Os limites dos testes de coronavírus no Brasil estão escondendo as verdadeiras dimensões do maior surto da América Latina

sepulturas

Livre tradução de matéria publicada no Washington Post, escrita por Terrence McCoy e Heloísa Traiano.

No topo de uma colina sombreada nos limites de São Paulo, o coveiro crê saber a verdade. Não importa o quão ruim pareça no Brasil — o país mais atingido pelo coronavírus no Hemisfério Sul — a realidade é significativamente pior.

Manoel Norberto Pereira viu outro corpo sendo levado, acompanhado pelo que agora se tornou um conjunto familiar de detalhes. Sexo: feminino. Idade: 77 anos. Causa da morte: respiração insuficiente.

Todo dia há mais deles. O cemitério agora recebe cerca de 50 corpos todos os dias — o dobro da média em tempos normais. Muitos são marcados como casos confirmados de covid-19. Mas muitos mais citam apenas uma doença respiratória não identificada. Para Pereira, eles são o número invisível do coronavírus no Brasil, que infectou oficialmente 51.000 pessoas e matou 3.400 — mas, na realidade, além de números oficiais, muitas vezes mais que isso.

Testes imprecisos e insuficientes são um problema global, mas no Brasil estão em uma escala totalmente diferente. O maior país da América Latina está testando pessoas a uma taxa muito mais baixa do que qualquer outra nação, com pelo menos 40.000 casos confirmados. Testa 12 vezes menos pessoas que o Irã e 32 vezes menos que os Estados Unidos. Pacientes hospitalizados não estão sendo testados. Alguns profissionais da área de saúde não estão sendo testados. As pessoas estão morrendo em suas casas sem serem testadas.

A defasagem na contagem tem debilitado as vozes que pedem por isolamento social, e tem fortalecido negacionistas, como Jair Bolsonaro. O presidente do Brasil descarta a pandemia como uma “fantasia” impulsionada por “uma gripezinha”. Bolsonaro disse neste mês que “parecia que o vírus está começando a ir embora “. Então, na semana passada, ele demitiu seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que havia repetidamente e publicamente contradito o presidente sobre a gravidade da crise.

“A contagem insuficiente autoriza os populistas a dizerem: ‘Veja, as coisas não estão tão ruins’ ‘“, disse Pedro Doria, ex-editor executivo do jornal O Globo. “Há um grande esforço do governo federal para negar a gravidade da pandemia.”

Agora, os apoiadores de Bolsonaro estão se reunindo nas ruas das cidades brasileiras para ampliar seus apelos para reabrir a economia — enquanto os cientistas de dados dizem que o problema é drasticamente pior do que imaginam.

Pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais sugeriram que o Brasil tem oito vezes mais casos de coronavírus do que os números oficiais indicam. Uma equipe de pesquisa da Universidade de São Paulo afirma que há 16 vezes mais — mais de 800.000 casos.

Segundo as estatísticas do governo, cerca de 37.300 pessoas foram hospitalizadas este ano com doenças respiratórias — quatro vezes o número deste mesmo período no ano passado — mas apenas metade recebeu os resultados dos testes. Em São Paulo, quase 1.300 pessoas morreram de problemas respiratórios não identificados. O estado do Amazonas registrou 193 mortes por covid-19. Mas sua capital está enterrando tantas pessoas — três vezes a média — que está cavando trincheiras para valas comuns.

“A grande conclusão é que não sabemos qual é o cenário real”, disse Leonardo Costa Ribeiro, economista da Universidade Federal de Minas Gerais. “Dá a sensação de que é mais controlado, quando a realidade é muito diferente.”

Domingos Alves, um cientista de dados da Universidade de São Paulo, não escondeu sua indignação em relação ao abismo entre como as autoridades do governo falam sobre o vírus e o que os dados mostram.

“Como pesquisador, olho os dados e faço análises para o governo”, disse ele. “Mas como cidadão, estou frustrado. O governo está tentando controlar a epidemia sem os elementos de como controlá-la, porque eles não sabem o quão grave é.

