Steven Pinker – O Novo Iluminismo

Steven Pinker – O Novo Iluminismo

Prefácio

A segunda metade da segunda década do terceiro milênio pode não parecer uma época auspiciosa para publicar um livro sobre a arrancada histórica do progresso e suas causas. Neste momento em que escrevo, meu país é governado por pessoas que têm uma opinião sombria sobre o nosso tempo: “Mães e filhos aprisionados na pobreza […] um sistema de ensino que deixa nossos jovens e belos estudantes privados de conhecimento […] e o crime, e as gangues, e as drogas que roubam inúmeras vidas”. Estamos “inequivocamente em uma guerra” que se “expande e se alastra”. A culpa por esse pesadelo pode ser atribuída a uma “estrutura global de poder” que erodiu “os alicerces espirituais e morais do cristianismo”.

Nas páginas a seguir, mostrarei que essa avaliação desoladora do estado do mundo é errada. E não apenas um pouco errada: erradíssima, espetacularmente errada, mais errada impossível. Mas este livro não trata do 45o presidente dos Estados Unidos e de seus assessores. Foi concebido alguns anos antes de Donald Trump anunciar sua candidatura, e espero que permaneça por muito mais tempo que o mandato dele. As ideias que prepararam o terreno para a eleição de Trump são comuns a grande parte dos intelectuais e dos leigos, tanto de esquerda como de direita. Entre elas estão o pessimismo quanto aos rumos que o mundo está tomando, o ceticismo em relação às instituições modernas e a incapacidade de conceber um propósito superior fora do âmbito da religião. Apresentarei uma visão diferente do mundo, alicerçada em fatos e inspirada nos ideais do Iluminismo: razão, ciência, humanismo e progresso. Os ideais do Iluminismo são atemporais, como espero demonstrar, e nunca foram mais relevantes do que agora.

(…)

PARTE I — ILUMINISMO

O discernimento do século XVIII, seu entendimento dos fatos óbvios do sofrimento humano e das demandas óbvias da natureza humana, atuaram como um banho de limpeza moral no mundo. Alfred North Whitehead

Nas várias décadas em que lecionei sobre linguagem, mente e natureza humana, já me fizeram algumas perguntas bem estranhas. Qual é a melhor língua? Mariscos e ostras têm consciência? Quando poderei transferir minha mente para a internet? A obesidade é uma forma de violência?

A pergunta mais instigante que já tive de responder, porém, veio no final de uma palestra na qual discorri sobre a ideia tão comum entre os cientistas de que a vida mental consiste em padrões de atividade nos tecidos do cérebro. Uma estudante na plateia levantou a mão e perguntou:

“Por que eu devo viver?”

A candura daquela estudante deixou claro que ela não era suicida nem estava sendo sarcástica; tinha uma curiosidade genuína sobre como encontrar sentido e propósito considerando que a nossa melhor ciência solapa as crenças religiosas tradicionais em uma alma imortal. Minha premissa é sempre de que não existe pergunta idiota e, para surpresa da estudante, da plateia e sobretudo minha, consegui formular uma resposta razoavelmente digna de crédito. O que me recordo de ter dito — embelezado, claro, pelas distorções da memória e pelo esprit de l’escalier (A tendência de só nos lembrarmos de dar uma resposta espirituosa depois que já não estamos mais na conversa.) — foi mais ou menos o seguinte:

No próprio ato de fazer essa pergunta você está buscando razões para suas convicções, portanto está comprometida com a razão como o meio para descobrir e justificar o que é importante para você. E há tantas razões para viver!

Como um ser senciente, você tem o potencial para se desenvolver. Pode refinar sua faculdade de raciocínio aprendendo e debatendo. Pode procurar explicações sobre o mundo natural na ciência e revelações sobre a natureza humana nas artes e humanidades. Pode explorar ao máximo a sua capacidade de prazer e satisfação, sendo isso o que permitiu aos seus ancestrais prosperar e, assim, possibilitar que você viesse a existir. Pode apreciar a beleza e a riqueza do mundo natural e cultural. Como herdeira de bilhões de anos em que a vida se perpetuou, você pode, por sua vez, perpetuar a vida. Você foi dotada do sentimento de solidariedade — definido aqui como a capacidade de gostar, amar, respeitar, ajudar e demonstrar bondade — e pode desfrutar o dom da benevolência mútua com amigos, parentes e colegas.

E, como a razão lhe diz que nada disso é exclusividade sua, você tem a responsabilidade de dar a outros o que espera para si. Você pode proporcionar bem-estar a outros seres sencientes aprimorando a vida, a saúde, o conhecimento, a liberdade, a abundância, a segurança, a beleza e a paz. A história mostra que, quando nos solidarizamos uns com os outros e aplicamos a nossa engenhosidade para melhorar a condição humana, o progresso torna-se possível, e você pode contribuir para a continuidade desse progresso.

Explicar o sentido da vida não costuma fazer parte das atribuições de um professor de ciência cognitiva, e não me atreveria a tentar responder a pergunta daquela estudante se a resposta dependesse dos meus conhecimentos técnicos herméticos ou da minha duvidosa sabedoria pessoal. Mas eu sabia que estava canalizando um conjunto de crenças e valores que haviam tomado forma mais de dois séculos antes e que agora são mais relevantes do que nunca: os ideais do Iluminismo.

