Havia uma menina, e seu tio a vendeu.

neil gaiman capa do livro deuses americanos

HAVIA UMA MENINA, e seu tio a vendeu, escreveu o sr. Íbis em sua caligrafia elaborada e perfeita.

A história é essa; o resto é detalhe.

Existem historias verídicas em que a trajetória de cada indivíduo é exclusiva e trágica, mas o pior da tragédia é que já a ouvimos antes, então não nos permitimos senti-la em toda a sua intensidade. Criamos uma carapaça em torno dela, como uma ostra que lida com uma partícula invasora dolorosa, revestindo-a com suaves camadas de pérola para processá-la. É assim que andamos e conversamos e agimos, dia sim, dia não, imunes à perda e à dor dos outros. Se deixássemos que isso nos tocasse, seríamos derrubados ou transformados em santos; mas, na maior parte das vezes, não encosta em nós. Não permitimos que o faça.

Hoje à noite, quando você estiver comendo, tente refletir: existem crianças no mundo que passam fome, milhares delas, uma quantidade maior do que a mente humana é capaz de assimilar, em que um erro de um milhão para mais ou para menos pode ser perdoado. Talvez lhe cause desconforto refletir sobre isso, ou talvez não, mas, ainda assim, você comerá.

Existem relatos de que, se deixarmos esses sentimentos adentrarem nosso coração, eles nos infligirão cortes profundos. Veja: ali está um bom homem, bom a seus próprios olhos e aos olhos de seus amigos: ele é fiel e leal a sua esposa, adora seus filhos pequenos e cuida deles com todo o carinho, ama seu país, se dedica a seu trabalho, sempre fazendo o melhor que pode. Então, com eficiência e benevolência, ele extermina judeus: ele aprecia a música que soa ao fundo para deixá-los mais calmos; aconselha os judeus a não se esquecerem do número de identificação ao entrarem nas duchas — avisa que muitas pessoas esquecem o próprio número e pegam a roupa errada ao saírem do banho. Isso tranquiliza os judeus: eles dizem a si mesmos que haverá vida após as duchas. Mas eles se enganam. Nosso homem supervisiona a equipe que leva os corpos até os fornos; e, se ele se sente mal, é porque ainda permite que o extermínio das pragas o afete. Ele sabe que, se fosse um bom homem de verdade, sentiria apenas alegria conforme a terra é purificada da infestação.

Deixe-o aí; causa-nos um corte profundo demais. Ele está próximo demais, e isso dói.

Havia uma menina, e seu tio a vendeu. Dito dessa forma, parece muito simples.

Nenhum homem, proclamou Donne, é uma ilha, e ele estava enganado. Se não fôssemos ilhas, estaríamos perdidos, afogados nas tragédias uns dos outros. Nós nos insulamos (uma palavra que significa, literalmente, lembre-se, transformado em ilha) diante da tragédia alheia, devido a nossa natureza de ilha, e devido ao aspecto repetitivo das histórias. Conhecemos o formato dessas histórias, e ele nunca muda. Houve um ser humano que nasceu, viveu e, de alguma forma, morreu. Pronto. Você pode preencher os detalhes a partir de sua própria experiência. Uma história tão pouco original quanto qualquer outra, uma vida tão singular quanto qualquer outra. As vidas são como flocos de neve: únicos em cada detalhe e capazes de formar padrões já vistos antes, mas tão semelhantes uns aos outros quanto ervilhas dentro de uma vagem (e você já olhou para ervilhas dentro de uma vagem? Digo, já olhou mesmo para elas? Após um minuto de exame atento, não há como não enxergar as diferenças entre elas).

Precisamos de histórias individuais. Sem os indivíduos, vemos apenas números: mil mortos, cem mil mortos, “‘as baixas podem chegar a um milhão”. Com histórias individuais, as estatísticas se transformam em pessoas — mas até isso é uma mentira, pois as pessoas continuam a sofrer em quantidades que também entorpecem e carecem de sentido.

Olhe, veja a barriga inchada do menino, e as moscas que andam pelos olhos dele, os membros esqueléticos: seria mais se você soubesse o nome dele, sua idade, seus sonhos, seus medos? Se o visse por dentro? E, se fosse, não seria um desserviço à irmã dele, que repousa na terra ardente a seu lado, uma figura distorcida e estirada, uma caricatura de criança humana? E, agora que nos solidarizamos com a dor dessas crianças, elas são mais importantes para nós do que outras mil crianças atingidas pela mesma fome, mil outras vidas jovens que logo se tornarão comida para as crianças contorcidas de fome das próprias moscas, as larvas?

Traçamos nossos limites em torno desses momentos de dor e permanecemos em nossas ilhas, e assim eles não são capazes de nos ferir. São então cobertos por uma camada suave, segura, lustrosa, para que assim eles possam cair, como pérolas, de nossa alma sem causar dor genuína.

A ficção permite que nos esgueiremos para dentro dessas outras cabeças, desses outros lugares, e olhemos por outros olhos. E então, na história, paramos antes de morrer, ou morremos ilesos na pele de terceiros, e no mundo além da história viramos a página ou fechamos o livro e continuamos com nossa vida.

Uma vida que é, como todas as outras, diferente de todas as outras.

E a verdade pura e simples é esta: havia uma menina, e seu tio a vendeu.

Autor: Neil Gaiman no livro Deuses Americanos.

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