“Vai ficar muito pior. Haverá filas nos hospitais. Haverá filas nos cemitérios. As próximas semanas serão muito sombrias.”

O novo ministro da Saúde, Nelson Teich, nomeado por Bolsonaro para substituir Mandetta, fez do aumento dos testes um pilar da resposta do país à pandemia. Ele disse nesta semana que o governo pretende comprar 46 milhões de testes, o suficiente para pouco mais de um quinto da população. Ele não especificou quando os testes chegarão ou quando serão usados.

“Não estamos falando de testar o país inteiro”, disse Teich. “Vamos usar os testes para que as pessoas testadas reflitam a situação da população brasileira.”

Mas os obstáculos serão enormes — e podem ser um prognóstico das lutas que aguardam grande parte do mundo em desenvolvimento, à medida que o coronavírus avança na América Latina e na África. Uma variável tão básica quanto dados confiáveis ​​pode se tornar um fator distintivo entre países pobres e ricos.

Analistas dizem que o Brasil não possui capacidade de fabricação nem de compra para atender à demanda por testes. Seus laboratórios, já sobrecarregados por uma lista de pendências de testes, não estão equipados para processá-los em escala. E na disputa internacional por suprimentos e equipamentos de teste, o país está perdendo para os países mais ricos que podem pagar mais ou obter maiores vantagens em laços mais estreitos com a China.

“O Brasil pode ser visto como um barômetro do que se poderia esperar em outros países”, disse Marcelo Gomes, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz. “A informação é fundamental. Quanto mais temos, mais podemos conscientizar a população sobre o que exatamente estamos enfrentando. ”

Sem essas informações, disse Paulo Buss, um dos principais especialistas em saúde pública do Brasil, “as consequências são claras”.

As consequências foram claras no mês passado para Bruna Marques, uma mulher de 24 anos no estado de São Paulo. Sua mãe, diabética, asmática e grávida, ficara tão doente que mal podia suportar. Ela estava tendo dificuldade em respirar. Sua temperatura subiu para 40ºC. Dois hospitais a recusaram sem testar o vírus.

O terceiro, a 30 minutos de distância, finalmente a admitiu. Mas em poucos dias ela estava morta, o bebê estava perdido e o funeral terminara. Marques estava em pé sobre o túmulo de sua mãe, furiosa. Ao redor, disse ela, havia outras famílias, igualmente confusas com a morte repentina de entes queridos.

O hospital disse a Marques que sua mãe morreu de insuficiência respiratória aguda. Por semanas ela ligou diariamente, perguntando se era o covid-19. Mas ela nunca recebeu uma resposta.

“Às vezes eles nem esperavam que eu dissesse o nome da minha mãe antes de desligar”, disse ela. “Ninguém me conta o que realmente aconteceu com ela. Foi tudo muito rápido, e só queríamos uma resposta. É desumano. “

Um coveiro no cemitério de Vila Formosa, em São Paulo, um dos maiores da América Latina, disse que começou a perceber mortes estranhas no início de março — semanas antes da primeira morte confirmada por coronavírus no Brasil. As causas da morte — pneumonia, insuficiência respiratória — eram o que ele esperava ver durante o inverno do hemisfério sul, não o pico do verão.

Um dia, vi no noticiário que em toda São Paulo havia 20 enterros de vítimas de coronavírus”, disse o homem, que falou sob condição de anonimato porque não tinha permissão para dar uma entrevista. “Mas eu sabia que só no meu cemitério havia 27”.

Pereira sente a mesma frustração. Alguns dias, ele não consegue acreditar no número de pessoas na rua. Se eles estivessem vendo o que ele viu, de jeito nenhum estariam lá fora. De maneira alguma haveria um debate nacional sobre a reabertura da economia. Ninguém ouviria alegações de que a pandemia havia sido exagerada.

Os corpos não mentem, ele disse. E lá veio outro.

Sexo: masculino. Idade: 100. Causa da morte: respiração insuficiente.

Tradução: Caio Freire

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