O princípio iluminista de que podemos aplicar a razão e a solidariedade para aprimorar o desenvolvimento humano pode parecer óbvio, banal, antiquado. Escrevi este livro porque me dei conta de que não é o caso. Mais do que nunca, os ideais da razão, da ciência, do humanismo e do progresso necessitam de uma defesa entusiasmada. Não damos o devido valor às suas benesses: recém-nascidos que viverão por mais de oito décadas, mercados abarrotados de alimentos, água limpa que surge com um movimento dos dedos, dejetos que desaparecem com outro, comprimidos que debelam uma infecção dolorosa, filhos que não são mandados para a guerra, filhas que podem andar na rua em segurança, críticos de poderosos que não são presos ou fuzilados, o conhecimento e a cultura mundiais disponíveis no bolso da camisa. Mas tudo isso são realizações humanas, e não direitos cósmicos inatos. Na memória de muitos leitores deste livro — e na experiência de pessoas em partes menos afortunadas do planeta — , guerra, carestia, doença, ignorância e ameaça letal são uma parte natural da existência. Sabemos que países podem regredir a essas condições primitivas, portanto é um perigo não darmos o devido valor às realizações do Iluminismo.

Ao longo dos anos, depois de ter respondido à pergunta daquela jovem, sou lembrado frequentemente da necessidade de reafirmar os ideais do Iluminismo (também chamado de humanismo, sociedade aberta, liberalismo cosmopolita ou clássico). Não apenas porque perguntas como a dela aparecem de tempos em tempos na minha caixa de mensagens. (“Caro professor Pinker, que conselho daria a alguém que leva a sério as ideias expostas em seus livros e pela ciência e vê a si mesmo como um conjunto de átomos? Uma máquina com escopo limitado de inteligência, originada por genes egoístas, habitante do espaço-tempo?”) É também porque o esquecimento da dimensão do progresso humano pode levar a sintomas piores do que a angústia existencial. Pode levar ao ceticismo com relação às instituições inspiradas no Iluminismo que asseguram esse progresso — por exemplo, a democracia liberal e as organizações de cooperação internacional — e direcionar as pessoas para alternativas atávicas.

Os ideais do Iluminismo são produtos da razão humana, mas vivem em conflito com outras facetas da nossa natureza: lealdade à tribo, acato à autoridade, pensamento mágico, atribuição de infortúnio a elementos malfazejos. A segunda década do século XXI testemunhou a ascensão de movimentos políticos segundo os quais seus países estão sendo empurrados para uma distopia infernal por facções malignas que só podem ser combatidas por um líder forte, capaz de forçar um retrocesso do país a fim de torná-lo “grande novamente”. Esses movimentos foram favorecidos por uma narrativa compartilhada por muitos de seus mais ferrenhos oponentes: a de que as instituições da modernidade fracassaram e todos os aspectos da vida estão em crise acelerada — os dois lados na macabra concordância de que destruir essas instituições farão do mundo um lugar melhor. Já mais difícil de encontrar é uma perspectiva positiva que veja os problemas do mundo contra um pano de fundo de progresso e procure usá-la como trampolim para resolvê-los.

Se você ainda não está convencido de que os ideais do humanismo iluminista precisam de uma vigorosa defesa, considere o diagnóstico de Shiraz Maher, um analista dos movimentos islamitas radicais: “O Ocidente se envergonha de seus valores, não assume a defesa do liberalismo clássico. Não temos segurança a seu respeito. Eles nos constrangem”. Compare isso com o Estado Islâmico, que “sabe exatamente o que defende”, e essa segurança é “incrivelmente sedutora” — e Maher deve saber disso muito bem, pois já foi diretor regional do grupo jihadista Hizb ut-Tahrir.

Ao refletir sobre os ideais liberais em 1960, não muito tempo depois de passarem pelo seu maior teste, o economista Friedrich Hayek observou:

“Para que verdades antigas conservem seu lugar nas mentes dos homens, elas precisam ser reafirmadas na linguagem e nos conceitos das sucessivas gerações” (sem perceber, ele provou seu argumento com a expressão “mentes dos homens”). “O que, em dada época, foram suas expressões mais eloquentes torna-se pouco a pouco tão desgastado pelo uso que deixa de possuir um significado claro. As ideias básicas podem ser tão válidas quanto sempre foram, mas as palavras, mesmo quando se referem a problemas que continuam conosco, já não transmitem a mesma convicção.”

Este livro é minha tentativa de reafirmar os ideais do Iluminismo de acordo com a linguagem e os conceitos do século XXI. Primeiro, armarei uma estrutura para compreendermos a condição humana alicerçada na ciência moderna: quem somos, de onde viemos, quais são nossos desafios e como podemos enfrentá-los. A maior parte do livro é dedicada a defender esses ideais de um modo característico do século XXI: com dados. Essa análise do projeto iluminista baseada em evidências revela que não se trata de uma esperança ingênua. O Iluminismo deu certo — talvez seja a maior história (quase nunca contada) de todos os tempos. E, como o seu triunfo é tão pouco alardeado, os ideais fundamentais da razão, da ciência e do humanismo também são pouco valorizados. Longe de ser um consenso insípido, esses ideais são tratados com indiferença, com ceticismo e às vezes com desprezo por intelectuais do nosso tempo. Procurarei mostrar que, na verdade, quando avaliados adequadamente, os ideais do Iluminismo são empolgantes, inspiradores, nobres — uma razão para viver.

 

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