirmando: “Há mercado para essas coisas. Nós as compramos”. Se uma grande quantidade de gente mandar o mesmo recado, as empresas vão responder — e muito rapidamente.

Sem essa sinalização de demanda, as inovações em que os governos e os negócios investem ficarão esquecidas na prateleira. Ou nem serão desenvolvidas, para começo de conversa, porque não há incentivo econômico para fabricá-las. Em termos mais específicos, você pode tomar as seguintes iniciativas:

Reduza suas emissões domésticas. Dependendo de seu tempo e meios financeiros, você pode trocar suas lâmpadas incandescentes por outras de led, melhorar o isolamento térmico de suas janelas, comprar eletrodomésticos mais eficientes. Se vive de aluguel, pode fazer as mudanças que estiverem a seu alcance — como trocar as lâmpadas — e solicitar ao proprietário que cuide do resto. Se está construindo uma casa nova ou reformando uma antiga, pode optar por aço reciclado e tornar o imóvel mais eficiente usando material com desempenho superior em isolamento térmico, como painéis estruturais isolantes, peças pré-fabricadas de concreto armado, barreiras radiantes para telhado ou sótão, isolamento reflexivo e sistemas de isolamento de fundações.

Compre um veículo elétrico. Os veículos elétricos avançaram muito em termos de custo e desempenho.

Experimente um hambúrguer vegetariano. Admito que os hambúrgueres de proteína vegetal nem sempre foram muito saborosos, mas a nova geração de produtos é melhor e está mais próxima da textura da carne do que suas precursoras.

Por fim, você pode influenciar muitas coisas enquanto empregador ou trabalhador de uma empresa.

Alguns passos são mais fáceis de dar do que outros. As coisas mais simples também são importantes — plantar árvores para amortizar emissões, por exemplo, é uma boa medida a ser tomada por razões políticas e ambientais. Isso demonstra que você se importa com as mudanças climáticas. Mas fazer apenas aquilo que é muito fácil não vai resolver o problema. O setor privado também vai ter de se preocupar com os passos mais difíceis. Para começar, isso significa assumir mais riscos — por exemplo, investir em projetos que até podem falir, mas que representem uma boa descoberta em relação a energia limpa.

Aqui estão alguns passos práticos que o setor privado pode seguir:

Estabeleça uma taxa interna de carbono. Algumas empresas têm imposto uma taxa de carbono a cada um de seus departamentos. Isso não significa assumir um falso compromisso com a redução das emissões. O que elas querem fazer é ajudar a tirar os produtos do laboratório e distribuir para o mercado, porque a arrecadação proveniente das taxas internas pode ser destinada diretamente para ações que reduzam os Prêmios Verdes e ajudem a criar um mercado de produtos de energia limpa de que essas empresas vão necessitar. Funcionários, investidores e clientes devem ser porta-vozes dessa abordagem, dando apoio aos executivos responsáveis por sua implementação.

Priorize a inovação em soluções de baixo carbono. Investir em novas ideias costumava ser questão de honra para a maioria das indústrias, mas os anos gloriosos de pesquisa e desenvolvimento corporativo ficaram no passado. Hoje em dia, as empresas nas indústrias aeroespacial, de materiais e de energia gastam em média menos de 5% de sua receita com pesquisa e desenvolvimento. (Empresas de software, mais de 15%.) As companhias deveriam rever suas prioridades de pesquisa e desenvolvimento, com particular atenção às inovações de baixo carbono, muitas das quais exigirão esforços de longo prazo. Empresas maiores podem formar parcerias com pesquisadores do governo para levar experiência comercial prática à pesquisa.

Seja um early adopter. Assim como os governos, as empresas podem se valer do fato de serem grandes compradoras para acelerar a adoção de novas tecnologias. Entre outras coisas, isso implicaria usar veículos elétricos para as frotas corporativas, comprar materiais de baixo carbono para a construção ou reforma de prédios comerciais e se comprometer a consumir uma determinada parcela de eletricidade limpa.

Envolva-se no processo de criação de políticas públicas. O mundo dos negócios não pode ter medo de trabalhar com o governo, da mesma forma que o poder público não pode ter medo de trabalhar com a iniciativa privada.

Ajude os inovadores em estágio inicial a atravessar o vale da morte. Muitos pesquisadores nunca chegam a transformar suas ideias promissoras em produtos porque esse processo seria arriscado ou caro demais. Companhias bem estabelecidas podem ajudar nesse sentido propiciando acesso a sua infraestrutura de testes de produtos e fornecendo dados como métricas de custo. Se quiserem fazer mais, podem oferecer bolsas e programas de incubação para empreendedores, investir em novas tecnologias, criar divisões de negócios especialmente focadas na inovação de baixo carbono e financiar novos projetos de baixas emissões.

Sou otimista porque sei o que a tecnologia é capaz de realizar, e o que as pessoas conseguem fazer. O entusiasmo que vejo nelas para resolver esse problema, acima de tudo entre os jovens, me inspira profundamente. Se nos concentrarmos na grande meta — chegar a zero — e fizermos um planejamento com seriedade para conquistá-la, podemos evitar um desastre. Conseguiremos manter o clima suportável para o mundo, ajudar centenas de milhões de pobres a extrair o máximo proveito de suas vidas e preservar o planeta para as futuras gerações.

Deixe um comentário

You have to agree to the comment policy.