Você já é vegano, sabia?

Semana 10

          “Abate humanizado” é um oxímoro, uma figura de linguagem que une conceitos opostos (como “água seca” ou “barulho silencioso”). Serve para a poesia, mas no mundo real simplesmente não existe. 

Já o veganismo (segundo a Vegan Society): “é um modo de viver que busca excluir, na medida do possível e praticável, todas as formas de exploração e crueldade contra os animais – seja na alimentação, no vestuário ou em outras esferas do consumo”.

Você leitor(a) já busca, na medida do possível e praticável, não participar de violência contra animais. Só nunca tinha parado pra pensar que abate humanizado é um oxímoro, que não existe maneira da carne chegar à sua mesa sem um sofrimento EXTREMO do bichinho. Tão extremo que ninguém aguenta 2 minutos dos vídeos que os veganos (e eu, wannabe vegano) compartilham por aí, né? 

A tortura é, sim, extrema. É a única “comida” que proibimos as crianças de verem como se produz. É a única comida que nós adultos não aguentamos ver produzida. Como diria Aldous Huxley, “os fatos não deixam de existir por serem ignorados”. 

Mas seus problemas acabaram! Dado que você já adota o veganismo e não apoia algumas torturas contra alguns animais (você é contra touradas e rinhas de galo, certo? E contra marteladas na cabeça de cães e gatos também, né?), o próximo passo fica mais fácil: que tal expandir seu círculo de empatia?

Não precisa parar com a carne imediatamente. Eu, nessa nona semana do diário, ainda como (sábado foi fígado acebolado; quarta, sushi). Reduzi para 1 ou 2 vezes por semana, pois ainda não fui ao nutricionista. Também reduzi uns 80% o consumo de leite, queijos e ovos. O ponto interessante: aumentei uns 300% a diversidade/quantidade de plantas que como e aprendi a gostar.

Mas, retomando, não precisa ir tão rápido. O caminho pode ser como se preparar para uma maratona, não para ganhar do Bolt nos 100 metros. Busque seu ritmo, crie um “Roteiro de Violências Abandonadas” analisando o que é possível e praticável para sua vida. Vai treinando seu corpo aos poucos. Temos quatro vezes mais bactérias no corpo que células humanas, podemos ajudá-las a se adaptarem à nova dieta com toda calma possível.

Segue uma sugestão de um caminho tranquilo, sem precisar de nutricionista nem suplementos, uma caminhada suave para os primeiros 12 meses (sem abandonar a picanha!). Tome apenas como um exemplo, adapte como preferir:

  • Mês 1: pare de comer carne de gato, de cachorro e de orangotango como o simpático aqui da foto. E assuma que, nesse primeiro mês, também não comerá nunca outros animais que já não tem costume de comer. 
    • Ex: você já não come baratas, então, se for viajar para a Ásia agora, mantenha sua decisão e não coma nem por curiosidade!
  • Mês 2: dos diversos animais que você já come, escolha apenas 1 para abandonar. Use o critério que preferir: preço, gosto, praticidade, saúde, frequência de consumo, nível de tortura que o animal sofre…
    • Ex: se você buscar pelo nível de tortura, frangos ou porcos seriam bons candidatos (como já mostramos nesse diário). Por praticidade, o porco é o mais fácil de abandonar, basta pedir o fast food sem bacon e separar o presunto da pizza portuguesa.
  • Mês 3: como no passo anterior tivemos um abandono “traumático”, esse mês pode ser mais simples. Prometa-se não comprar nada com couro nunca mais. 
    • Reflexão: para que sapato ou jaqueta ou banco no carro de couro se os materiais sintéticos já são perfeitos substitutos? Qual a graça de ter um chapéu com o couro de 12 coelhos assassinados? 
  • Mês 4: mais um mês fácil. Há quanto tempo você não vai em um zoológico? Pois bem, comprometa-se a não voltar nunca mais.
    • Em sua maioria, busque abandonar qualquer entretenimento que explora animais. Eles não nasceram para ficarem escravos de truques de circo nem presos em celas apertadas.
  • Mês 5: crie o ritual de “segunda sem carne” com sua família. Reduzir o consumo em um dia da semana já é ótimo (não só para o animal, para sua saúde também).
    • que tal ousar tirar de quinta também?
  • Mês 6: pense em mais um tipo de carne para abandonar (faz quatro meses já que você abandonou a outra, nem fez falta, né?). 
    • Se não abandonou o frango no mês 2, considere abandoná-lo aqui. Ele é um dos que mais sofre com maus tratos durante a vida. Ou abandone o consumo de peixes, se preferir priorizar o meio-ambiente.
  • Mês 7: experimente reduzir um pouco (uns 30%?) seu consumo de queijos e leites de animais. 
    • Busque outras alternativas, vá se acostumando lentamente com novos sabores e receitas. Sim, queijos/leites são o mais difícil de substituir, vamos aos poucos, mas um primeiro passo é importante.
  • Mês 8: idem para ovos. 
    • Que tal reduzir a compra de 1 dúzia por mês?
  • Mês 9: cosméticos. Animais são intensamente torturados para testes de cosméticos, acredita? Muitas das grandes marcas já se tornaram veganas. Se a sua preferida ainda tortura animais, cobre dela nas redes sociais…
    • … e faça stories comprando das concorrentes!
  • Mês 10: você está há 5 meses seguindo religiosamente o “segunda sem carne”? Parabéns! Aumente 1 dia. Segunda e quinta sem carne agora, ok?
    • Se já tinha parado 2 dias, que tal inverter e agora só comer carne 2 dias por semana?
  • Mês 11: outro mês fácil, prometa-se nunca mais comprar pets, só adotar. Se você visse os bastidores dos criadouros de animais de raça, ou o roubo de animais silvestres, ficaria revoltado(a).
    • Obs: sim, meu gato foi comprado 7 anos atrás. Foi o último. Animais não são produtos.
  • Mês 12: comemore seu ano de transição vegana com a promessa de nunca mais comer animais vivos. Ou animais que são mortos no próprio restaurante (ex: lagostas, polvos e caranguejos).
    • Obs: sim, tem uma youtuber coreana que faz sucesso comendo animais vivos, inclusive gatos.

Pronto, você passou 12 meses reduzindo a participação na violência contra animais. Aumentou seu círculo de empatia, o número de animais que trata com tanto carinho como trata seu pet. 

Você já era vegano, ficou mais vegano nesse período, não precisou de nutricionista (já que não mudou radicalmente a alimentação) e ainda continua comendo picanha!

Tornar-se completamente vegano não precisa ser traumático. Não precisa nem ser 100%, vai na medida do possível e praticável para cada um. A partir do momento que repudiamos a tortura de cães e gatos, já demos o primeiro passo. Os passos seguintes podem ser aos poucos, uma caminhada, não uma corrida.

Inclusive, você reduz mais sofrimento animal trazendo mais gente para essa jornada suave (que pode durar 5 anos, por que não?) do que radicalmente se tornando 100% vegano quieto na sua. A quantidade de pessoas caminhando na mesma direção é mais importante que o ponto de chegada.

Converse sobre o assunto com a família, em rodas de amigos, com colegas de trabalho, denuncie empresas que exploram e torturam animais no entretenimento, na moda, nos cosméticos. No churrasco do próximo domingo, enquanto devora uma picanha, pegue um caderno e crie seu próprio “Roteiro Anual de Violências Abandonadas”.

Você já deu o primeiro passo, já é vegano, já está em movimento. Dê o próximo passo: qual violência você abandonará no mês que vem?

Bônus: se preferir algo mais acelerado (e com suporte de especialistas!), avalie a experiência de ficar só 1 mês sem carne. Esses 2 links possuem acompanhamento diário: 

Leandro Franz é economista, escritor e wannabe vegano. Seus últimos livros são “A Pequena Princesa” (Ed. Letramento), “No Útero de Paulo, o Embrião não Nascerá” (Ed. Penalux) e “Por toda vida, Carolina” (e-book Amazon).

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